domingo, 31 de maio de 2015

Biografia de Plotino


Plotino
Πλωτῖνος
Plotino. (em grego: Πλωτῖνος). Nasceu em Licopólis, Egito, Império Romano, em torno de 204/5, e, faleceu em Campânia, Itália, Império Romano, em 270. Plotino foi um filósofo neoplatônico, autor de “Enéadas”, discípulo de Amônio Sacas por onze anos e mestre de Porfírio. *Encontrando-se com Amônio Sacas (Sacas é geralmente considerado o fundador do neoplatonismo), despertou para a filosofia. Escreve o Prof. Herculano Pires: “Plotino correspondia precisamente aos anseios da época. Oferecia aos homens a esperança de uma vida pura e perfeita, fora dos tormentos e das imperfeições do mundo. Abria-lhes uma perspectiva de salvação. E ao mesmo tempo criava uma ética religiosa, que implicaria o esforço constante das criaturas para se libertarem dos seus desejos e apetites, das suas paixões desvairadas”.



Biografia



Grego nascido no Egito em Licópolis, "Lyco" do grego significa "lobo" (em grego: λύκος, lykos), a mesma raiz que deu origem ao Liceu de Aristóteles ("o local do lobo") no Egito, o que levou a especulações de que ele pode ter sido um egípcio de Roma descendente de gregos ou egípcios helenizados.



Expedição à Pérsia e retorno a Roma



Depois de passar os 11 anos em Alexandria, na idade de 38 anos, Plotino decidiu investigar os ensinamentos filosóficos da Filosofia iraniana e Filosofia indiana. Na busca desse esforço ele deixou Alexandria e se juntou ao exército de Gordiano III, uma vez que este marchava sobre a Pérsia. No entanto, a campanha foi um fracasso e na eventual morte de Gordiano, Plotino se encontrou abandonado em uma terra hostil e com alguma dificuldade encontrou seu caminho de volta para a segurança em Antioquia. Com a idade de quarenta anos, durante o reinado de Filipe, o Árabe, retornou Roma, onde permaneceu durante a maior parte do resto de sua vida. Lá, atraiu um número de alunos. Seu círculo mais íntimo incluiu Porfírio, Amélio da Toscana, o senador Castro Firmo e Eustáqui de Alexandria, um médico que se dedicou ao aprendizado de Plotino e que o assistiu até a sua morte. Outros alunos foram: Zeto, um árabe por ascendência, que morreu antes de Plotino deixando-lhe um legado e um pouco de terra, Zótico, crítico e poeta, Paulino, um médico de Sitopólis e Serapião de Alexandria. Ele tinha alunos entre o senado romano além de Castro, como Marcelo Oronto, Sabinilo e Rogaciano. Algumas mulheres também foram contadas entre os seus alunos, incluindo Gemina, em cuja casa ele viveu durante a sua residência em Roma, e sua filha, também Gemina, e Anficlea, a esposa de Aristão filho de Jâmblico (Iamblichus Chalcidensis). Conta Eunápio de Sárdis que Porfírio, após haver estudado com Plotino, tomou horror ao próprio corpo e velejou para a Sicília, seguindo a rota de Odisseu, e ficou em um promontório da ilha, sem se alimentar e evitando o caminho do homem; Plotino, que ou o estava seguindo ou recebeu informações sobre o jovem discípulo, foi até ele e o convenceu com suas palavras, de modo que Porfírio voltou a reforçar seu corpo para sustentar sua alma. Os critérios editoriais de Porfírio, possivelmente, tinham por objetivo formar uma série que ‎mostrasse o caminho para a sabedoria. Nas palavras de Dominic J. O'Meara: “Com isso Porfírio quis ‎oferecer ao leitor uma passagem pelos escritos de Plotino que lhe traria uma formação ‎filosófica, uma condução até o bem absoluto. O alvo geral da leitura e interpretação dos textos ‎nas escolas do Império era, em primeira linha, a transformação da vida, a cura da alma, a ‎condução para uma vida boa resultante disso”. ‎Porfírio informa que Plotino tinha 66 anos quando morreu em 270, o segundo ano do reinado do imperador Cláudio II, dando-nos assim o ano de nascimento do seu professor como ao redor 205, em Minturno, já foi sugerido também que possa ter nascido na Alexandria. A influência de Plotino e dos neoplatônicos sobre o pensamento cristão, islâmico e judaico foi representativa para escritores como Gregório de Nazianzo, Gregório de Nissa, Santo Agostinho, Pseudo-Dionísio (o Areopagita), Boécio (Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius), João Escoto Erígena, Alberto Magno, Santo Tomás de Aquino, Dante Alighieri, Mestre Eckhart (Eckhart de Hochheim), Johannes Tauler, Nicolau de Cusa, São João da Cruz, Marsílio Ficino, Pico de la Mirandola, Giordano Bruno, Avicena, Ibn Gabirol, Baruch de Espinoza, Gottfried Wilhelm Leibniz, Samuel Taylor Coleridge, Henri Bergson e Máximo (o Confessor).



