sábado, 31 de maio de 2014

Biografia de Harvey Samuel Firestone


Harvey Samuel Firestone
Harvey Samuel Firestone. Nasceu em Columbiana, Ohio, a 20 de Dezembro de 1868, e, faleceu em Miami Beach, a 7 de Fevereiro de 1938. Harvey Firestone foi um empresário estadunidense. Ficou conhecido como o industrial que estabeleceu a companhia de pneus e borrachas Firestone, empresa que foi, durante cerca de 80 anos, a maior fabricante de pneumáticos do país. Em Detroit, Samuel Firestone foi o primeiro homem a conduzir um "buggy" com pneus de borracha, na altura em que trabalhava como responsável da empresa do seu tio. Foi quando este negócio de construção de "buggys" falhou que Harvey Firestone se mudou para Chicago, em 1896. Em conjunto com alguns sócios, deu início a um estabelecimento de comercialização de pneus. Em 1900, o empresário norte-americano mudou-se para Akron, na altura o centro produtivo de pneumáticos. Nessa cidade desenvolveu a sua patente - um mecanismo para aplicar pneus de borracha nos eixos de rodas normais - e com um sócio montou uma empresa. Dois anos mais tarde, a companhia de Firestone deixou de vender mecanismos produzidos por outras empresas. O norte-americano comprou então uma fábrica onde começou a produzir os seus próprios pneus. Em 1904, Firestone já produzia pneus para automóveis e foi o primeiro no fornecimento deste tipo de produtos para a fabricante de automóveis Ford. O negócio estabelecido entre as duas companhias fez com que Firestone atingisse, em 1906, o topo da indústria pneumática americana. A Firestone manteve um carácter inovador, sendo pioneira na concepção de vários produtos. A companhia promoveu o uso dos caminhões pesados nas frotas comerciais, e pertenceu a "lobbies" que tentaram pressionar a construção de redes de auto-estradas. O negócio de Harvey Firestone estendeu-se à Ásia. O empresário americano pretendia enfrentar o domínio britânico naquela área do globo e, para tal, comprou as plantações de borracha na Libéria. Harvey Samuel Firestone esteve na presidência da companhia de pneus e borracha Firestone até 1932, altura em que foi substituído pelo seu filho. Em 1974 foi incluído no Automotive Hall of Fame.



Firestone Tire and Rubber Company

Firestone Tire and Rubber Company é uma fábrica de pneus fundada em 1900 por Harvey Firestone e que foi comprada pela empresa japonesa Bridgestone, também do ramo de pneus.



História

Henry Ford, ca. 1919.
A Firestone foi fundada em 3 de Agosto de 1900, em Ohio (EUA), com o nome de Firestone Tire & Rubber Company, pelo jovem empreendedor Harvey Firestone, com um capital inicial de US$20 mil. Inicialmente, a empresa fabricava pneus para carruagens e contava, então, com 12 empregados. Desde o início, Firestone se preocupou com a constante melhoria da qualidade de seus produtos. Por esta razão, seus pneus foram escolhidos por Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, para equipar o primeiro automóvel produzido em série. Em 1938, quando Firestone morreu, aos 69 anos, a companhia já tinha várias fábricas espalhadas pelo mundo - a unidade brasileira iniciaria suas operações um ano depois, em Santo André (São Paulo).



Segunda Guerra Mundial

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Firestone, além de pneus, passou a produzir asas de avião, esteiras para tanques, caminhões antiaéreos e tanques de oxigênio. Com o aumento da demanda por veículos importados e seus componentes, após o fim da guerra, as vendas da Firestone chegavam à marca de US$ 1 bilhão em 1953. Onze anos depois, a empresa adquiriu a divisão de pneus da Seiberling Rubber Co. nos EUA. Em seus mais ambiciosos investimentos até então, a companhia comprou 300 lojas de serviços automotivos da J.C. Penney, em 1983, com o objetivo de diversificar suas atividades como produtora de pneus.



Aquisição pela Bridgestone

A união com a Bridgestone aconteceu em 1988, quando a empresa sediada no Japão adquiriu a Firestone por US$ 2,6 bilhões. Em seguida, a Bridgestone anunciou um plano de investimentos da ordem de US$ 1,5 bilhão nas operações da empresa e, um ano depois, surgia a Bridgestone Americas Holding, que incorpora as operações da Bridgestone do Brasil nas Américas.



Referências


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Biografia de Leopold Ritter von Sacher-Masoch


Leopold Ritter von Sacher-Masoch
Leopold Ritter von Sacher-Masoch. Nasceu em Lviv, a 27 de Janeiro de 1836, e, faleceu em 9 de Março de 1895. Leopold Ritter von Sacher-Masoch foi um escritor e jornalista austríaco, cujo nome esteve na base da criação, pelo psiquiatra alemão Richard von Krafft-Ebing, do termo masoquismo. O termo deriva de seu nome graças ao seu romance A Vênus de Peles (1870) onde um dos personagem atinge o gozo após ser surrado pelo amante da sua esposa. Durante sua vida, Sacher-Masoch ganhou renome por seus contos galicianos. Era conhecido também como um homem das letras, às vezes comparado com Ivan Turgeniev, que era visto como um potencial sucessor de Johann Wolfgang von Goethe. Foi um pensador utópico que com suas visões regionalista, moralista e doutrinária expôs um pouco das idéias socialistas e humanistas em seus escritos. Alguns de seus textos foram traduzidos para português por Carlos von Koseritz.

Masoquismo
Masoquismo é uma tendência ou prática parafílica, pela qual uma pessoa busca prazer ao sentir dor ou imaginar que a sente. Em um sentido extenso pode-se considerar como masoquismo também a forma de prazer com a humilhação verbal. O termo masoquismo deriva do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch. O masoquismo é uma tendência oposta e complementar ao sadismo. Uma relação onde as duas tendências se complementam é denominada sadomasoquista. A denominação masoquismo define o prazer sexual relacionado com o desejo de sentir dor no corpo, será mediante a humilhação e dominação, o termo foi descrito pelo médico alemão Richard von Krafft-Ebing. Entretanto, verifica-se que em muitos casos o prazer não advém exatamente da sensação corpórea de dor, mas sim de uma situação de inferioridade perante o parceiro sexual. Atualmente o masoquismo está incorporado às subculturas SM (sadismo-masoquismo) e BDSM (Bandage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo um grupo de padrões de comportamento sexual humano), como uma forma de expressão sócio-sexual coletiva ou individual.

Sadomasoquismo
Sadomasoquismo refere-se a relações entre tendências diferentes entre pessoas buscando prazer sexual. O termo sadomasoquismo seria a relação entre tendências opostas, o sadismo e masoquismo. O sadismo é a tendência em uma pessoa que busca sentir prazer em impor o sofrimento físico e moral a outra pessoa. O masoquismo é a tendência oposta ao sadismo, é a tendência em uma pessoa que busca sentir prazer em receber o sofrimento físico e moral de outra pessoa. A relação destas duas tendências não representa que a mesma pessoa possui as duas tendências e sim um contato entre pessoas com tendências opostas, sadomasoquismo não é uma tendência e sim relações entre tendências. O sadomasoquismo nem sempre envolve o sexo com penetração, sendo muito comum a masturbação mútua.

A Vênus das Peles (livro)
A Vênus das Peles é a obra mais conhecida de Leopold von Sacher-Masoch. O autor teve, em vida, o projeto de publicar uma coleção de livros chamada "O Legado de Caim", na qual trataria a condição humana na Terra. A história de A Vênus das Peles é protagonizada por Severin, um jovem nobre, cujo pai possuía terras na região da Galícia (Europa Oriental); e Wanda, uma também jovem viúva que vivia em sua propriedade nos Cárpatos. A paixão entre os dois personagens se inicia com uma discussão sobre a possibilidade de efetiva felicidade das duas partes em uma relação duradoura entre homem e mulher. Wanda e Severin discutem a possibilidade de uma relação entre homem e mulher trazer efetiva felicidade para ambas as partes. Uma suposta tendência a dominação rege a discussão, frequentemente representada pela figura de um martelo que golpeia uma bigorna, acusando que no amor um necessariamente domina (o martelo) e o outro necessariamente é dominado (a bigorna). A solução para a discussão é o elemento que tornou célebre o livro de Sacher-Mascoh, Severin sugere a Wanda que seja o seu escravo, acordo que é selado com um contrato que põe a vida de Severin nas mãos de sua amada. A história é salpicada de cenas em que o personagem é amarrado e chicoteado por Wanda e, mesmo, por uma cena em que ele é posto a puxar uma arado sob chicotadas. Severin declara sentir prazer com tais experiências, durante as quais, pede que sua amante vista-se com roupas de peles de animais. O prazer em sentir dor e humilhação relatados pelo escritor foram eternizados sob o termo derivado de seu nome masoquismo pelo psiquiatra Richard von Krafft-Ebing. Ficando ainda mais conhecido depois que Sigmund Freud o emprega. No entanto, esse aspecto parece ser apenas o pano de fundo para a discussão da dominação no seio de uma relação amorosa; a qual Sacher-Masoch conclui ao final do livro: "[…] a mulher, tal como a natureza criou e como o homem atualmente a educa, é sua inimiga, podendo tão-somente ser sua escrava ou sua déspota - jamais a sua companheira. Isto, só quando ela tiver os mesmos direitos que ele, só quando por nascimento, pela formação e pelo trabalho, for igual a ele".

