sábado, 31 de janeiro de 2015

Kopi Luwak ou Café Civeta


Um Luwak (Palm Civet Asian) alimentando-se de grãos de café. (Imagem: Leendertz).
Kopi Luwak ou Café Civeta é um café produzido com grãos de café extraídos das fezes do civeta. Este processo de coleta de grãos em fezes de civeta acontece na Indonésia e nas Filipinas (onde o produto é chamado de Kape Alamid). No Vietnã existe um tipo similar de café, chamado weasel coffee, que possui grãos que foram defecados por doninhas. No Brasil, existe ainda um café colhido das fezes do Jacu [ave originária da América do Sul]. O civeta seleciona os grãos antes de ingeri-los, mas apenas a polpa é digerida, e a semente passa intacta pelo sistema digestivo do animal. Durante a digestão, as bactérias e enzimas únicas do animal tornam-se os responsáveis pela diferença de qualidade do café industrializado. Kopi é uma palavra indonésia para "café", enquanto luwak é o nome local da civeta. A produção limitada dos grãos (menos de 230 quilos por ano) é o motivo de sua raridade e consequentemente seu alto preço (cerca de mil dólares o quilo do grão), sendo considerado o mais caro café do mundo. É vendido principalmente para o Japão, na Europa e nos Estados Unidos. Uma xícara de café preparado com Kopi Luwak pode custar 50 libras esterlinas no Reino Unido. Seu sabor é descrito como "uma mistura de chocolate e suco de uva. Menos ácido e amargo do que os cafés comuns". Em 2004, a síndrome respiratória aguda grave infectou milhares de civetas na China e causou um grande extermínio, mas a demanda pelo café não foi afetada.

Civeta

Um Asian Palm Civet. (Imagem: Jordy Meow).
Viverridae é uma família de mamíferos carnívoros que inclui as civetas, ginetas e aliados. São animais pequenos e leves, geralmente arborícolas. O habitat mais comum é a floresta tropical, mas vivem também em savanas e nas áreas em torno do mar Mediterrâneo. Acredita-se que sejam um vetor do vírus causador da gripe asiática.

Classificação

Em 1821, John Edward Gray definiu a família incluindo os gêneros Viverra, Genetta, Herpestes, e Suricata. Reginald Innes Pocock posteriormente redefiniu a família incluindo vários outros gêneros, e subdividindo-a em subfamílias, baseado na estrutura do pé e nas glândulas odoríferas. Reconhecendo as subfamílias Hemigalinae, Paradoxurinae, Prionodontinae, e Viverrinae dentro da Viverridae. Em 2003, a subfamília Prionodontinae foi elevada a categoria de família.
  • Subfamília Paradoxurinae
    • Arctictis binturong
    • Arctogalida trivirgata
    • Macrogalidia musschenbroekii
    • Paguma larvata
    • Paradoxurus hermaphroditus
    • Paradoxurus zeylonensis
    • Paradoxurus jerdoni
  • Subfamília Hemigalinae
    • Chrotogale owstoni
    • Cynogale bennettii
    • Diplogale hosei
    • Hemigalus derbyanus
  • Subfamília Viverrinae
    • Civettictis civetta
    • Genetta abyssinica
    • Genetta angolensis
    • Genetta bourloni
    • Genetta cristata
    • Genetta genetta
    • Genetta johnstoni
    • Genetta maculata
    • Genetta pardina
    • Genetta piscivora
    • Genetta poensis
    • Genetta servalina
    • Genetta thierryi
    • Genetta tigrina
    • Genetta victoriae
    • Poiana leightoni
    • Poiana richardsonii
    • Viverra civettina
    • Viverra megaspila
    • Viverra tangalunga
    • Viverra zibetha
    • Viverricula indica

Referências

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Biografia de Sushruta

सुश्रुत. (Imagem: Alokprasad at en.wikipedia).
Sushruta foi um cirurgião e professor de Aiurveda que floresceu na cidade indiana de Benares (Kashi) no século VI a.C.. O tratado médico Sushruta Samhita — compilado em sânscrito védico - é atribuído a ele. O Sushruta Samhita contém diversas referências detalhadas a doenças e procedimentos médicos. É considerado o "Pai da Cirurgia". A primeira cirurgia de catarata (oftalmologia) foi realizada por Sushruta.


Biografia

Sushruta serviu como cirurgião em Kashi, onde praticou medicina e identificou o tratamento e a origem de diversas doenças. A literatura arcaica da Índia data de antes de 1400 a.C. e a família brâmica de alfabetos apareceu no século III a.C.. As obras literárias passaram a ter maior visibilidade durante o primeiro milênio antes de Cristo, período em que surgiu o Sushruta Samhita. A obra de Sushruta foi compilada no século VI a.C.. Sushruta era familiarizado com o texto religioso Atharva-veda e sua obra é mencionada na literatura dos Brāhmaṇas, especialmente o Shatapatha Brahmana.


Legado

O material escrito mais antigo já encontrado em escavações arqueológicas a conter as obras de Sushruta é o Manuscrito Bower - que data do século IV d.C., quase um milênio depois da data em que foram escritas originalmente. As obras médicas de Sushruta e de outro médico indiano, Charaka, foram traduzidas para o árabe durante o Califado Abássida (750). Estas obras em árabe chegaram à Europa através de intermediários; na Itália, a família Branca, da Sicília, e Gaspare Tagliacozzi, de Bolonha, familiarizaram-se com as técnicas de Sushruta. Médicos ingleses viajaram até a Índia para ver rinoplastias sendo executadas por métodos nativos. Os relatos sobre as rinoplastias indianas foram publicadas na Gentleman's Magazine em 1794. Joseph Constantine Carpue passou 20 anos na Índia, estudando métodos locais de cirurgia plástica, e realizou a primeira rinoplastia de grande porte no Ocidente em 1815. Os instrumentos descritos no Sushruta Samhita foram modificados e aperfeiçoados no mundo ocidental.

Sushruta Samhita (obra)
Sushruta Samhita (सुश्रुतसंहिता) é um texto em sânscrito atribuído a Sushruta, fundador da medicina Ayurveda, ou medicina tradicional Indiana, que introduziu inovações notáveis nos campos da cirurgia. A obra contém 184 capítulos e a descrição de 1120 patologia, 700 plantas medicinais, uma análise minuciosa da anatomia, 64 preparados minerais e 57 preparados orgânicos. O texto tal como pode ser lido hoje data do século III ou IV. A cópia mais antiga que se conhece é o Manuscrito de Bower. O texto foi traduzido para o Árabe no século VIII.