Teoria



Plotino dividia o Universo em três hipóstases: o Uno, o Nous (ou mente) e a Alma.

Uno - primeira hipóstase

Segundo Plotino, o Uno refere-se a Deus, dado que sua principal característica é a indivisibilidade. “É em virtude do Uno (unidade) que todas as coisas são coisas”. (Plotino, Enéada VI, 9º tratado).

Nous - segunda hipóstase

Nous, termo filosófico grego que não possui uma transcrição direta para a língua portuguesa, e que significa atividade do intelecto ou da razão em oposição aos sentidos materiais. Muitos autores atribuem como sinônimo a Nous os termos "Inteligência" ou "Pensamento". O significado ambíguo do termo é resultado de sua constante apropriação por diversos filósofos, para denominar diferentes conceitos e idéias. Nous refere-se, dependendo do filósofo e do contexto, algumas vezes a uma faculdade mental ou característica, outras vezes correspondente a uma qualidade do universo ou de Deus.

  • Homero usou o termo nous significando atividade mental em termos gerais, mas no período pré-Socrático o termo foi gradualmente atribuído ao saber e a razão, em contraste aos sentidos sensoriais.
  • Anaxágoras descreveu nous como a força motriz que formou o mundo a partir do caos original, iniciando o desenvolvimento do cosmo.
  • Platão definiu nous como a parte racional e imortal da alma. É o divino e atemporal pensamento no qual as grandes verdades e conclusões emergem imediatamente, sem necessidade de linguagem ou premissas preliminares.
  • Aristóteles associou nous ao intelecto, distinto de nossa percepção sensorial. Ele ainda dividiu-o entre nous ativo e passivo. O passivo é afetado pelo conhecimento. O ativo é a eterna primeira causa de todas as subsequentes causas no mundo.
  • Plotino descreveu nous como sendo umas das emanações do ser divino.


Alma - terceira hipóstase

Na Teosofia, a alma é associada ao 5º princípio do Homem, Manas, a Alma Humana ou Mente Divina. Manas é o elo entre o espírito (a díade Atman-Budhi) e a matéria (os princípios inferiores do Homem). Assim, a constituição sétupla do Homem, aceita na Teosofia, adapta-se facilmente a um sistema com três elementos: Espírito, alma e corpo. Sendo a alma o elo entre o Espírito e o corpo do homem.



Enéadas (obra)



As Enéadas, por vezes abreviado para Enéadas (em grego antigo: Ἐννεάδες) é a coleção de escritos de Plotino que foi editada e compilada por seu discípulo Porfírio por volta de 270. A obra é formada por seis livros, cada uma composta por nove seções, o que dá origem ao nome “enéada”, nesta compilação está o polêmico escrito “Contra os Cristãos”.



Conteúdo

Os nomes dos tratados podem diferir de acordo com a tradução. Os números entre colchetes antes dos trabalhos individuais referem-se a ordem cronológica em que foram escritas de acordo com Vida de Plotino, de Porfírio.