Referências

Biografia de Mary Wollstonecraft


Wollstonecraft por John Opie (1797).
Mary Wollstonecraft. Nasceu em Londres, a 27 de Abril de 1759, e, faleceu, também em Londres, a 10 de Setembro de 1797. Mary Wollstonecraft foi uma escritora inglêsa do século XVIII, assim como filósofa e defensora dos direitos das mulheres. Durante a sua breve carreira, escreveu romances, tratados, um livro sobre viagens, uma história sobre a Revolução Francesa, um livro sobre comportamento social, e livros para crianças. O trabalho mais conhecido de Mary Wollstonecraft é A Vindication of the Rights of Woman (1792), no qual ela defende que as mulheres não são, por natureza, inferiores aos homens, mas apenas aparentam ser por falta de educação. Ela sugere que, tanto os homens como as mulheres devem ser tratados como seres racionais, e concebe uma ordem social baseada nessa razão. Até ao final do século XX, a vida de Wollstonecraft, que incluiu várias relações pessoais não-convencionais, foi alvo de mais atenção do que os seus trabalhos. Depois de duas relações fracassadas, com Henry Fuseli e Gilbert Imlay (de quem teve uma filha, Fanny Imlay), Wollstonecraft casou com o filósofo William Godwin, um dos pais do movimento anarquista. Wollstonecraft morreu com 38 anos de idade, dez dias depois de ter dado à luz a sua segunda filha, deixando vários manuscritos inacabados. A sua filha Mary Wollstonecraft Godwin também se tornaria uma escritora, com o nome de Mary Shelley, a autora de Frankenstein. Depois da morte de Mary Wollstonecraft, o seu marido publicou uma Memória (1798) da sua vida, revelando o seu estilo de vida menos ortodoxo, que lhe destruiu a sua reputação por quase um século. Contudo, com o advento do movimento feminista no virar do século XX, a defesa feita por Wollstonecraft da igualdade das mulheres, e das críticas às convenções de natureza feminina, tornaram-se cada vez mais importantes. Nos dias de hoje, Wollstonecraft é vista como uma das fundadoras do feminismo filosófico, e é habitual as feministas citarem tanto a sua vida, como a sua obra, como influências importantes.



Biografia

Primeiros anos

Wollstonecraft nasceu em 27 de Abril de 1759 em Spitalfields, Londres. Foi a segunda de sete filhos de Edward John Wollstonecraft e Elizabeth Dixon. Embora a sua família tivesse um rendimento razoável, durante os primeiros anos da sua vida, o seu pai foi esbanjando-o em negócios especulativos. Aos poucos, a família foi tornando-se financeiramente instável, sendo frequentemente forçados a mudar de casa durante a adolescência de Wollstonecraft. A situação financeira da família acabou por ficar tão degradada que o pai de Mary a obrigou a entregar o dinheiro que ela tinha juntado. Para além disso, aparentava ser violento ao ponto de bater na sua mulher durante episódios de alcoolismo. Quando adolescente, Mary costumava ficar deitada à porta do quarto da sua mãe para a proteger. Mary também agia de forma semelhante, maternal, em relação às suas irmãs, Everina e Eliza, ao longo da sua vida. Por exemplo, em determinada altura de 1784, convenceu Eliza, que sofria, provavelmente, de depressão pós-parto, a deixar o marido e o filho; Mary preparou a sua fuga, demonstrando a sua tendência em contrariar as normas sociais. No entanto, os custos foram elevados: a sua irmã foi alvo de condenação social, e, porque não podia casar de novo, ficou para sempre ligada a uma vida de pobreza e trabalho difícil. Durante os primeiros anos da sua vida, Mary teve duas amizades que moldaram a sua personalidade. A primeira foi com Jane Arden em Beverley. As duas amigas liam livros em conjunto e assistiam a palestras dadas pelo pai de Jane, um filósofo e cientista. Wollstonecraft divertia-se na atmosfera intelectual da casa dos Arden, e dava muita importância à sua amizade com Jane, por vezes ao ponto de ser emocionalmente possessiva. Wollstonecraft escreveu-lhe: "Criei noções românticas de amizade... sou um pouco única nos meus pensamentos acerca do amor e da amizade; tenho que estar em primeiro lugar, ou então em nenhum". Em algumas das cartas de Mary a Jane, ela mostra algumas das emoções depressivas e voláteis que a perseguiriam para o resto da sua vida. A segunda, e mais importante amizade foi com Fanny (Frances) Blood, apresentada a Mary pelos Clares, um casal de Hoxton que se iriam tornar em figuras parentais para ela; Wollstonecraft atribuiu a Blood a abertura da sua mente. Descontente com a sua vida caseira, Wollstonecraft decidiu dar um rumo à sua vida em 1778, e aceitou um emprego como dama de companhia de Sarah Dawson, uma viúva a viver em Bath. Contudo, However, Wollstonecraft não se dava bem com a temperamental mulher (uma experiência que ela refere quando descreve os lados negativos da sua posição em Thoughts on the Education of Daughters, 1787). Em 1780, Mary regressa a casa para tratar da sua mãe que se encontrava a morrer. Depois da morte da sua mãe, em vez de regressar a casa de Dawson, Wollstonecraft foi viver com os Blood. Ao longo dos dois anos que passou com a família, Mary apercebeu-se que tinha idéias diferentes de Fanny, a qual estava mais ligada aos valores tradicionais femininos do que Mary. Mas esta permaneceu dedicada a Fanny, e à sua família, por toda a sua vida (era frequente ajudar financeiramente o irmão de Fanny). Wollstonecraft tinha imaginado viver uma vida num contexto feminino e utópico com Fanny; fizeram planos para arrendar quartos e para se apoiarem, mutuamente, emocional e financeiramente, mas o sonho caiu por terra dadas a realidade das condições econômicas. Para poderem ter uma base financeira segura, Mary, as sua irmãs e Fanny, criaram uma escola em Newington Green, uma comunidade de dissidentes ingleses. Entretanto, Fanny ficou noiva e, após o seu casamento, o seu marido, Hugh Skeys, levou-a para Lisboa para tratar da sua saúde, a qual tinha sido sempre fraca. Apesar da mudança de ares, a saúde de Fanny deteriorou-se ainda mais quando ficou grávida, e, em 1785, Mary deixou a escola e foi ter com Fanny para cuidar dela, mas sem sucesso. Além disso, o seu afastamento da escola levou ao seu encerramento. Fanny acabou por falecer deixando Mary desolada. Este período da sua vida serviria de inspiração para o seu primeiro romance, Mary: A Fiction (1788). No contexto da Revolução Francesa, Price fez, em Novembro de 1789, um sermão no qual afirmou que o povo inglês também tinha o direito de destronar um rei, caso este fosse cruel. Este sermão incentivou Mary a escrever textos políticos sobre os mais variados temas, do tráfico de escravos às injustiças de tratamento para com os mais pobres. Um destes artigos, A Reivindicação dos Direitos do Homem, chamou a atenção de autores como Tom Paine, William Blake, Edmund Burke, Jean-Jacques Rousseau e Voltaire, fazendo com que as idéias da autora fossem discutidas nos principais círculos intelectuais da França e do Reino Unido. Em seguida, Mary publicou a sua obra mais importante, A Reivindicação dos Direitos da Mulher (1790), em que estão lançadas as bases do feminismo moderno. Mary via a educação como um caminho para as mulheres conquistarem um melhor status econômico, político e social. Defendia não apenas que elas tinham direito à educação como afirmava que, da igualdade na formação de ambos os sexos, dependia o progresso da sociedade como um todo. Entre as suas passagens mais polêmicas, Mary afirma que o casamento é uma espécie de "prostituição legal", que as mulheres são "escravos convenientes", e que o único modo de as mulheres continuarem livres é se mantendo longe do altar. As suas ideias sobre o casamento são ilustradas no conto "Maria", no qual a protagonista de mesmo nome é internada em um hospital para doentes mentais, vítima dos maus-tratos do marido cruel. Mary teve uma filha com o escritor Gilbert Imlay, a quem deu o nome de Fanny. Posteriormente, casou-se com o também escritor William Godwin, um dos mais proeminentes ateus da sua época e pioneiro do movimento anarquista, com quem teve, em 1797, a sua segunda filha, a escritora Mary Wollstonecraft Shelley, que obteve fama como autora de Frankenstein. Desse parto, devido a complicações (a tentativa de retirada da placenta, que ficara presa no útero), Mary sofreu uma forte hemorragia, vindo a falecer apenas dez dias depois, vitimada pela septicemia. No Brasil, Nísia Floresta foi a responsável pela primeira tradução, no país, da obra de Mary Wollstonecraft, ainda no século XIX.