Medicina Ayurveda

Ayurveda é o nome dado ao conhecimento médico desenvolvido na Índia há cerca de 7 mil anos, o que faz dela um dos mais antigos sistemas medicinais da humanidade. Ayurveda significa, em sânscrito, Ciência (veda) da vida (ayur). Continua a ser a medicina oficial na Índia e tem-se difundido por todo o mundo como uma técnica eficaz de medicina tradicional. No Brasil é praticada principalmente por psicólogos e fisioterapeutas, mas está também sendo inserida no sistema público de saúde. Segundo Rocha o governo indiano reconhece atualmente 6 racionalidades médicas distintas: a Medicina Ocidental ou Alopatia; Homeopatia; A Ayurveda; Medicina Unani; a Medicina dos Siddhas (antiga medicina e alquimia indiana, praticada no sul do subcontinente, fundamentada na tradição dos siddhas, iogues que buscam a imortalidade) e a Naturopatia (medicina natural). Ainda segundo este autor que destaca também a yogaterapia como uma profissão recente na história indiana, a graduação em Ayurveda ou BAMS (Bacharel of Ayurvedic Medicine and Surgery) dura cinco anos e meio, segue-se a pós-graduação M.D. emAyurveda ou especialização de 3 anos e o doutorado com 2 anos de duração. A medicina ayurvédica é conhecida como a mãe da medicina, pois seus princípios e estudos foram a base para, posteriormente, o desenvolvimento da medicina tradicional chinesa, árabe, romana e grega. Houve um intercâmbio de informações com o Japão, que tinha a mesma necessidade dos indianos: criar uma medicina barata para atender às suas populações muito pobres e gigantescas, por essa razão existe muito da medicina japonesa nos conceitos de ayurvédica. As duas desenvolveram técnicas muito eficientes e de baixo custo para o tratamento. A doença, para a Ayurveda, é muito mais que a manifestação de sintomas desagradáveis ou perigosos à manutenção da vida. A Ayurveda, como ciência integral, considera que a doença inicia-se muito antes de chegar à fase em que ela finalmente pode ser percebida. Assim, pequenos desequilíbrios tendem a aumentar com o passar do tempo, se não forem corrigidos, originando a enfermidade muito antes de podermos percebê-la.

Os cinco elementos e os doshas

A Ayurveda baseia-se no sistema filosófico samkhya nos cinco elementos que formam toda a manifestação material do universo. São eles éter, ar, fogo, água e terra. Toda a matéria que existe no universo provém destes 5 elementos, inclusive o corpo humano (que além da matéria, também é formado por buddhi - discernimento, ahamkara - ego e manas - mente). De acordo com o Ayurveda, quando algum dos 5 elementos está em desequilíbrio no corpo do indivíduo, inicia-se o processo da doença. Segundo essa tradição, os seres humanos são influenciados pelos 5 elementos através do dosha. Os doshas são Vata, regido por ar e éter, Pitta, regido por fogo e água, e Kapha, regido por terra e água. Todas as pessoas possuem os três doshas, mas em diferentes proporções. No momento da nossa concepção a nossa constituição é definida, isto é, os doshas que estão presentes em maior quantidade no nosso organismo. Ao nascermos, tal proporção está em equilíbrio (prakrti), mas com o tempo e a vida desregrada surge o desequilíbrio em um ou mais desses doshas (vikrti), contribuindo para o surgimento e desenvolvimento de doenças. Para o indivíduo ter o corpo saudável é necessário manter seus tecidos saudáveis e isso é possível por meio da alimentação, que deve ser feita de acordo com o estado atual do paciente, ou seja, de acordo com seu dosha predominante e com os desequilíbrios que ele possa apresentar. Os tecidos que formam o corpo humano são formados a partir dos 5 elementos, que consumimos em forma de alimento. Para o Ayurveda, a saúde de uma pessoa é medida pela força de seu agni (fogo digestivo). Um "bom agni" é capaz de extrair dos alimentos ingeridos os nutrientes necessários para formar tecidos fortes; por outro lado, quando o agni está diminuído ou é irregular (menor capacidade digestiva) a nutrição dos tecidos fica mais pobre, comprometendo a saúde e a integridade estrutural do organismo. Costuma-se ouvir muito que "você é o que você come", mas podemos concluir, com o exposto, que a medicina indiana vai além: "você é o que você consegue digerir".


A massagem ayurvédica

Além de se utilizar de alimentação adequada, fitoterapia, yoga e outras técnicas, a massagem é uma das principais técnicas utilizada pelos médicos e terapeutas ayurvédicos, por ser de baixo custo e fácil aplicação. Surgida na cultura dos Vedas (antiga etnia indiana), não é apenas uma das mais antigas e sim uma das mais completas técnicas naturais para restabelecer o equilíbrio físico e psíquico. Trata-se de uma massagem profundamente relaxante, atuando no campo físico e energético, tendo a função de purificação e manutenção da saúde corporal. Tem como objetivo restaurar o bem-estar físico, mental, energético e emocional. A massagem ayurvédica age nos sistemas: linfático (desintoxicando o organismo), circulatório (aumentando a produção de glóbulos brancos e a nutrição e oxigenação celular) e energético (reequilibrando o chakra e atuando nos sete corpos - desfazendo bloqueios emocionais). Dessa forma contribuindo na cura das principais doenças. É importante ressaltar que, para uma massagem ser ayurvédica, deve levar em consideração os doshas do paciente, seus desequilíbrios e suas características. É uma prática individualizada, específica para cada tipo de pessoa. Não existe apenas uma técnica de massagem na Ayurveda, mas sim diversas delas, que são feitas com óleos essenciais medicados, de acordo com o dosha do indivíduo. Alegadamente fortalece o sistema imunológico aumentando a quantidade de glóbulos brancos e desintoxica o organismo, mas não existem evidências. É indicada como um dos tratamentos para quase todas as doenças, principalmente: dependência química, alergias, estresse, estafa, fadiga, depressão, fibromialgia, bloqueios emocionais, problemas musculares e de coluna, lembrando que na Ayurveda não se trata a enfermidade, mas sim o indivíduo. Deve ser ministrada com cuidado em gestantes. Reconhecida pela OMS (Organização Mundial da Saúde) a massagem ayurvédica é utilizada por quase toda população da Índia e está sendo amplamente divulgada no mundo. Benefícios proporcionados pelo tratamento com a massagem ayurvédica: Rejuvenescimento (melhora na pele), realinhamento das estruturas óssea e muscular, aumento da auto-consciência, fortalecimento do sistema imunológico, aceleração da circulação linfática e conseqüente desintoxicação do organismo; eliminação de bloqueios, prevenção de doenças, aumento de flexibilidade, reequilíbrio dos chakras, atuação nos sete corpos sutis, maior mobilidade das articulações e possibilita uma vida mais harmoniosa e feliz.