Primeira enéada


  • I.1 [53] - "O que é o ser vivo e o que é o Homem?"
  • I.2 [19] - "Sobre a Virtude"
  • I.3 [20] - "Sobre Dialética [do modo para cima]"
  • I.4 [46] - "Sobre a verdadeira felicidade (Bem Estar)"
  • I.5 [36] - "Sobre se felicidade (Bem Estar) aumenta com o tempo"
  • I.6 [1] - "Sobre a beleza"
  • I.7 [54] - "Sobre o Bem primal e formas secundárias do bem [Caso contrário, "Sobre a felicidade"]
  • I.8 [51] - "Sobre a natureza e a origem do mal"
  • I.9 [16] - "Sobre a despedida"

Segunda enéada


  • II.1 [40] - "Sobre o céu"
  • II.2 [14] - "Sobre o movimento dos céus"
  • II.3 [52] - "Se as estrelas são causas"
  • II.4 [12] - "Sobre a matéria"
  • II.5 [25] - "Sobre a potencialidade e a atualidade"
  • II.6 [17] - "Sobre a qualidade ou sobre a substância"
  • II.7 [37] - "Sobre a completa transfusão"
  • II.8 [35] - "Sobre a visão ou como objetos distantes parecem pequenos"
  • II.9 [33] - "Contra aqueles que afirmam ser o Criador do Cosmos e o Cosmos serem mal: [comumente chamada de "Contra os gnósticos"].

Terceira enéada


  • III.1 [3] - "Sobre o Destino"
  • III.2 [47] - "Sobre a providência (1)."
  • III.3 [48] - "Sobre a providência (2)."
  • III.4 [15] - "Sobre nosso Espírito Guardião atribuído"
  • III.5 [50] - "Sobre o Amor"
  • III.6 [26] - "Sobre a impassividade do incorpóreo"
  • III.7 [45] - "Sobre a Eternidade e Tempo"
  • III.8 [30] - "Sobre a natureza, a contemplação e o Uno"
  • III.9 [13] - "Considerações isoladas"

Quarta enéada


  • IV.1 [21] - "Sobre a essência da alma (2)"
  • IV.2 [4] - "Sobre a essência da alma (1)"
  • IV.3 [27] - "Sobre a essência da alma (1)"
  • IV.4 [28] - "Sobre a essência da alma (2)"
  • IV.5 [29] - "Sobre os problemas da alma (3)” [ou ainda "Sobre a visão"].
  • IV.6 [41] - "Sobre senso-percepção e memória"
  • IV.7 [2] - "Sobre a imortalidade da alma"
  • IV.8 [6] - "Sobre a descida da alma no corpo"
  • IV.9 [8] - "São todas as almas uma só?"

Quinta enéada


  • V.1 [10] - "Sobre as três hipóstases primárias"
  • V.2 [11] - "Sobre a origem e Ordem dos Seres seguintes após o Primeira"
  • V.3 [49] - "Sobre a hipóstase conhecida e o que está além"
  • V.4 [7] - "Como aquele que vem após o primeira vem do primeiro, e sobre o Uno."
  • V.5 [32] - "Que os seres intelectuais não estão fora do Intelecto, e sobre o Bem"
  • V.6 [24] - "No fato de que aquilo que está além do ser não pensar, sobre o que é o primário e o Princípio do Pensamento secundário"
  • V.7 [18] - "Sobre se há idéias de seres particulares"
  • V.8 [31] - "Sobre a beleza inteligível"
  • V.9 [5] - "Sobre o intelecto, as formas e o ser"

Sexta enéada


  • VI.1 [42] - "Sobre os tipos de Ser (1)"
  • VI.2 [43] - "Sobre os tipos de Ser (2)"
  • VI.3 [44] - "Sobre os tipos de Ser (3)"
  • VI.4 [22] - "Sobre a presença do Ser, o Uno e o mesmo, em toda parte como um todo (1)"
  • VI.5 [23] - "Sobre a presença do Ser, o Uno e o mesmo, em toda parte como um todo (2)"
  • VI.6 [34] - "Sobre os números"
  • VI.7 [38] - "Como a multiplicidade de formas surgiu: e sobre o Bem"
  • VI.8 [39] - "Sobre o livre-arbítrio e a vontade do Uno"
  • VI.9 [9] - "Sobre o bem, ou o Uno"





Citações



  • Esforço-me para reunir o que há de divino em mim ao que há de Divino no Universo”.