A Vindication of the Rights of Woman



Frontispício de A Vindication of the
Rights of Woman
, de Mary
Wollstonecraft.
A obra de Mary Wollstonecraft A Vindication of the Rights of Woman (Reivindicação dos Direitos da Mulher) (1792) é uma das primeiras da literatura e da filosofia feministas. Nela, Wollstonecraft responde aos teóricos políticos e educacionais do século XVIII, os quais apoiavam o fato de que as mulheres não tiveram acesso à educação. A escritora afirma que as mulheres deveriam ter uma educação proporcional à sua posição na sociedade e então proceder a redefinir essa posição, pois sustenta que as mulheres são essenciais para a nação, já que educam as crianças dessa sociedade, e poderiam ser "companheiras" de seus maridos, em vez de meras esposas. Em vez de ver as mulheres como adornos da sociedade ou propriedades com as quais se podem comerciar para o matrimônio, Wollstonecraft afirma que elas são seres humanos e que merecem os mesmos direitos fundamentais que os homens.



Bibliografia

Principal


  • Butler, Marilyn, ed. Burke, Paine, Godwin, and the Revolution Controversy. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. ISBN 0-521-28656-5.
  • Wollstonecraft, Mary. The Collected Letters of Mary Wollstonecraft. Ed. Janet Todd. New York: Columbia University Press, 2003. ISBN 0-231-13142-9.
  • Wollstonecraft, Mary. The Complete Works of Mary Wollstonecraft. Ed. Janet Todd and Marilyn Butler. 7 vols. London: William Pickering, 1989. ISBN 0-8147-9225-1.
  • Wollstonecraft, Mary. The Vindications: The Rights of Men and The Rights of Woman. Eds. D. L. Macdonald and Kathleen Scherf. Toronto: Broadview Press, 1997. ISBN 1-55111-088-1.



Biografias


  • Flexner, Eleanor. Mary Wollstonecraft: A Biography. New York: Coward, McCann and Geoghegan, 1972. ISBN 0-698-10447-1.
  • Godwin, William. Memoirs of the Author of a Vindication of the Rights of Woman. 1798. Eds. Pamela Clemit and Gina Luria Walker. Peterborough: Broadview Press Ltd., 2001. ISBN 1-55111-259-0.
  • Gordon, Lyndall. Vindication: A Life of Mary Wollstonecraft. Great Britain: Virago, 2005. ISBN 1-84408-141-9.
  • Hays, Mary. "Memoirs of Mary Wollstonecraft". Annual Necrology (1797–98): 411–460.
  • Jacobs, Diane. Her Own Woman: The Life of Mary Wollstonecraft. USA: Simon & Schuster, 2001. ISBN 0-349-11461-7.
  • Paul, C. Kegan. Letters to Imlay, with prefatory memoir by C. Kegan Paul. London: C. Kegan Paul, 1879. full text
  • Pennell, Elizabeth Robins. Life of Mary Wollstonecraft. (Boston: Roberts Brothers, 1884). full text
  • St Clair, William. The Godwins and the Shelleys: The biography of a family. New York: W. W. Norton and Co., 1989. ISBN 0-8018-4233-6.
  • Sunstein, Emily. A Different Face: the Life of Mary Wollstonecraft. Boston: Little, Brown and Co., 1975. ISBN 0-06-014201-4.
  • Todd, Janet. Mary Wollstonecraft: A Revolutionary Life. London: Weidenfeld and Nicholson, 2000. ISBN 0-231-12184-9.
  • Tomalin, Claire. The Life and Death of Mary Wollstonecraft. Rev. ed. 1974. New York: Penguin, 1992. ISBN 0-14-016761-7.
  • Wardle, Ralph M. Mary Wollstonecraft: A Critical Biography. Lincoln: University of Nebraska Press, 1951.



Secundária


  • Conger, Syndy McMillen. Mary Wollstonecraft and the Language of Sensibility. Rutherford: Fairleigh Dickinson University Press, 1994. ISBN 0-8386-3553-9.
  • Detre, Jean, A most extraordinary pair: Mary Wollstonecraft and William Godwin, Garden City: Doubleday, 1975
  • Falco, Maria J., ed. Feminist Interpretations of Mary Wollstonecraft. University Park: Penn State Press, 1996. ISBN 0-271-01493-8.
  • Favret, Mary. Romantic Correspondence: Women, politics and the fiction of letters. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. ISBN 0-521-41096-7.
  • Janes, R. M. "On the Reception of Mary Wollstonecraft's A Vindication of the Rights of Woman". Journal of the History of Ideas 39 (1978): 293–302.
  • Johnson, Claudia L. Equivocal Beings: Politics, Gender, and Sentimentality in the 1790s. Chicago: University of Chicago Press, 1995. ISBN 0-226-40184-7.
  • Jones, Chris. "Mary Wollstonecraft's Vindications and their political tradition". The Cambridge Companion to Mary Wollstonecraft. Ed. Claudia L. Johnson. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. ISBN 0-521-78952-4.
  • Jones, Vivien. "Mary Wollstonecraft and the literature of advice and instruction". The Cambridge Companion to Mary Wollstonecraft. Ed. Claudia Johnson. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. ISBN 0-521-78952-4.
  • Kaplan, Cora. "Mary Wollstonecraft's reception and legacies". The Cambridge Companion to Mary Wollstonecraft Ed. Claudia L. Johnson. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. ISBN 0-521-78952-4.
  • Kaplan, Cora. "Pandora's Box: Subjectivity, Class and Sexuality in Socialist Feminist Criticism". Sea Changes: Essays on Culture and Feminism. London: Verso, 1986. ISBN 0-86091-151-9.
  • Kaplan, Cora. "Wild Nights: Pleasure/Sexuality/Feminism". Sea Changes: Essays on Culture and Feminism. London: Verso, 1986. ISBN 0-86091-151-9.
  • Kelly, Gary. Revolutionary Feminism: The Mind and Career of Mary Wollstonecraft. New York: St. Martin's, 1992. ISBN 0-312-12904-1.
  • McElroy, Wendy (2008). "Wollstonecraft, Mary (1759–1797)". The Encyclopedia of Libertarianism. Thousand Oaks, CA: SAGE Publications, Cato Institute. 545–546. ISBN 978-1-4129-6580-4 OCLC 750831024.
  • Myers, Mitzi. "Impeccable Governess, Rational Dames, and Moral Mothers: Mary Wollstonecraft and the Female Tradition in Georgian Children's Books". Children's Literature 14 (1986):31–59.
  • Myers, Mitzi. "Sensibility and the 'Walk of Reason': Mary Wollstonecraft's Literary Reviews as Cultural Critique". Sensibility in Transformation: Creative Resistance to Sentiment from the Augustans to the Romantics. Ed. Syndy McMillen Conger. Rutherford: Fairleigh Dickinson University Press, 1990. ISBN 0-8386-3352-8.
  • Myers, Mitzi. "Wollstonecraft's Letters Written... in Sweden: Towards Romantic Autobiography". Studies in Eighteenth-Century Culture 8 (1979): 165–85.
  • Orr, Clarissa Campbell, ed. Wollstonecraft's daughters: womanhood in England and France, 1780–1920. Manchester: Manchester University Press ND, 1996.
  • Poovey, Mary. The Proper Lady and the Woman Writer: Ideology as Style in the Works of Mary Wollstonecraft, Mary Shelley and Jane Austen. Chicago: University of Chicago Press, 1984. ISBN 0-226-67528-9.
  • Richardson, Alan. "Mary Wollstonecraft on education". The Cambridge Companion to Mary Wollstonecraft. Ed. Claudia Johnson. Cambridge: Cambridge University Press, 2002. ISBN 0-521-78952-4.
  • Sapiro, Virginia. A Vindication of Political Virtue: The Political Theory of Mary Wollstonecraft. Chicago: University of Chicago Press, 1992. ISBN 0-226-73491-9.
  • Taylor, Barbara. Mary Wollstonecraft and the Feminist Imagination. Cambridge: Cambridge University Press, 2003. ISBN 0-521-66144-7.
  • Todd, Janet. Women's Friendship in Literature. New York: Columbia University Press, 1980. ISBN 0-231-04562-X



Obras escritas por Mary Wollstonecraft


Lista completa das obras escritas por Mary; todos os trabalhos referem-se a primeiras edições e são da autoria de Wollstonecraft excepto quando indicado.