Referências

Biografia de Tarquínio Prisco


Tarquínio Prisco
Tarquínio Prisco. (em latim Lucius Tarquinius Priscus) ou Tarquínio, o Antigo foi o quinto rei de Roma, segundo a cronologia de Tito Lívio, eleito depois da morte de Anco Márcio. Proveniente de Tarquinia, na Etrúria, possuía grande riqueza, oriunda de suas atividades comerciais. Foi o primeiro rei etrusco. Seu verdadeiro nome, Lúcio Tarquínio (Lucius Tarquinius), foi substituído quando chegou em Roma. Construiu a primeira ponte romana.



Família


Seu pai era Demarato de Corinto, da família dos baquíadas, e se tornou muito rico fazendo o comércio entre Corinto e as cidades do mar Tirreno. Quando Cípselo tornou-se tirano, derrubando os braquíadas, Demarato achou que não era seguro viver sob uma tirania sendo rico, principalmente por ele pertencer a oligarquia. Ele juntou suas posses e fugiu de Corinto, indo para a Tarquinia, onde ele tinha amigos, e se casou com uma mulher local de família nobre. Ele teve dois filhos, Arruns e Lucumo, a quem ele deu nomes tarquínios e casou com mulheres tarquínias de famílias nobres, mas os instruiu na cultura da Grécia e do Tirreno. Depois que Arruns morreu, seguido poucos dias depois da morte de Demarato, Lucumo herdou a fortuna do pai. Lucumo tinha pretensões de se tornar um cidadão importante, mas sendo excluído por não ser considerado nativo, e ouvindo que os romanos recebiam bem qualquer estrangeiro, mudou-se para Roma com sua família e seus amigos. Em Roma, ele adotou o nome Lucius Tarquinius.



Governo


Cloaca Máxima (imagem: Chris 73).
Depois da morte de Anco Márcio, Tarquínio Prisco dirigiu-se à Comitia Curiata e os convenceu que ele devia ser eleito rei em lugar dos filhos do falecido rei, que ainda eram adolescentes. Ele sucedeu a Anco Márcio como rei de Roma. Em seu governo, introduziu em Roma divindades e tradições etruscas. Continuou as guerras de conquista contra as tribos vizinhas, instituiu jogos públicos e fez secar as áreas de pântanos da cidade. Reformou as instituições, a administração pública, bem como o exército. Aumentou o número de senadores de cem para duzentos. Urbanizou Roma com construções como a do Templo de Júpiter, o Circo Máximo, da área posteriormente chamada de Fórum Romano e da Cloaca Máxima, principal rede de esgotos da cidade, que existe até hoje. Durante seu reinado, gregos da Foceia subiram o rio Tibre e se aliaram aos romanos; em seguida, eles foram à terra dos lígures e dos gauleses e fundaram Massília.



Morte e sepultura


O filho mais velho de Anco Márcio, na esperança de obter o trono que considerava usurpado por Tarquínio, organizou um complô no qual o rei etrusco morreu. Porém seu plano foi frustrado pela hábil esposa de Tarquínio, Tanaquil, que conseguiu fazer com que o povo romano elegesse Sérvio Túlio como sexto rei de Roma, continuando a dinastia dos tarquínios.


Referências



quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Manuscrito Voynich


Um exemplo do texto do manuscrito Voynich.
Manuscrito Voynich é um misterioso livro ilustrado com um conteúdo incompreensível. Imagina-se que tenha sido escrito há aproximadamente 600 anos por um autor desconhecido que se utilizou de um sistema de escrita não-identificado e uma linguagem ininteligível. É conhecido como “o livro que ninguém consegue ler”. Ao longo de sua existência registrada, o manuscrito Voynich tem sido objeto de intenso estudo por parte de muitos criptógrafos amadores e profissionais, incluindo alguns dos maiores decifradores norte-americanos e britânicos ao tempo da Segunda Guerra Mundial (todos os quais falharam em decifrar uma única palavra). Esta sucessão de falhas transformou o manuscrito Voynich num tema famoso da história da criptografia, mas também contribuiu para lhe atribuir a teoria de ser simplesmente um embuste muito bem tramado – uma sequência arbitrária de símbolos. A teoria hoje mais aceita é de que o manuscrito tenha sido criado como arte no século XVI como uma fraude. O fraudador teria sido o mago, astrólogo e falsário inglês Edward Kelley com ajuda do filósofo John Dee para enganar Rodolfo II da Germânia (do Sacro Império Romano-Germânico). Foi datado por carbono como se fosse do começo do século 15 (1400). Segundo a datação Kelley não poderia ter escrito ele pois nasceu meio século depois. Vendo torres que se assemelham a uma cidade há uma teoria que diz que foi escrito no norte da Itália. O livro ganhou o nome do livreiro polaco-estadunidense Wilfrid Michael Voynich, que o comprou em 1912. A partir de 2005, o manuscrito Voynich passou a ser o item MS 408 na Beinecke Rare Book and Manuscript Library da Universidade de Yale. A primeira edição fac-símile foi publicada em 2005 (Le Code Voynich), com uma curta apresentação em francês do editor, Jean-Claude Gawsewitch, ISBN 2350130223.