- I am trying to make what is most divine in me rise back up to what is divine in the universe
- citado em "Plotinus, or, The simplicity of vision‎" - Página 45, Pierre Hadot - University of Chicago Press, 1998, ISBN 0226311945, 9780226311944 - 145 páginas.

Sobre


  • A alma só é bela pela inteligência, e as outras coisas, tanto nas ações como nas intenções, só são belas pela alma que lhes dá a forma da beleza”.

- Tratado das Enéadas.



Referências





sexta-feira, 29 de maio de 2015

Nous (filosofia)


Nous, termo filosófico grego que não possui uma transcrição direta para a língua portuguesa, e que significa atividade do intelecto ou da razão em oposição aos sentidos materiais. Muitos autores atribuem como sinônimo a Nous os termos “Inteligência” ou “Pensamento”. É também utilizado para descrever uma forma de percepção que opera dentro da mente ("olho da mente"), ao invés de ser apenas através dos sentidos. O significado ambíguo do termo é resultado de sua constante apropriação por diversos filósofos, para denominar diferentes conceitos e idéias. Nous refere-se, dependendo do filósofo e do contexto, vezes a uma faculdade mental ou característica, outras vezes a uma correspondente qualidade do universo ou de Deus.

  • Homero usou o termo nous significando atividade mental em termos gerais, mas no período pré-Socrático o termo foi gradualmente atribuído ao saber e a razão, em contraste aos sentidos sensoriais.
  • Anaxágoras descreveu nous como a força motriz que formou o mundo a partir do caos original, iniciando o desenvolvimento do cosmo.
  • Platão definiu nous como a parte racional e imortal da alma. É o divino e atemporal pensamento no qual as grandes verdades e conclusões emergem imediatamente, sem necessidade de linguagem ou premissas preliminares.
  • Aristóteles associou nous ao intelecto, distinto de nossa percepção sensorial. Ele ainda dividiu-o entre nous ativo e passivo. O passivo é afetado pelo conhecimento. O ativo é a eterna primeira causa de todas as subsequentes causas no mundo.
  • Plotino descreveu nous como sendo umas das emanações do ser divino.

Referências


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Biografia de Giorgione


Suposto auto-retrato de Giorgione
representado como David.
Giorgione. (Giorgio Barbarelli da Castelfranco). Nasceu em Castelfranco Veneto , cerca de 1477, e, faleceu em Veneza, fins de 1510. Giorgione foi um pintor do Renascimento na Itália. Por ter morrido com apenas 33 anos, deixou uma obra pequena em quantidade, mas de alta qualidade e grande influência em seu tempo. A vida de Giorgione foi descrita por Giorgio Vasari, em seu livro “Vidas”.