  • Thoughts on the Education of Daughters: With Reflections on Female Conduct, in the More Important Duties of Life. London: Joseph Johnson, 1787.
  • Mary: A Fiction. London: Joseph Johnson, 1788.
  • Original Stories from Real Life: With Conversations Calculated to Regulate the Affections and Form the Mind to Truth and Goodness. London: Joseph Johnson, 1788.
  • Necker, Jacques. Of the Importance of Religious Opinions. Trans. Mary Wollstonecraft. London: Joseph Johnson, 1788.
  • The Female Reader: Or, Miscellaneous Pieces, in Prose and Verse; selected from the best writers, and disposed under proper heads; for the improvement of young women. By Mr. Cresswick, teacher of elocution [Mary Wollstonecraft]. To which is prefixed a preface, containing some hints on female education. London: Joseph Johnson, 1789.
  • de Cambon, Maria Geertruida van de Werken. Young Grandison. A Series of Letters from Young Persons to Their Friends. Trans. Mary Wollstonecraft. London: Joseph Johnson, 1790.
  • Salzmann, Christian Gotthilf. Elements of Morality, for the Use of Children; with an introductory address to parents. Trans. Mary Wollstonecraft. London: Joseph Johnson, 1790.
  • A Vindication of the Rights of Men, in a Letter to the Right Honourable Edmund Burke. London: Joseph Johnson, 1790.
  • A Vindication of the Rights of Woman with Strictures on Moral and Political Subjects. London: Joseph Johnson, 1792.
  • — "On the Prevailing Opinion of a Sexual Character in Women, with Strictures on Dr. Gregory's Legacy to His Daughters". New Annual Register (1792): 457–466. [From Rights of Woman]
  • An Historical and Moral View of the French Revolution; and the Effect It Has produced in Europe. London: Joseph Johnson, 1794.
  • Letters Written during a Short Residence in Sweden, Norway, and Denmark. London: Joseph Johnson, 1796.
  • — "On Poetry, and Our Relish for the Beauties of Nature". Monthly Magazine (April 1797).
  • The Wrongs of Woman, or Maria. Posthumous Works of the Author of A Vindication of the Rights of Woman. Ed. William Godwin. London: Joseph Johnson, 1798. [Publicado póstumamente; inacabado]
  • — "The Cave of Fancy". Posthumous Works of the Author of A Vindication of the Rights of Woman. Ed. William Godwin. London: Joseph Johnson, 1798. [Published posthumously; fragment written in 1787]
  • — "Letter on the Present Character of the French Nation". Posthumous Works of the Author of A Vindication of the Rights of Woman. Ed. William Godwin. London: Joseph Johnson, 1798. [Published posthumously; written in 1793]
  • — "Fragment of Letters on the Management of Infants". Posthumous Works of the Author of A Vindication of the Rights of Woman. Ed. William Godwin. London: Joseph Johnson, 1798. [Publicado póstumamente; inacabado]
  • — "Lessons". Posthumous Works of the Author of A Vindication of the Rights of Woman. Ed. William Godwin. London: Joseph Johnson, 1798. [Publicado póstumamente; inacabado]
  • — "Hints". Posthumous Works of the Author of A Vindication of the Rights of Woman. Ed. William Godwin. London: Joseph Johnson, 1798. [Publicado póstumamente; notas no segundo volume de Rights of Woman, nunca escrito]
  • — Contributions to the Analytical Review (1788–1797) [publicado anonimamente].



Referências



Luca Ghini e o Herbário


Luca Ghini
Luca Ghini. Nasceu em Imola, 1490, e, faleceu em Bolonha, a 4 de Maio de 1556. Luca Ghini foi um médico e botânico italiano. Estudou medicina na universidade de Bolonha. Fundou em 1544 o jardim botânico de Pisa graças ao apoio de Cosmo I de Médici. Foi titular da cadeira de botânica de Bolonha, a segunda a ser criada, depois da de Veneza. Ghini não deixou nenhum escrito, mas a sua influência sobre os botânicos do seu tempo foi considerável. Ele foi um dos poucos a preocupar-se com as bases teóricas da botânica. Foi provavelmente o inventor do herbário por volta de 1520 ou 1530. O seu herbário, que menciona na sua correspondência, reunia trezentas plantas diferentes mas não se conservou.



Herbário



Merremia peltata
Herbário é uma coleção dinâmica de plantas secas prensadas, de onde se extrai, utiliza e adiciona informação sobre cada uma das populações e/ou espécies conhecidas e sobre novas espécies de plantas. Os herbários abrigam uma grande quantidade da informação e dados sobre a diversidade vegetal, tais como a conservação, ecologia, fisiologia, farmacologia e agronomia, a fim de que possa ser estudada a recuperação da vegetação, das paisagens degradadas e para que se incremente a resistência a pragas, o melhoramento vegetal, a extração de produtos farmacêuticos e outros.



Construção



Estas coleções de espécies de plantas secas são cuidadosamente pressionadas e coladas em papel pesado. Estas espécies encontram-se devidamente catalogadas e identificadas com informação acerca das plantas e o local onde foram colhidas. Aliás, num herbário, a sua coleção está em constante atualização. Regularmente são feitas novas colheitas de exemplares, acompanhadas com informações adicionais sobre a evolução do habitat, do clima, da vegetação, e outras informações que se considerarem relevantes. Se corretamente conservadas, um espécie-tipo pode durar centenas e de anos. Uma espécie de planta num herbário é uma fonte insubstituível de registo da biodiversidade das plantas e serve como referência a muitas e variadas funções, incluindo identificação, pesquisa e educação.



Herbariologia



A herbariologia, ramo da (Botânica) que tem como objectivo o estudo das plantas em herbário, visa contribuir para o conhecimento da biodiversidade vegetal mundial, fornecendo uma coleção de espécimes das populações naturais, que constituem referências científicas, ou que podem ter grande interesse para a preservação e conservação da biodiversidade. O papel desempenhado pelos herbários nos estudos de biodiversidade é cada vez mais reconhecido pelos investigadores. Através de uma enorme base de dados de onde se está constantemente a extrair, utilizar e adicionar informações sobre cada uma das populações e/ou espécies é possível aplicar essa informação nas mais variadas disciplinas, tais como fisiologia, ecologia, agronomia, farmacognosia, etnobotânica, com os mais diversos objetivos: recuperação de áreas degradadas, resistência a pragas, melhoramento vegetal, desenvolvimento de compostos com interesse farmacológico, etc. A manutenção e ampliação dos herbários constituem uma preocupação crescente face o aumento dramático de espécies vegetais ameaçadas a nível mundial. Todo o trabalho de preservação das coleções é feito com grande precisão. Quando estudados no Herbário, descobre-se que algumas espécies são desconhecidas e no seu devido tempo serão descritas e ser-lhes-á atribuído um nome científico. Outras espécies, uma vez examinadas e determinadas tornam-se material de pesquisa essencial nos estudos de sistemática, micromorfologia, bioquímica e genética molecular. A observação cuidadosa das espécies permite conduzir estudos acerca da estrutura das plantas, a sua morfologia e anatomia, enquanto que a análise comparativa com outros espécies de diferentes períodos históricos permite o exame das variações que ocorreram no tempo e assim avaliar a diversidade inter e intra-específica.

Referências



quarta-feira, 28 de maio de 2014

Biografia de Fiódor Dostoiévski


Fiódor Dostoiévski, em 1879.
Fiódor Mikhailovich Dostoiévski. Nasceu em Moscovo, a 30 de Outubro (calendário juliano) 11 de Novembro de 1821, e, faleceu em São Petersburgo, a 28 de Janeiro (calendário juliano) 9 de Fevereiro de 1881. Ocasionalmente grafado como Dostoievsky – foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura russa e um dos mais inovadores artistas de todos os tempos. É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo, descrito por Walter Kaufmann como a "melhor proposta para existencialismo já escrita". A obra dostoievskiana explora a autodestruição, a humilhação e o assassinato, além de analisar estados patológicos que levam ao suicídio, à loucura e ao homicídio: seus escritos são chamados por isso de "romances de idéias", pela retratação filosófica e atemporal dessas situações. O modernismo literário e várias escolas da teologia e psicologia foram influenciadas por suas idéias. Dostoiévski logrou atingir certo sucesso com seu primeiro romance, Gente Pobre, que foi imediatamente muito elogiado pelo poeta Aleksandr Nekrassov e por um dos mais importantes críticos da primeira metade do século XIX, Vladimir Belinski. Porém, o escritor não conseguiu repetir o sucesso até o retorno à Sibéria, quando escreveu o semi-biográfico Recordações da Casa dos Mortos, sobre a prisão que sofrera. Posteriormente sua fama aumentaria, principalmente graças a Crime e Castigo. Seu último romance, Os Irmãos Karamazov, foi considerado por Sigmund Freud como o melhor romance já escrito. Perigoso, segundo Josef Vissarionovitch Stalin, até 1953 o currículo soviético para estudos universitários sobre o escritor o classificava como "expressão da ideologia reacionária burguesa individualista". Segundo ele mesmo, seu mal era uma doença chamada consciência. A obra de Dostoiévski exerce uma grande influência no romance moderno, legando a ele um estilo caótico, desordenado e que apresenta uma realidade alucinada.