Características



Nestes três páginas manuscritas que parecem objetos astronômicos.
O volume, escrito em pergaminho de vitelo, é relativamente pequeno: 16 cm de largura, 22 de altura, 4 de espessura. São 122 folhas, num total de 204 páginas. Estudos consideram que o original teria 272 páginas em 17 conjuntos de 16 páginas cada, outros falam em 116 folhas originais, tendo 1 se perdido. Percebe-se, pelos espaços ao final direito das linhas, que o texto é escrito da esquerda para a direita, sem pontuação. Análise grafológica mostra uma boa fluência. No total são cerca de 170 mil caracteres, 20 a 30 letras se repetem, umas 12 aparecem só 1 ou 2 vezes. Os espaços indicam haver 35 mil palavras; os caracteres têm boa distribuição quantitativa e de posição, alguns podem se repetir (2 e 3 vezes), outros não, alguns só aparecem no início de palavras, outros só no fim; análises estatísticas (análise de frequência de letras) dão ideia de uma língua natural, europeia, algo como inglês ou línguas românicas. Conforme o linguista Jacques Guy, a aparente estrutura do texto indica semelhanças com línguas da Ásia do Sul e Central, sendo talvez uma Língua tonal, algo como línguas Sino-tibetanas, Austro-asiáticas ou Tai. Conforme datação por Carbono 14 feita pela Universidade do Arizona, o pergaminho data do início do século XV; Conforme a análise do “Mc. Crone Research Institut” a tinta é da mesma época, embora as cores dos desenhos sejam posteriores. Nas páginas finais aparecem anotações mais recentes feitas em letras latinas nas formas de alfabetos europeus do século XV.


Composição


A seção "biológico" do texto contendo
o banho mulheres nuas.
Acompanha o texto uma quantidade significativa de ilustrações em cores que representam uma ampla variedade de assuntos; os desenhos permitem que se perceba a natureza do manuscrito e foram usados como pontos de referência para os criptógrafos dividirem o livro em seções, conforme a natureza das ilustrações.

  • Seção I (Fls. 1-66): denominada botânica, contém 113 desenhos de plantas desconhecidas.
  • Seção II (Fls. 67-73): denominada astronômica ou astrológica, apresenta 25 diagramas que parecem se referir a estrelas. Aí podem ser identificados alguns signos zodiacais. Neste caso ainda fica difícil haver certezas acerca do que trata realmente a seção.
  • Seção III (Fls. 75-86): denominada biológica, denominação que se deve exclusivamente à presença de muitas figuras femininas, frequentemente imersas até os joelhos em estranhos vasos comunicantes contendo um fluido escuro.

Logo após essa seção vem uma mesma folha repetida seis vezes, apresentando nove medalhões com imagens de estrelas ou figuras que podem parecer células, imagens radiais de pétalas e feixes de tubos.

  • Seção IV (Fls. 87-102): denominada farmacológica - medicinal, por meio de imagens de ampolas e frascos de formas semelhantes às dos recipientes das farmácias antigas. Nessa seção há ainda desenhos de pequenas plantas e raízes, possivelmente ervas medicinais.
  • A última seção do manuscrito Voynich tem início na folha 103 e prossegue até o fim, sem que haja nessa seção final mais nenhuma imagem, exceto estrelinhas (ou pequenas flores) ao final de alguns parágrafos. Essas marcações fazem crer que se trata de algum tipo de índice.

 

Descoberta


Wilfrid Michael Voynich
O manuscrito Voynich deve sua denominação a Wilfrid Michael Voynich, um americano de ascendência polonesa, mercador de livros, que adquiriu o livro no colégio Jesuíta de Villa Mondragone, em Frascati, em 1912, através de padre jesuíta Giuseppe (Joseph) Strickland (1864-1915). Os Jesuítas precisavam de fundos para restaurar a vila e venderam a Voynich 30 volumes da sua biblioteca, que era formada por volumes do Colégio Romano que tinham sido transportados ao colégio de Mondragone junto com a biblioteca geral dos Jesuítas, para evitar sua expropriação pelo novo Reino de Itália. Entre esses livros estava o misterioso manuscrito. Com o livro, Voynich encontrou uma carta de Johannes Marcus Marci (1595-1667), reitor da Universidade de Praga e médico real de Rodolfo II da Germânia, com a qual enviava o livro a Roma, ao amigo polígrafo Athanasius Kircher para que o decifrasse. Na carta, que ostenta no cabeçalho Praga, 19 de Agosto de 1665 (ou 1666), Marci declarava ter herdado o manuscrito medieval de um amigo seu (conforme revelaram pesquisas, era um muito conhecido alquimista de nome Georg Baresch), e que seu dono anterior, o Imperador Rodolfo II do Sacro Império Romano, o adquirira por 600 Ducados, cifra muito elevada, acreditando que se tratasse de algo escrito por Roger Bacon. Voynich afirmou que o livro continha pequenas anotações em Grego antigo e datou o mesmo do século XIII. A definição da data do
A ilustração da parte "biologia".
pergaminho ainda é controversa, mas é possível situar a elaboração do texto no final do século XVII: uma análise por radiação infravermelha revela a presença de uma assinatura sucessivamente apagada: Jacobi a Tepenece, na época Jacobus Horcicki, morto em 1622 e principal alquimista a serviço de Rodolfo II do Sacro Império. Como “Jacobi” recebeu o título de Tepenece em 1608, isso prova não ser confiável a informação da aquisição do manuscrito antes disso. Além disso, uma das plantas representadas em desenho na Seção "Botânica" é quase idêntica ao girassol, que somente passou a existir na Europa depois do Descobrimento da América, o que leva o manuscrito a ser posterior a 1492.

 

Criptografia


A página que mostra as características do texto.
Muitos, ao longo do tempo, e principalmente em tempos mais recentes, tentaram decifrar a escrita e a língua desconhecidas do manuscrito Voynich. O primeiro a ter afirmado que decifrara a escrita foi William Newbold, professor de filosofia medieval na Universidade da Pensilvânia. Em 1921 publicou um artigo no qual apresentava um proceder complexo e arbitrário pelo qual decifrara o texto. O texto como visível, segundo ele, não tinha significado, o verdadeiro conteúdo seria um sub-texto micro-grafado, com marcas minúsculas ocultas nos caracteres maiores. O texto real era escrito em Latim, camuflado nas marcas quase invisíveis, sendo obra de Roger Bacon. A conclusão que Newbold tirou de sua tradução dizia que já no final da Idade Média seriam conhecidas noções de Astrofísica de Biologia molecular. Nos anos 40, os criptógrafos Joseph Martin Feely e Leonell C. Strong aplicaram ao documento um outro sistema de decifração, tentando encontrar caracteres latinos nos espaços claros, brancos. A tentativa apresentou resultados sem significado. O manuscrito foi o único a resistir às análises dos “experts” de criptografia da marinha americana que ao fim da guerra estudaram e analisaram alguns antigos códigos cifrados para testar os novos sistemas de codificação. J.M. Feely publicou uma dedução no livro “Roger Bacon's Cipher: The Right Key Found" no qual, mais uma vez, volta-se a atribuir a Bacon a paternidade do livro misterioso. Em 1945 o professor William F. Friedman constituiu em Washington um grupo de estudiosos, o “First Voynich Manuscript Study Group” (FSG). A opção foi por uma abordagem mais metódica e objetiva, a qual levou à percepção a grande repetição de “palavras” em alguns trechos no texto do manuscrito. No entanto, independente da opinião formada ao longo dos anos quanto ao caráter artificial da tal linguagem, na prática, a busca terminou em impasse: de fato não serviu para transpor os caracteres em sinais convencionais, o que serviria de ponto de partida para qualquer análise posterior. O professor Robert Brumbaugh, docente de filosofia medieval de Yale, e o cientista Gordon Rugg, na sequência de pesquisas linguísticas, assumiram a teoria que veria o Voynich como um simples expediente fraudulento, visando a desfrutar, na época, do sucesso que obtinham as obras de natureza esotéricas junto às cortes europeias. Em 1978 o filólogo diletante John Stojko acreditou ter reconhecido a língua, declarando que se tratava do ucraniano com as vogais removidas. A tal tradução, no entanto, apesar de apresentar alguns passos num sentido aparentemente lógico (Ex.: O Vazio é aquilo pelo qual combate o "Olho do Pequeno Deus") não correspondia aos desenhos. Em 1987 o físico Leo Levitov atribuiu o texto ao povo Cátaro, pensando ter interpretado o texto como uma mistura de diversas línguas medievais da Europa Central. O texto, porém, não correspondia à cultura cátara e a tradução não fazia muito sentido. O estudo mais significativo nessa matéria hoje é aquele feito em 1976 por William Ralph Bennett, que aplicou estudos de casuística e estatística de letras e palavras do texto, colocando em foco não somente a repetição, mas também a simplicidade léxica e a baixíssima entropia da informação. A linguagem contida no Voynich não somente teria um vocabulário muito limitado, mas também uma basicidade linguística encontrada somente na língua havaiana. O fato de que as mesmas “sílabas” e ainda palavras inteiras venham repetidas mostra algo que parece uma zombaria relacionada a uma visão mais complacente, inconscientemente, mas não deliberadamente enigmático. O alfabeto utilizado, além de não ter sido ainda decifrado, é único. Foram, no entanto, reconhecidas de 19 a 28 possíveis letras, que não têm nenhuma ligação ou correspondência perceptível com os alfabetos hoje conhecidos. Em alguns pontos encontram-se quatro palavras ou mais repetidas de forma consecutiva. Suspeita-se também que foram usados dois alfabetos complementares, mas não iguais, e que o manuscrito teria sido redigido por mais de uma pessoa. É imprescindível e significativo lembrar que a total falta de erros ortográficos perceptíveis, de pontos riscados ou apagados, ou hesitações, é estranha, pois tais falhas sempre ocorreram em todos os manuscritos que já foram localizados e analisados.

 

Hipótese filosófica


A flor na página 32, com cores ainda são vibrantes.
As palavras contidas no manuscrito apresentam frequentes repetições de sílabas, o que levou alguns estudiosos (William Friedman e John Tiltman) a levantar a hipótese de se tratar de uma língua Filosófica, ou seja, Artificial, na qual cada palavra é composta de um conjunto de letras que lembram uma divisão dos substantivos em categorias. O exemplo mais claro de língua artificial é a “Língua analítica de John Wilkins”, também analisado no conto homônimo de Jorge Luís Borges. Nessa língua, todos os seres são catalogados em 40 categorias, subdivididas em sub-categorias e a cada uma é associada uma sílaba ou uma letra: desse modo, por exemplo, a classe geral “cor” é indicada como “robo’”; assim, o vermelho será “robôs” e o amarelo “robof” e assim por diante. Essa hipótese baseava-se na repetição de sílabas, mas até hoje ninguém conseguiu dar um senso razoável aos prefixos silábicos repetidos. Além disso, as primeiras línguas artificiais começaram a aparecer em épocas posteriores da provável compilação do manuscrito. Quanto a esse pontos, não é uma restrição tão importante, pois é fácil acreditar que idéia de línguas filosóficas é simples e poderia ser mais antiga do que se pensa. Uma hipótese contrária, muito mais arriscada e audaciosa, é de que era um objetivo do manuscrito sugerir que se tratava de uma língua artificial. O certo é que Johannes Marcus Marci tinha contatos com Juan Caramuel y Lobkowitz, cujo livro “Grammatica Audax” constituiu numa inspiração para a Língua analítica de Wilkins.

 

Possível solução


Girolamo Cardano
Recentemente foi levantada a hipótese que buscava entender o motivo da dificuldade para o texto ser decifrado. Gordon Rugg, em Julho de 2004, individualizou um método que poderia ter sido seguido pelos autores hipotéticos para produzir “ruídos casuais” em forma de sílabas e de palavras. Esse método, realizável mesmo com os recursos de 1600, explicaria essa repetição de sílabas e de palavras, a essência básica típica da escrita casual e tornaria verossímil a hipótese de o texto ser um falso trabalho renascentista criado como arte para enganar qualquer estudioso ou soberano. Antes disso, o estudioso Jorge Stolfi, da Universidade de Campinas (Brasil), havia proposto a hipótese de que o texto fosse composto misturando sílabas casuais tiradas de uma tabela de caracteres. Isso explicaria a regularidade das repetições, mas não a ausência de outras estruturas de repetição, por exemplo, das outras letras ligadas aos conjuntos repetitivos. Rugg parte da idéia de que o texto tenha sido composto com métodos combinatórios disponíveis por volta dos anos 1400 a 1600: chamou sua atenção a chamada “Grade (tabela) de Cardano”, criada por Girolamo Cardano em 1550. O método consiste em sobrepor com uma tabela de caracteres ou com um texto uma segunda grade, com apenas algumas pequenas casas (janelas) cortadas de modo a permitir ler a tabela que fica atrás. A superposição oculta a parte supérflua do texto de baixo, deixando visível a mensagem. Rugg reconduziu o método de criação com uma grade de 36 x 40 casas, à qual sobrepôs uma máscara com três furos, compondo assim os três elementos da palavra: prefixo, raiz central e sufixo. O método, muito simples na sua utilização, teria permitido ao anônimo autor do manuscrito a realização muito rápida do texto partindo de um única grade (com casa cortada) colocada em diversas posições. Isso acabou com a teoria de que o manuscrito fosse algo falso, dado que um texto de tais proporções com características sintáticas similares será muito difícil de ser feito sem um método dessa natureza. Rugg determinou algumas “regras básicas” do “Voynich” que poderiam reconduzir às características da tabela usada pelo autor. Como exemplo, a tabela original tinha a provavelmente as sílabas do lado direito mais longas, algo que se reflete nas maiores dimensões dos prefixos em relação às sílabas seguintes. Ele ainda tentou entender se o texto poderia se tratar de um segredo codificado no texto, mas a análise o levou a excluir tal hipótese, pois, em função da complexidade de construção das frases, é quase certo que a grade foi usada não para codificar o texto, mas para escrevê-lo. Pesquisas históricas posteriores a esse estudo levaram a atribuir a John Dee e a Edward Kelley o texto. Dee era um estudioso do Período Elisabetano e teria introduzido o notório falsário Kelley na Corte de Rodolfo II (Sacro Império Romano) por volta de 1580. Kelley era mago, além de falsificador, e assim conhecia truques matemáticos de Cardano, tendo criado o texto a fim de obter uma vultosa cifra que lhe foi dada pelo Imperador.