Biografia



Primeiros anos


Dostoiévski como engenheiro.
Fiódor foi o segundo dos sete filhos nascidos do casamento entre Mikhail Dostoyevski e Maria Fedorovna. A mãe do escritor morreu quando ele ainda era muito jovem, de tuberculose, e o pai, que era médico, pode ter sido assassinado pelos próprios servos, que o consideravam autoritário. Alguns biógrafos afirmaram que foi quando Dostoievski teve sua primeira crise epilética, fato disputado pelos seus atuais estudiosos, principalmente Joseph Frank. É aceite hoje por alguns biógrafos, porém sem provas concretas, que o doutor Mikhail Dostoiévski, seu pai, foi assassinado pelos próprios servos de sua propriedade rural em Daravói, indignados com os maus tratos sofridos. Tal fato teria exercido enorme influência sobre o futuro do jovem Fiódor, que desejou impetuosamente a morte de seu progenitor e em contrapartida se culpou por isso, fato que motivou Sigmund Freud (Sigsmund Schlomo Freud) a escrever o polêmico artigo Dostoiévski e o Parricídio. Freud é muito criticado por alguns estudiosos por ter escrito seu ensaio baseado em rumores, sem uma pesquisa profunda sobre a vida de Dostoiévski. Joseph Frank apresenta documentos médicos que atestam que Mikhail Dostoiévski morreu, na verdade, de uma apoplexia, e os boatos em contrário foram propagados para diminuir o preço da propriedade dos Dostoiévski, pela qual um vizinho mostrava interesse.



Início da carreira literária



Dostoiévski em 1863.
Na Academia Militar de Engenharia (em russo Военный инженерно-технический университет), em São Petersburgo, Dostoiévski aprendeu matemática e física. Também estudou a obra de William Shakespeare, Blaise Pascal, Victor Hugo e E.T.A. Hoffmann (Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann), já que a faculdade tinha um bom programa de literatura, que focava principalmente a produção francesa. Nesse mesmo ano, escreveu duas peças românticas, Mary Stuart e Boris Godunov, influenciado pelo poeta romântico alemão Friedrich Schiller. Dostoiévski descrevia-se como um "sonhador" em sua juventude e, em seguida, um admirador de Schiller. Em 1843, terminou seus estudos de engenharia e adquiriu a patente de tenente militar, ingressando na Direção-Geral dos Engenheiros, em São Petersburgo. Em 1844, Honoré de Balzac visitou São Petersburgo, e Dostoiévski, como uma forma de admiração, fez sua primeira tradução, Eugenia Grandet, e saldou uma dívida de 300 rublos com um agiota. Esta tradução despertou sua vocação, levando-o pouco tempo depois a abandonar o exército para dedicar-se exclusivamente à literatura. Trabalhou como desenhista técnico no Ministério da Guerra, em São Petersburgo. Fez traduções de Honoré de Balzac e George Sand. Alugou, em 1844, uma casa em São Petersburgo e dedicou-se à escrita de corpo e alma. Nesse mesmo ano, deixou o exército e começou a escrever sua primeira obra, o romance epistolar Gente Pobre, trabalho que iria fornecer-lhe êxitos da crítica literária, cuja leitura de Bielínski, o mais influente crítico da literatura russa, o fez acreditar ser Dostoiévski "a mais nova revelação do cenário literário do pais". Em O Diário de um Escritor, recordou que após concluir Gente Pobre deu uma cópia para seu amigo Dmitry Grigorovich, que a entregou ao poeta Nikolai Alekseevich Nekrasov. Com a leitura do manuscrito em voz alta, ambos ficaram extasiados pela percepção social da obra. Às quatro horas da manhã, foram até Dostoiévski para dizer que seu primeiro romance era uma obra-prima. Nekrasov mais tarde entregou a obra a Bielínski. "Um novo Gogol apareceu!", disse Nekrasov. "Pra você, os Gogol nascem como cogumelos!", Bielínski respondeu. Logo depois, porém, o crítico concordaria. Ele estava extasiado com o movimento realista na Europa, e considerou o romance de Dostoiévski como a primeira tentativa do gênero na Rússia.


Saí da casa dele [Bielínski] em estado de êxtase. Parei por um instante na esquina de sua casa, olhei para o céu, para o sol luminoso, para as pessoas que passavam, e compreendi, no mais fundo do meu ser, que aquele tinha sido um momento solene na minha vida, um marco decisivo, que alguma coisa inteiramente nova havia começado.

Dostoiévski sobre as palavras de Bielínski, em, 'Diário de um Escritor'

 
O livro foi publicado no ano seguinte, fazendo de Dostoiévski uma celebridade literária aos vinte e quatro anos de idade. Ao mesmo tempo, começou a contrair algumas dívidas e sofrer de uma enfermidade nervosa, frequentemente confundida com sua epilepsia, que começou a se manifestar muitos anos mais tarde. Seus romances seguintes, O Duplo (1846), que retrata uma personalidade cindida, Noites Brancas (1848), que retrata a mentalidade de um sonhador, Niétochka Nezvánova (1849), que jamais foi terminado, e a Inveja do Marido e Esposa de Outro, não tiveram o êxito esperado, e sofreram críticas muito negativas, inclusive de Bielínski, que criticava aquilo que, no futuro, se tornaria a marca principal de Dostoiévski: a psicologia de seus personagens. Nesta época entrou em contato com alguns grupos de socialistas utópicos, que discutiam a liberdade humana.



Exílio na Sibéria



Dostoiévski após exílio.
Dostoiévski foi detido e preso em 23 de Abril de 1849 por participar de um grupo intelectual revolucionário chamado Círculo Petrashevski, sob acusação de conspirar contra o Nicolau I da Rússia. Depois das revoluções de 1848, na Europa, Nicolau mostrou-se relutante a qualquer organização clandestina que poderia pôr em risco sua autocracia. A principal acusação contra Dostoiévski foi por ter lido em público, em duas ocasiões, uma carta aberta de Bielínski, então falecido, ao escritor Nikolai Gogol, em que o escritor é criticado por suas visões políticas e sociais conservadoras. O Círculo Petrashevsky era dedicado principalmente à discussão das condições de vida na Rússia, centrada nas obras da imensa biblioteca de obras proibidas de Petrashevsky, obras que, segundo os registros da sociedade, Dostoiévski consultou em várias ocasiões. Na verdade, Dostoiévski não ia às reuniões do Círculo há mais de três meses quando foi preso, e participava realmente de uma organização radical liderada por Nikolai Spechniev, radical que se tornaria o protótipo para Nikolai Stavróguin, protagonista de Os Demônios. Essa organização, porém, não foi descoberta pelas autoridades e sua existência só veio a público em 1922. Em 23 de Abril de 1849, ele e os outros membros do Círculo Petrashevski foram presos. Dostoiévski passou oito meses na Fortaleza de Pedro e Paulo até que, em 22 de Dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Em 23 de Dezembro, os membros
Primeira edição do Vremya.
foram levados ao lugar da execução, e três membros do grupo, inclusive o próprio Petrashevski, foram amarrados aos postes em frente ao pelotão. Dostoiévski era um dos próximos, e se lembrou, posteriormente, de ter dividido seu tempo para se despedir dos amigos e refletir sobre sua vida. Quando disse a Nikolai Spechniev, que se encontrava atrás dele, "Nós estaremos com Cristo", o revolucionário respondeu "Um pouco de poeira". Antes da ordem para o fuzilamento, chegou uma ordem do Czar para que a pena fosse comutada para prisão com trabalhos forçados e exílio. Depois os membros souberam que a ordem havia sido assinada há dias, mas que o Czar exigira a falsa execução como uma punição a mais. Dostoiévski recebeu os grilhões e partiu para o exílio na noite de Natal. Todos esses fatos foram contados pelo escritor em uma carta a seu irmão Mikhail Dostoiévski, na qual ele faz várias referências a obra Os Últimos Dias de um Condenado à Morte, de Victor Hugo. O príncipe Myshkin, de O Idiota, oferece uma descrição sobre essa mesma experiência. Após a simulação da execução, Fiódor passou a apreciar o próprio processo da vida como um dom incomparável e, ao contrário do determinismo e do pensamento materialista, o valor da liberdade, integridade e responsabilidade individual. Anos mais tarde, Dostoiévski descreveu seu sofrimento para seu irmão, dizendo-se um "silenciado em um caixão" e que o local onde estava "deveria ter sido demolido anos atrás".



No verão, confinamento intolerável, no inverno, frio insuportável. Todos os pisos estavam podres. A sujeira no chão tinha uma polegada de espessura; alguém poderia tropeçar e cair… Éramos empilhados como anéis de um barril… Nem sequer havia lugar para caminhar… Era impossível não se comportar como suínos, desde o amanhecer até o pôr-do-sol. Pulgas, piolhos, besouros a celemim.

Dostoiévski sobre seu local de prisão

 
Túmulo no monastério Alexander Nevsky.
Uma das maiores surpresas de Dostoiévski foi descobrir que na prisão existiam as mesmas diferenças sociais que existiam do lado de fora. Dostoiévski conta como os camponeses zombavam dos intelectuais, por sua falta de destreza física nos trabalhos. Quando Dostoiévski tentou participar de um protesto contra a má qualidade da comida, os prisioneiros não aceitaram, dizendo que ele comprava a própria comida. Quando lhes explicou que o fazia por camaradagem, eles ficaram atônitos e perguntaram como um senhor podia ser camarada de um camponês. Essas experiências são contadas em seu livro Recordações da Casa dos Mortos. Também foi na prisão que Dostoiévski sofreu seu primeiro ataque de epilepsia, doença que o acompanharia pelo resto da vida, e que também atinge vários de seus personagens, como o Príncipe Míchkin (O Idiota), Kiríllov (Os Demônios) e Smerdiákov (Os Irmãos Karamázov). Embora alguns biógrafos insistam que a primeira crise de Dostoiévski aconteceu antes da prisão, as cartas que ele enviou ao irmão deixam bastante claro que ele só começou a apresentar a doença durante sua prisão. Os estudos médicos nunca chegaram a um acordo sobre a epilepsia de Dostoiévski. Freud afirmou que era uma doença histérica, e não epilepsia. Não só pelas Cartas mas também pelos testemunhos deixados por seus contemporâneos, podemos perceber que Dostoiévski nunca abandonou a religião Ortodoxa, na qual fora criado, ao contrário da lenda que se formou posteriormente. Foi libertado em 1854 e condenado a quatro anos de serviço no Sétimo Batalhão, na fortaleza de Semipalatinsk, no Cazaquistão, além de soldado por tempo indefinido. Apaixonou-se por Maria Dmitriévna Issáieva, mulher de um conhecido. Com a morte do marido e já no próximo ano, em Fevereiro de 1857, casaram-se. Na noite de núpcias Dostoiévski sofreu uma violenta crise de epilepsia. Maria Dmitriévna Issáieva já tinha um filho de oito anos do primeiro casamento, Pável Issáiev, frequentemente referido pelo apelido de Pácha na biografia do escritor. Ela sofria de tuberculose, e é aceita como o modelo para Katerina Marmeladova de Crime e Castigo.



Carreira literária tardia



Dostoiévski (1872), por Vassilij Grigorovič Perov.
Depois de dez anos voltou à Rússia. Na Sibéria chamou a experiência de uma "regeneração" das suas convicções, rejeitou a atitude condescendente de intelectuais, que pretendiam impor seus ideais políticos sobre a sociedade, e chegou a acreditar na bondade fundamental da dignidade e do povo comum. Descreveu esta mudança no esboço que aparece em O Diário de um Escritor, O Mujique Marei: "Sou filho da descrença e da dúvida, até ao presente e mesmo até à sepultura. Que terrível sofrimento me causou, e me causa ainda, a sede de crer, tanto mais forte na minha alma quanto maior é o número de argumentos contrários que em mim existe! Nada há de mais belo, de mais profundo, de mais perfeito do que Cristo. Não só não há nada, mas nem sequer pode haver". Por este tempo começou a escrever Memórias da Casa dos Mortos, baseado em suas experiências como prisioneiro. Como ex-forçados eram proibidos de escrever memórias e relatos, Dostoiévski disfarçou a obra como ficção, dizendo-a obra de um homem preso por assassinar a esposa em uma crise de ciúmes. Esse fato gerou um equívoco, e por anos muitas pessoas acreditaram que esse havia sido de fato o crime do escritor. A obra foi um grande sucesso na Rússia, e restabeleceu a reputação literária de Dostoiévski. Em 1859, após meses de árduo esforço, conseguiu ser solto sob a condição de residir em qualquer lugar, exceto em São Petersburgo e Moscou, e assim, mudou-se para Tver. Ele conseguiu publicar O Sonho do Tio e Adeia Stepánchikovo. As obras não obtiveram as críticas esperadas por Dostoiévski. Em Dezembro do mesmo ano, foi finalmente autorizado a regressar a São Petersburgo, onde fundou com seu irmão Mikhail a revista Vremya ("O Tempo"), em que publicou o romance em folhetim Humilhados e Ofendidos, que teve grande sucesso. Sua obra Memórias da Casa dos Mortos foi um enorme sucesso quando então publicada em capítulos no jornal O Mundo Russo. Entre 1862 e 1863, fez várias viagens pela Europa, incluindo Berlim, Paris, Londres, Genebra, Turim, Florença e Viena. Durante essas viagens teve um relacionamento amoroso fugaz com Paulina Súslova, uma estudante de ideias progressistas. Perdeu muito dinheiro jogando e retornou à Rússia no fim de outubro de 1863, sozinho e sem recursos. Durante este tempo o seu jornal tinha sido proibido, por publicar um artigo sobre a Revolução Polaca de 1863. Em 1864, conseguiu editar com seu irmão o jornal chamado Epokha ("Época"), no qual publicou Memórias do Subsolo. Seu ânimo acabou após a morte de sua esposa, seguida pouco depois pela de seu irmão. Além disso, seu irmão Mikhail deixou uma viúva, quatro filhos e uma dívida de 25 mil rublos, tendo de sustentá-los. Dostoiévski sustentava também o enteado Pável Issáiev e o irmão Nikolai Dostoiévski, arquiteto formado mas conhecido alcoólatra. Tentando dar continuidade à revista, acumulou muitas dívidas. Para sanar seus problemas financeiros e cuidar de sua saúde, partiu para o estrangeiro, onde perdeu o restante do dinheiro que ganhara em cassinos. Dostoiévski é frequentemente descrito como viciado em jogo, mas nunca jogou na Rússia, apenas na Alemanha e na França. Ali se reencontrou com Paulina Súslova e tentou reatar o relacionamento, mas foi rejeitado. Em 1865 começou a elaborar Crime e Castigo, uma de suas obras capitais, que apareceu na revista O Mensageiro Russo, com grande sucesso. Quando seu editor determinou um curto prazo para que terminasse o livro, contratou a estenógrafa Anna Grigórievna Snítkina, na época com vinte e quatro anos, a quem dedicou, em apenas vinte e seis dias, o livro O Jogador. O relacionamento com Anna finalmente terminou em casamento em 15 de Fevereiro de 1867. Para fugir da pressão dos credores, resolveram viajar pela Europa. O casal residiu em Dresden (onde Dostoiévski viu o quadro Cristo Morto de Hans Holbein, o Jovem, de grande importância em O Idiota), Genebra, onde nasceu e morreu pouco tempo depois sua primeira filha, Sônia, o que deixou o escritor arrasado; Milão, Florença e novamente em Dresden, onde nasceu a segunda filha do casal, Liubóv. Em 1868 escreveu O Idiota e, em 1871, terminou Os Demônios, publicado no ano seguinte. A idéia inicial de O Idiota surgiu de uma notícia de jornal sobre uma jovem de quinze anos, Olga Umetskaya, que colocou fogo na casa da família após sofrer anos de maus tratos e espancamentos. A personagem Nastássia Filipóvna foi baseada nela. Já Os Demônios surgiu do assassinato do jovem I. I. Ivanov, que queria abandonar uma organização radical e foi morto pelos colegas, comandados por Sergey Nechayev. Netcháiev era um conhecido radical, ligado a Mikhail Bakunin, que depois o rejeitou por horror aos seus métodos políticos escusos. Anos antes, um romance russo já havia sido escrito sobre os niilistas: Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev. Enquanto a intelectualidade russa criticou duramente o livro, a revista de Dostoiévski publicou uma resenha favorável, escrita por Nikolai Strakhov, amigo de Dostoiévski e importante crítico literário, que dizia que o livro não era nem a condenação nem a apoteose do niilista, mas sua tragédia. Essa crítica valeu o reconhecimento de Turgueniev, que publicou outros textos na revista dos irmãos Dostoiévski. Os dois escritores, porém, tiveram uma grande briga em Baden-Baden, centrada no romance Fumaça, de Turgueniev, muito crítico à Rússia e à sua suposta declaração de se considerar agora um alemão. Dostoiévski também criticou o recente prefácio a Pais e Filhos, no qual Turgueniev teria se curvado aos niilistas, segundo o escritor. Dostoiévski assumiu um grande risco com Os Demônios, que foi visto pela crítica como ofensivo às novas gerações e panfletário. Segundo Joseph Frank, o momento em que Os Demônios se tornou grande foi quando o autor começou a misturar o panfleto que escrevia com o poema que tinha planejado, A Vida de Um Grande Pecador, que nunca chegou a escrever mas do qual usou concepções em Os Demônios, O Adolescente e Os Irmãos Karamazov. A partir de 1873 publicou em jornal Diário de um Escritor, que escreveu sozinho, compilando histórias curtas, artigos políticos e críticas literárias, obtendo grande sucesso. Em 1875, publicou O Adolescente, na prestigiada revista Os Anais da Pátria. O romance foca em um tema que sempre tinha preocupado o escritor: as famílias acidentais. Esta publicação seria interrompida em 1878 para dar início à elaboração do seu último romance, Os Irmãos Karamazov, que foi publicado em grande parte no jornal russo O Mensageiro. Em 1880 participou da inauguração do monumento a Aleksandr Pushkin em Moscou, onde proferiu um discurso memorável sobre o destino da Rússia no mundo. Em 8 de Novembro desse ano, termina Os Irmãos Karamazov, em São Petersburgo. Morreu nesta cidade, em 9 de Fevereiro de 1881, de uma hemorragia pulmonar associada com enfisema e ataque epiléptico. Foi enterrado no Cemitério Tijvin, dentro do monastério Alexander Nevsky em São Petersburgo. Estima-se que o funeral foi assistido por cerca de sessenta mil pessoas. Em sua lápide podem-se ler os seguintes versos de São João, que também serviu como subtítulo de seu último romance, Os Irmãos Karamazov:
  
"Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto".  - Evangelho segundo João, 12:2422.





Obra


Estilo

 


Dostoiévski necessitava de dinheiro e sempre fora apressado em concluir suas obras, por isso disse não conseguir realizar seu pleno poder literário. Mais tarde, por saber bem o que as seguintes palavras significavam, disse: "A pobreza e a miséria formam o artista". Embora a frase pareça abrangente e generalizada, Fiódor costumou desviar-se do estilo de escritores que descreviam o círculo da família moldados na tradição e nas "belas formas", e engendrou no caos familiar os que humilhavam e insultavam. Essencialmente um escritor de mitos (e às vezes comparado por isso a Herman Melville), criou um trabalho com uma enorme vitalidade e de um poder quase hipnótico, caracterizado por cenas febris e dramáticas, onde os personagens apresentam comportamento escandaloso, e atmosferas explosivas, envolvidas em diálogos socráticos apaixonados, a busca de Deus, do mal e do sofrimento dos inocentes. Seus romances ocorrem em um período curto (por vezes apenas alguns dias), o que permite ao autor fugir de uma das características dominantes da prosa realista: a degradação física que ocorre ao longo do tempo. Seus personagens encarnam valores espirituais que são, por definição, atemporais. Outros temas recorrentes em sua obra são suicídio, orgulho ferido, a destruição dos valores familiares, o renascimento espiritual através do sofrimento, a rejeição do Ocidente e da afirmação da ortodoxia russa e o czarismo. Estudiosos como Mikhail Bakhtin têm caracterizado o trabalho de Dostoiévski como diferente de outros romancistas; ele parece não aspirar por uma visão única e vai além da descrição sob diferentes ângulos, caracterizando-o como romance polifônico. Dostoiévski engenhou romances cheios de força dramática em que os personagens e os opostos pontos de vista são realizados livremente, em violenta dinâmica. O espaço e o tempo em Dostoiévski são analisados às vezes como "discretos, onde o inesperado não apenas é possível como também sempre se realiza". Através da minimização do tempo de passagem, onde os fatos aparecem de forma de repente, o instante ganha o tempo e logo depois relaxa, desaparecendo nas cenas. Certos autores comparam o tempo e o espaço em Dostoiévski com cenas cinematográficas: o uso constante da palavra russa vdrug (de repente), que aparece 560 vezes na edição russa de Crime e Castigo, tem a proposta de levar ao leitor a impressão de tensão, de desigualdade e de nervosismo, elementos característicos da estrutura do romance dostoievskiano. Além da palavra vdrug em Crime e Castigo, a literatura de Dostoiévski utiliza muito os números, às vezes usando-os com extrema precisão: a dois passos...., duas ruas a direita, como também usa números elevados e redondos (100, 1000, 10000). Acredita-se que esses elementos são "mitopoéticos": Crime e Castigo possui sete partes (6 partes e o epílogo), sendo que, na composição do romance, ele é dividido em 7 capítulos (cada parte), e a "hora fatídica" é indicada como depois das 7. Na literatura dostoievskiana, o processo de evolução da humanidade se dá pela repetição de dificuldades e ocasiões, e também pelo uso da memória e da lembrança, por mais infernal que tudo isso possa parecer ao personagem. Fiódor publicou inúmeros contos: O Mujique Marëi, O Sonho de um Homem Ridículo, Bobock e outros, além de novelas: O Senhor Prokhartchin, A Dócil, O Homem Debaixo da Cama, Uma História Suja, O Pequeno Herói, Uma Criatura Gentil, Coração Fraco e Noites Brancas. Criou duas revistas literárias: Tempo (Vrêmia) e Época, colaborando ainda nos principais órgãos da imprensa russa.


Personagens


À direita, com Valikhanov.
Provavelmente Dostoiévski foi muito influenciado por tradições folclóricas. Algumas acreditavam que as águas de rios, mares e lagos representavam a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Geograficamente, além do rio Nieva, na Rússia, coexistem outros meios aquáticos, e por conta disso a cidade de São Petersburgo tornou-se fantástica e diabólica, o que influenciou a cultura popular e a literatura russa, juntamente com Fiódor. Outro motivo para o surgimento do chamado “mito de Petersburgo” foi a morte, durante a construção da cidade, de centenas de milhares de pessoas, que ficaram enterradas em suas fundações, pela impossibilidade de se retirar tantos corpos. O mito de Petersburgo havia sido desenvolvido, na literatura, por Púchkin, em O Cavaleiro de Bronze, e Gogol, em Avenida Niévski. Posteriormente a Dostoiévski, foi trabalhado por outros escritores como Andrei Biéli, Aleksandr Blok, Anna Akhmatova e Joseph Brodski. Por conta da influência que arrecadou através dessa cultura – onde o homem está entre a vida e a morte –, as personagens da literatura de Fiódor estão constantemente expostas a ocasiões complexas, beirando os limites da razão e da lógica, e os limites do que o ser humano é capaz de realizar diante de problemas universais; contudo, em geral, as personagens de Fiódor podem ser classificados em diferentes categorias: cristãos humildes e modestos (Príncipe Mishkin, Sonia Marmeládova, Aliosha Karamazov), autodestrutivos e niilistas (Svidrigáilov, Smerdiakov, Stavroguin, Maslobóiev), cínicos e libertinos (Fiódor Karamazov, Prince Valkorskii), intelectuais rebeldes (Rodion Românovitch Raskólnikov, Ivan Karamazov), enquanto regidos por idéias e não imperações sociais ou biológicas.



Crítica



Segundo o escritor Mário Pontes, as novas traduções em língua portuguesa – lançadas no Brasil – das obras de Dostoiévski, como O Idiota demonstram um estilo "menos castiço", argumentando que "[…]toda a obra [original] de Dostoiévski foi escrita em circunstâncias adversas: luto, doenças, dívidas, incontrolável atração pelo jogo, censura e vigilância policial, daí porque a pressa transparece nos seus romances, onde uma descrição pode ser interrompida de repente por um nervoso, etc.". Segundo Mário Pontes, os romances de Dostoiévski apresentam incoerências, repetições e saltos derivados desses problemas pessoais do autor. Embora o crítico avalie as traduções mais antigas como trabalhos feitos em cima de edições francesas que possivelmente traziam erros, e que as novas edições brasileiras apresentam um estilo dostoievskiano "muito menos castiço do que os anteriores", ele diz que, todavia, "[estão] muito mais próxima[s] do original", e finaliza dizendo que "[…]todos esses acidentes e defeitos, que as novas traduções se empenham em preservar, não bastam para afetar o interesse que desperta no leitor a profundidade do mergulho de Dostoiévski na alma humana".