 

Manuscrito na literatura


Imagem da página 86,
mostra um castelo com ameias.
O manuscrito foi utilizado como elemento literário, como pelo escritor britânico Colin Wilson em um conto inspirado em Howard Phillips Lovecraft, “O Retorno dos Lloigor”, como pelo escritor fantástico Valerio Evangelisti que na sua "Trilogia de Nostradamus", assemelha o Voynich a um Arbor Mirabilis e dele faz um texto esotérico no centro de uma trama complexa que se passa através da história francesa do século XVI. No romance de terror Codex, de Roberto Salvidio (2008), vê-se uma hipotética decifração do manuscrito Voynich. O Manuscrito é também protagonista do romance “O Manuscrito de Deus” de Michael Cordy, no qual o
Um detalhe da seção "biológico" do manuscrito.
manuscrito é parcialmente decifrado por uma docente da Universidade de Yale, sendo que se tratava de um mapa, instruções para encontrar o Jardim do Éden. O manuscrito Voynich é descrito no livro “A História Está Errada”, de Erich von Däniken, autor de “Eram os Deuses Astronautas?”. O manuscrito Voynich também é citado no livro “O Símbolo Perdido”, de Dan Brown, autor do best-seller “O Código Da Vinci”.







Referências:

 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Biografia de Thomas More


Thomas More
(pintura de Hans Holbein, 1527).
Thomas More. Nasceu em Londres, a 7 de Fevereiro de 1478, e, faleceu também em Londres, a 6 de Julho de 1535. Thomas More foi homem de Estado, diplomata, escritor, advogado e homem de leis, ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 1529 a 1532, o cargo de "Lord Chancellor" (Chanceler do Reino - o primeiro leigo em vários séculos) de Henrique VIII da Inglaterra. É geralmente considerado como um dos grandes humanistas do Renascimento. Foi canonizado como santo da Igreja Católica em 19 de Maio de 1935 e sua festa litúrgica celebra-se em 22 de Junho.



"De família não célebre, mas honesta"


Estátua de Thomas More em frente do
Chelsea Old Church, localizado na esquina de
Old Church Street e Cheyne Walk, Londres.
(Imagem: Fin Fahey).
Thomas More chegou a se auto-descrever como “de família honrada, sem ser célebre, e um tanto entendido em letras”. Era filho do juiz Sir John More, investido cavaleiro por Eduardo IV, e de Agnes Graunger. Casou-se com Jane Colt em 1505, em primeiras núpcias, tendo tido como filhos: Margaret, Elizabeth, Cecily e John. Jane morreu em 1511 e Thomas More casou-se em segundas núpcias com Lady Alice Middleton. More era homem de muito bom humor, caseiro e dedicado à família, muito próximo e amigo dos filhos. Dele se disse que era amigo de seus amigos, entre os quais se encontravam os mais destacados humanistas de seu tempo, como Erasmo de Roterdã e Luis Vives. Deu aos filhos uma educação excepcional e avançada para a época, não discriminando a educação dos filhos e das filhas. A todos indistintamente fez estudar latim, grego, lógica, astronomia, medicina, matemática e teologia. Sobre esta família escreveu Erasmo: “Verdadeiramente, é uma felicidade conviver com eles”. Fez carreira como advogado respeitado, honrado e competente e exerceu por algum tempo a cátedra universitária. Em 1504, fazia parte da Câmara dos Comuns da qual foi eleito Speaker (ou presidente), tendo ganho fama de parlamentar combativo. Em 1510, foi nomeado Under-Sheriff de Londres, no ano seguinte juiz membro da Commission of Peace. Entrou para a corte de Henrique em 1520, foi várias vezes embaixador do rei e tornou-se cavaleiro (Knight) em 1521. Foi nomeado vice-tesoureiro e depois Chanceler do Ducado de Lancaster e, a seguir, Chanceler da Inglaterra. A sua obra mais famosa é “Utopia” (1516) (em grego, utopos = “em lugar nenhum”). Neste livro criou uma ilha-reino imaginária que alguns autores modernos viram como uma proposta idealizada de Estado e outros como sátira da Europa do século XVI. Um dos aspectos desta obra de More é que ela recorreu à alegoria (como no Diálogo do conforto, ostensivamente uma conversa entre tio e sobrinho) ou está altamente estilizada, ou ambos, o que lhe abre um largo campo interpretativo. Como intelectual, ele foi inicialmente um humanista no sentido consensual do termo. Latinista, escreveu uma “História de Ricardo III” em texto bilíngue latim-inglês, em que Shakespeare, mais tarde se basearia para escrever a peça de igual nome. Foi um grande amigo de Erasmo de Roterdã que lhe dedicou o seu “In Praise of Folly” (a palavra "folly" equivale à "moria" em grego). Era um leitor das obras de Santo Agostinho e traduziu para o vernáculo “A Vida de Pico della Mirandolla”, obras que exerceram sobre ele grande influência. Escolheu John Colet, sacerdote, como diretor espiritual, que lhe estabeleceu um plano intenso de práticas pietistas. Sobre More teria dito Erasmo: “É um homem que vive com esmero a verdadeira piedade, sem a menor ponta de superstição. Tem horas fixas em que dirige a Deus suas orações, não com frases feitas, mas nascidas do mais profundo do coração. Quando conversa com os amigos sobre a vida futura, vê-se que fala com sinceridade e com as melhores esperanças. E assim é More também na Corte. Isto, para os que pensam que só há cristãos nos mosteiros”.