Legado e influência



O russo Alexey Rémizov, durante exílio em Paris, em 1927, escreveu: "A Rússia é Dostoiévski. Rússia não existe sem Dostoiévski". A maioria dos críticos concorda que Dostoiévski, Dante Alighieri, William Shakespeare, Miguel de Cervantes, Johann Wolfgang von Goethe, Luís de Camões, Victor Hugo e outros poucos escolhidos tiveram uma influência decisiva sobre a literatura do século XX, especialmente no existencialismo e expressionismo. A influência de Dostoiévski é imensa, de Hermann Hesse a Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Yukio Mishima, Roberto Arlt, Ernesto Sábato e Gabriel García Márquez, para citar alguns autores. Na verdade, nenhum dos grandes escritores do século XX foram alheios ao seu trabalho (com algumas raras exceções, tais como Vladimir Nabokov, Henry James ou David Herbert Lawrence). O romancista americano Ernest Hemingway também citou Dostoiévski em uma de suas últimas entrevistas como uma das suas principais influências. Friedrich Wilhelm Nietzsche referiu-se a Dostoiévski como "o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, até mesmo a descoberta Stendhal (Henri-Marie Beyle)". Certa vez disse, referindo a Notas do Subsolo: "chorei verdade a partir do sangue". Nietzsche refere-se constantemente a Dostoiévski em suas notas e rascunhos no internato entre 1886 e 1887, além de escrever diversos resumos das obras de Dostoiévski. "Um grande catalisador: Nietzsche e neo-idealismo russo", disse Mihajlo Mihajlov. Com a publicação de Crime e Castigo em 1866, Fiódor se tornou um dos mais proeminentes autores da Rússia no século XIX, tido como um dos precursores do movimento filosófico conhecido como existencialismo. Em particular, Memórias do Subsolo, publicado pela primeira vez em 1864, tem sido descrito como o trabalho fundador do existencialismo. Para Dostoiévski, a guerra é a revolta do povo contra a idéia de que a razão orienta tudo.



Crime e Castigo (romance)



Crime e Castigo (em russo, Преступле́ние и наказа́ние, Prestuplênie i nakazánie) é um romance do escritor russo Fiódor Dostoiévski publicado em 1866. Narra a história de Rodion Românovitch Raskólnikov, um jovem estudante que comete um assassinato e se vê perseguido por sua incapacidade de continuar sua vida após o delito. O livro/romance se baseia numa visão sobre religião e existencialismo com um foco predominante no tema de atingir salvação por sofrimento, sem deixar de comentar algumas questões do socialismo e niilismo. Os personagens e as descrições de seus caracteres e personalidades, bem como outras obras maiores de Fiódor Dostoiévski, inspiraram pensamentos filosóficos,sociológicos e psicológicos da segunda metade do século XIX e também no século XX. Foram influenciados Friedrich Nietzsche, Jean-Paul Sartre, Sigmund Freud, George Orwell, Aldous Huxley, dentre outros. Os flagrantes traços autobiográficos, como a adoração pela mãe, o vício do jogo (O Jogador) e a fidelidade psicológica, bem como os traços estilísticos do autor, colocaram esta obra, entre as maiores da história da literatura universal e, certamente, junto com Os Irmãos Karamazov, garantiram a Fiódor Dostoiévski a posição de maior escritor russo da história em conjunto com Lev Tolstoy.



Enredo



O personagem principal, apesar de ex-estudante de Direito, é um homem extremamente pobre e que vive angustiado pela sombra de fazer algo importante. Ele divide os indivíduos em ordinários e extraordinários, numa tentativa de explicar a quebra das regras em prol do avanço humano. Seguindo esse preceito, o personagem planeja e concretiza, em meio a uma luta com sua consciência, a morte de uma agiota. Antes de fugir da cena do crime, porém, Raskólnikov também comete, a contragosto, levado apenas pela situação de surpresa, o assassinato de Lizavieta, irmã da velha agiota, pois ela havia aparecido no local inopinadamente. Raskólnikov rouba algumas joias, mas não chega a usufruir desse ganho e, sentindo-se arrependido, enterra-as sob uma pedra. Após tal fato e seus desfechos, o romance relata de maneira detalhista os dramas psicológicos sofridos pelo autor do homicídio. Diversas histórias se desenvolvem de maneira paralela à principal, entre elas um romance da irmã do personagem Raskólnikov e as relações do protagonista com Sônia, filha de um funcionário público a quem ele doou dinheiro. Apesar de investigar Raskólnikov, a polícia termina por prender um inocente que se intitulou culpado devido à pressão que sofria. Entretanto, o personagem por fim confessa o crime que cometera. A confissão deveu-se, principalmente, à enorme influência de Sônia, que, antes disso, compartilha com Raskólnikov a descrição da ressurreição de Lázaro, contida no Novo Testamento. No decorrer da história, Raskólnikov conta à Sônia sobre o crime que cometeu, e sua irmã fica sabendo por uma terceira pessoa o que ele havia feito. Visto o fato, o tamanho do crime que ele cometera e as pessoas que sabiam e desconfiavam do ocorrido, mais parecia que não eram as pessoas que o importunavam, mas a sua consciência que sufocava, esfacelava seu íntimo. Mostras de que ele não fazia parte do grupo dos extraordinários, indivíduos nos quais ele considerava capazes de cometer quaisquer crimes, ou infringir regras sem culpa alguma. Por fim, Raskólnikov é preso. Porém, devido à sua confissão, arrependimento e falta de antecedentes criminais, sua pena acaba por ser reduzida a oito anos em uma cadeia na Sibéria. Durante tal período, Sônia, personagem que a partir de certo momento segue Raskólnikov em todas as situações, manteve-se muito presente, servindo até mesmo de mensageira a sua família em São Petesburgo.



Obras


Romances

  • 1846 - Bednye lyudi (Бедные люди); em português: Gente Pobre
  • 1846 - Dvoinik (Двойник. Петербургская поэма); em português O Duplo: Poema de Petersburgo
  • 1849 - Netochka Nezvanova (Неточка Незванова); em português: Niétochka Nezvánova
  • 1859 - Dyadyushkin son (Дядюшкин сон); em português: O Sonho do Tio, ou O Sonho de Titio, ou O Sonho do Príncipe
  • 1859 - Selo Stepanchikovo i ego obitateli (Село Степанчиково и его обитатели); em português: Aldeia de Stiepantchikov e seus Habitantes ou A vila de Stepanhchikov e seus habitantes.
  • 1861 - Unijennye i oskorblennye (Униженные и оскорбленные); em português: Humilhados e Ofendidos
  • 1862 - Zapiski iz mertvogo doma (Записки из мертвого дома); em português: Recordações da Casa dos Mortos ou Memórias da Casa Morta
  • 1864 - Zapiski iz podpolya (Записки из подполья); em português: Memórias do Subsolo, Notas do Subterrâneo, A Voz do Subsolo, Cadernos do Subsolo
  • 1866 - Prestuplenie i nakazanie (Преступление и наказание); em português: Crime e Castigo
  • 1867 - Igrok (Игрок); em português: O Jogador
  • 1869 - Idiot (Идиот); em português: O Idiota
  • 1870 - Vechnyj muzh (Вечный муж); em português: O Eterno Marido
  • 1872 - Besy (Бесы); em português: Os Demônios ou Os Possessos
  • 1875 - Podrostok (Подросток); em português: O Adolescente
  • 1881 - Brat'ya Karamazovy (Братья Карамазовы); em português: Os Irmãos Karamazov

 

Novelas e contos


  • 1846 - Gospodin Prokharchin (Господин Прохарчин); em português: Senhor Prokhartchin
  • 1847 - Roman v devyati pis'mahh (Роман в девяти письмах); em português: Romance em Nove Cartas
  • 1847 - Khozyajka (Хозяйка); em português: A Senhoria ou A Dona da Casa
  • 1848 - Polzunkov (Ползунков);
  • 1848 - Slaboe serdze (Слабое сердце); em português: Coração Fraco
  • 1848 - Tchestnyj vor (Честный вор); em português: O Ladrão Honesto
  • 1848 - Elka i svad'ba (Елка и свадьба); em português: Uma Árvore de Natal e Uma Boda
  • 1848 - Tchujaya jena i muj pod krovat'yu (Чужая жена и муж под кроватью); em português: O homem debaixo da cama ou A Mulher Alheia e o Homem Debaixo da Cama
  • 1848 - Belye nochi (Белые ночи); em português: Noites Brancas
  • 1849 - Malen'kij geroi (Маленький герой); O Pequeno Herói
  • 1862 - Skvernyj anekdot (Скверный анекдот); Uma História Suja ou Uma História Lamentável
  • 1865 - Krokodil (Крокодил); em português: O Crocodilo
  • 1873 - Bobok (Бобок); em português: Bóbok
  • 1876 - Krotkaia (Кроткая); em português: Uma Criatura Gentil, também A Dócil, A Meiga, Ela era doce e humilde e Ela.
  • 1876 - Mujik Marej (Мужик Марей); em português: O Mujique Marei
  • 1877 - Son smeshnogo tcheloveka (Сон смешного человека); em português: O Sonho de um Homem Ridículo

 

Não ficção


  • 1863 – Ziminie Zamietki o lietnikh vpyetchatleniiakh (Зимние заметки о летних впечатлениях); em português: Notas de Inverno sobre Impressões de Verão
  • 1873 – 1878 Dnievnik pissatelia (Дневник писателя); em português: Diário de um Escritor

 

Cartas




Suas cartas foram publicadas postumamente em antologias diversas.

Fiódor Dostoiévski



Refererências