O divórcio de Henrique VIII


Escultura de Thomas More por George Sherrin.
(Imagem: Felix O).
Thomas Wolsey, Arcebispo de York, não foi bem sucedido na sua tentativa de conseguir nem o divórcio nem a anulação do casamento do rei com Catarina de Aragão como Henrique VIII de Inglaterra pretendia e foi forçado a demitir-se em 1529. More foi nomeado chanceler em sua substituição, sendo evidente que Henrique ainda não se tinha apercebido da retidão de caráter de More nesta matéria. A sua chancelaria (1529-32) distinguiu-se pela sua exemplaridade, tratando pessoalmente, de todos os litígios existentes, até mesmo os herdados, sendo extremamente eficiente, imparcial e justo em suas decisões. Sendo profundo conhecedor de teologia e do direito canônico e homem religioso - ao ponto de se mortificar por Deus - usava por baixo das roupas uma camisa cilício - More via no anulamento do sacramento do casamento uma matéria da jurisdição do papado, e a posição do Papa Clemente VII era claramente contra o divórcio em razão da doutrina sobre a indissolubilidade do matrimônio. Contrário às Reformas Protestantes então já efetuadas e percebendo que na Inglaterra poderia acontecer o mesmo (devido às questões pessoais do soberano que conduziram à crise político-diplomática com Roma), More - apoiante das decisões da Santa Sé e arreigadamente católico - deixa seu cargo de Lord Chancellor do rei em 16 de Maio de 1532, provocando desconfiança na Corte e em Henrique VIII particularmente. A reação de Henrique VIII foi atribuir-se a si mesmo a liderança da Igreja em Inglaterra sendo o sacerdócio obrigado a um juramento ao abrigo do Acto de Supremacia que consagrava o soberano como chefe supremo da Igreja. More escapara, entretanto, a uma tentativa de o implicar numa conspiração. Em 1534, o Parlamento promulgou o "Decreto da Sucessão" (Succession Act), que incluía um juramento (1) reconhecendo a legitimidade de qualquer criança nascida do casamento de Henrique VIII com Ana Bolena, e (2) repudiando "qualquer autoridade estrangeira, príncipe ou potentado". Tal como no juramento de supremacia, este apenas foi exigido àqueles especificamente chamados a fazê-lo, por outras palavras, a todos os funcionários públicos e àqueles suspeitos de não apoiarem Henrique.



Martírio


More foi convocado, excepcionalmente, para fazer o juramento em 17 de Abril de 1534, e, perante sua recusa, foi preso na Torre de Londres, juntamente com o Cardeal e Bispo de Rochester John Fisher, tendo ali escrito o "Dialogue of Comfort against Tribulation". A sua decisão foi manter o silêncio sobre o assunto. Pressionado pelo rei e por amigos da corte, More decidiu não enumerar as razões pelas quais não prestaria o juramento. Inconformado com o silêncio de More, o rei determinou o seu julgamento, sendo condenado à morte, e posteriormente executado em Tower Hill a 6 de Julho. Nem no cárcere nem na hora da execução perdeu a serenidade e o bom humor e, diante das próprias dificuldades reagia com ironia. Pela sentença o réu era condenado "a ser suspenso pelo pescoço" e cair em terra ainda vivo. Depois seria esquartejado e decapitado. Em atenção à importância do condenado o rei, "por clemência", reduziu a pena a "simples decapitação". Ao tomar conhecimento disto, Tomás comentou: "Não permita Deus que o rei tenha semelhantes clemências com os meus amigos". No momento da execução suplicou aos presentes que orassem pelo monarca e disse que "morria como bom servidor do rei, mas de Deus primeiro". A sua cabeça foi exposta na ponte de Londres durante um mês, foi posteriormente recolhida por sua filha, Margaret Roper. A execução de Thomas More na Torre de Londres, no dia 6 de Julho de 1535 "antes das nove horas", ordenada por Henrique VIII, foi considerada uma das mais graves e injustas sentenças aplicadas pelo Estado contra um homem de honra, consequência de uma atitude despótica e de vingança pessoal do rei. Ele está sepultando na Capela Real de São Pedro ad Vincula.



Canonização


Sua trágica morte - condenado a pena capital por se negar a reconhecer Henrique VIII como cabeça da Igreja da Inglaterra, é considerada pela Igreja Católica como modelo de fidelidade à Igreja e à própria consciência, e representa a luta da liberdade individual contra o poder arbitrário. Devido à sua retidão e exemplo de vida cristã, foi reconhecido como mártir, declarado beato em 29 de Dezembro de 1886 por decreto do Papa Leão XIII e canonizado, conjuntamente com São João Fisher em 19 de Maio de 1935 pelo Papa Pio XI. O seu dia festivo é 22 de Junho. Deixou vários escritos de profunda espiritualidade e de defesa do magistério da Igreja. Em 1557, seu genro, William Roper, escreveu sua primeira biografia. Desde a sua beatificação e posterior canonização publicaram-se muitas outras.



Patrono dos políticos e dos governantes


Em 2000, São Thomas More foi declarado "Patrono dos Estadistas e Políticos" pelo Papa João Paulo II:

"Esta harmonia do natural com o sobrenatural é talvez o elemento que melhor define a personalidade do grande estadista inglês: viveu a sua intensa vida pública com humildade simples, caracterizada pelo proverbial 'bom humor' que sempre manteve, mesmo na iminência da morte.

Esta foi a meta a que o levou a sua paixão pela verdade. O homem não pode separar-se de Deus, nem a política da moral: eis a luz que iluminou a sua consciência. Como disse uma vez, "o homem é criatura de Deus, e por isso os direitos humanos têm a sua origem n'Ele, baseiam-se no desígnio da criação e entram no plano da Redenção. Poder-se-ia dizer, com uma expressão audaz, que os direitos do homem são também direitos de Deus" (Discurso, 7 de Abril de 1998).

É precisamente na defesa dos direitos da consciência que brilha com luz mais intensa o exemplo de Tomás Moro. Pode-se dizer que viveu de modo singular o valor de uma consciência moral que é "testemunho do próprio Deus, cuja voz e juízo penetram no íntimo do homem até às raízes da sua alma" (Carta enc. Veritatis splendor, 58), embora, no âmbito da ação contra os hereges, tenha sofrido dos limites da cultura de então".



Utopia (livro)

De Optimo Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia (em português: Sobre o Melhor Estado de uma República e sobre a Nova Ilha Utopia) ou simplesmente “Utopia” é um livro de 1516 escrito por Tomás Moro (Thomas Morus 1480-1535). Escrito em latim, foi sua principal obra literária e tornou-se sinônimo de projeto irrealizável; fantasia; delírio; quimera; lugar que não existe, dando uso mais amplo do então neologismo "utopia".


Livro primeiro

Estrutura as questões analisadas no livro segundo

Primeiro diálogo Discutem:

• Algumas decisões que afetam a Europa; • Tendência dos reis para começar as guerras (em consequência gastam muito dinheiro) • Discutem o julgamento que dão ao roubo • Revela os problemas das “enclousers” e por consequência a pobreza e as mortes provocadas pela fome (a quem são recusadas terras) • More tenta ainda convencer Rafael Hitlodeu a encontrar trabalho na corte como Conselheiro. Apesar de portador de grande sabedoria, Rafael recusa referindo que a sua visão é demasiado radical e não seria ouvido. Os jovens cedo seriam infectados com corrupção e más opiniões. • More contempla o papel dos filósofos no trabalho de situações reais.

Parafraseia Mateus: “O que vos digo em voz baixa e ao ouvido pregai-o em voz alta e abertamente”.

Ps.: Utopia é um termo inventado por Thomas More que serviu de título para sua principal obra escrita em latim por volta de 1516. Segundo a versão de vários historiadores, More se fascinou pelas narrações extraordinárias de Américo Vespúcio sobre a recém avistada ilha de Fernando de Noronha, em 1503. More decidiu então escrever sobre um lugar novo e puro onde existiria uma sociedade perfeita. Em sua obra Morus explica que para melhor resolver os problemas de uma sociedade é preciso um esforço teórico e prático de racionalidade. Os Utopianos praticam um sistema tendencialmente igualitário de repartição de bens sociais, pressupondo um socialismo (socialismo utópico).



Obras de More (editadas em várias línguas)


  • The Workes of Sir Thomas More Knyght, sometyme Lorde Chauncellour of England, written by him in the Englysh tongue ("Trabalhos de Sir Thomas More" escrito em inglês). Ed. William Rastell, London, 1557.
  • Thomae Mori Opera Omnia Latina. Lovaina, 1565. Reimpresso em Frankfurt, 1963.
  • Um homem para todas as horas (Correspondência de Tomás Moro). The Correspondence of Sir Thomas More. Princeton: Elizabeth F. Rogers Edit., 1947.
  • Thomas More's Prayer Book. Louis L. Martz & Richard S. Sylvester. New Haven, Connecticut, 1969.
  • Diálogo da Fortaleza Contra a Tribulação.
  • A Agonia de Cristo.
  • A Apologia.
  • Um Homem Só (Cartas da torre).
  • Os Novíssimos.
  • Réplica a Martinho Lutero.
  • Diálogo Contra as Heresias.
  • Súplica das Almas.
  • Refutação da Resposta de Tyndale.
  • Debelação de Salem e Bizancio.
  • Tratado sobre a Paixão de Cristo.
  • Expositio Passionis.
  • Tratado para Receber o Corpo de Nosso Senhor.
  • Piedosa Instrução.
  • Orações.
  • Epitáfio.
  • Vida de Pico della Mirandola.
  • História de Ricardo III.
  • Utopia.

 

Relíquias


Os padres jesuítas em Stonyhurst possuem uma notável coleção de relíquias secundárias, a maioria das quais lhes chegou vindas do padre Thomas More, S.J., falecido em 1795, o último herdeiro masculino do mártir. Estas incluem o seu chapéu, boné, crucifixo de ouro, um selo de prata, "George", e outros artigos. A camisa de cilício usada por ele durante muitos anos e enviada a sua filha Margaret Roper na véspera do seu martírio, é preservada pelos agostinianos canoneses de Abbots Leigh, Devonshire, onde foi levada por Margaret Clements, filha adotiva de Sir Thomas. Uma série de autógrafos e cartas estão no Museu Britânico.



Filme


Em 1966, foi feito o filme “A Man for All Seasons”, que no Brasil recebeu o título de “O Homem que Não Vendeu sua Alma”. O filme, de Fred Zinnemann, conta a história de Thomas Morus, desde o divórcio de Henrique VIII até a perseguição feita pelo rei a Thomas Morus. Thomas foi interpretado por Paul Scofield.




Citações

  • "Nada há tão doce na vida como os jovens sonhos de amor".

  • Pela sentença o réu era condenado "a ser suspenso pelo pescoço" e cair em terra ainda vivo. Depois seria esquartejado e decapitado. Em atenção à importância do condenado o rei, "por clemência", reduziu a pena a "simples decapitação". Ao tomar conhecimento disto, Tomás comentou: "Não permita Deus que o rei tenha semelhantes clemências com os meus amigos." No momento da execução suplicou aos presentes que orassem pelo monarca e disse que "morria como bom servidor do rei, mas de Deus primeiro".

  • De Morus teria dito Erasmo: "É um homem que vive com esmero a verdadeira piedade, sem a menor ponta de superstição. Tem horas fixas em que dirige a Deus suas orações, não com frases feitas, mas nascidas do mais profundo do coração. Quando conversa com os amigos sobre a vida futura, vê-se que fala com sinceridade e com as melhores esperanças. E assim é More também na Corte. Isto, para os que pensam que só há cristãos nos mosteiros".

  • "O seu profundo desdém pelas honras e riquezas, a humildade serena e jovial, o sensato conhecimento da natureza humana e da futilidade do sucesso, a segurança de juízo radicada na fé conferiram-lhe aquela confiança e fortaleza interior que o sustentou nas adversidades e frente à morte. A sua santidade refulgiu no martírio, mas foi preparada por uma vida inteira de trabalho, ao serviço de Deus e do próximo".

- (João Paulo II, (31.10.2000) ao proclamá-lo patrono dos governantes).



Referências