Biografia
O pintor veio de uma pequena vila perto de Veneza, mas não se conhece bem com que idade ele começou como aprendiz de Giovanni Bellini, com quem permaneceu ate ficar famoso. Em 1500, com vinte e três anos, foi escolhido para pintar os retratos do Doge Agostino Barberigo e do Condotiere Consalvo Ferrante. Em 1504, recebeu a encomenda para pintar uma peça para o altar da catedral de sua nativa Castelfranco. Em 1507, recebeu um pagamento de uma obra para o salão de audiências no palácio do Doge. Entre 1507-1508 esteve empregado, junto com outros artistas, decorando o exterior da Fondaco dei Tedeschi em Veneza, além de outras obras já espalhadas pela cidade. Vasari descreve outro importante acontecimento na vida de Giorgione, que muito influenciou sua obra, seu encontro com Leonardo da Vinci, por ocasião da visita do mestre toscano a Veneza em 1500. Giorgione foi para a pintura de Veneza o que Leonardo fora para Florença vinte anos antes, influenciando vários contemporâneos, entre eles Ticiano (Tiziano Vecellio). Ele nunca subordinou sua pintura à arquitetura, um efeito artístico à uma representação sentimental. Foi o primeiro a pintar paisagens com figuras, e o primeiro a pintar figuras sem um propósito devocional, alegórico ou histórico, e o primeiro a usar as cores com a intensidade que ficou típica da escola veneziana. Foi também um dos pioneiros do sfumato e do chiaroscuro, o delicado uso de tons de cor para acentuar a perspectiva e a luz, um dos motivos de sua fama. Giorgione morreu novo, durante uma praga que assolou a cidade em Setembro ou Outubro de 1510, poucos dias antes de chegar a Veneza uma carta da grande mecenas das artes de seu tempo, Isabella d'Este, duquesa de Mântua, encomendando uma obra para sua coleção. Para Castelfranco, Giorgione pintou a “Pala di Castelfranco” uma peça sacra convencional, mostrando a Madona entronada com dois santos formando um triângulo equilátero. Entretanto a riqueza da paisagem ao fundo da peça marcou uma inovação na arte de Veneza. “A Venus Adormecida”, hoje em Dresden, mostra o novo uso de uma paisagem como moldura para a deusa. Este quadro foi completado após sua morte por Ticiano, servindo de modelo para sua “Vênus de Urbino”. O mesmo conceito de beleza idealizada é evocado na sua pensativa virgem de “Laura ou Retrato de uma Jovem Noiva”, hoje no Kunsthistorisches Museum, Viena, uma grande pintura que exibe as qualidades de Giorgione como colorista e paisagista. Ele e Ticiano revolucionaram o gênero retrato, sendo impossível diferenciar as primeiras obras de um e outro. “A Tempestade” vem sendo chamada de a primeira paisagem com figuras da arte ocidental. Embora a intenção desta obra seja desconhecida, a maestria do autor é evidente.

A Tempestade (obra)
A Tempestade, em italiano: La Tempesta, é uma famosa pintura renascentista, obra do pintor italiano Giorgione de 1508.

Visão geral e significado

Encomendada pelo nobre Gabriel Vendramin, “A Tempestade” é uma das obras mais enigmáticas da história da arte. É considerado por unanimidade como autoria de Giorgione, mas seu significado, porém, é o que tem dado origem a uma discussão mais aprofundada. Existem várias hipóteses sobre o significado da obra, a partir da representação de diferentes episódios bíblicos, mitológicos ou mesmo uma representação alegórica da fortuna, coragem, ou caridade.

Pala de Castelfranco (obra)
A Pala de Castelfranco é uma obra do pintor Giorgione, realizada em torno de 1503-1504, uma das poucas deste autor que se conservam em seu local original, a igreja de San Liberal de sua cidade natal, Castelfranco Veneto. Datada na fase inicial de sua obra, foi un encargo em homenagem ao filho do condotiero local, como retábulo do altar onde ele seria enterrado.

O tema

Trata-se de uma composição triangular na qual se vê a Virgen entronizada com um Menino, custodiada pelos santos Liberal de Altino, patrono de Castelfranco Veneto e Francisco de Assis, a qual se representa com seu atributo clássico: o hábito da orden franciscana, fundada por ele e descalço. Os especialistas consideram a sugestão conseguida do sfumato nas cabeças das virgens de duas obras comparáveis, a da “Pala de Giorgione” e a “Virgen com Menino e Santos” de seu mestre Giovanni Bellini. Por sua afinidade temática e compositiva é comparada à “Pala Pesaro” de Ticiano.

____________________________________________________
Galeria de artes
A Tempestade 1508, Accademia, Veneza.


Pala de Castelfranco (entre 1503 e 1504).


Laura ou Retrato de uma Jovem Noiva, 1506, Kunsthistorisches Museum, Viena.


A Venus Adormecida (cerca de 1501).


 

Referências

sábado, 23 de maio de 2015

Biografia de Evaristo da Veiga


Evaristo da Veiga (M. J. Garnier).
Evaristo da Veiga. (Evaristo Ferreira da Veiga e Barros). Nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a 8 de Outubro de 1799, e, faleceu nesta mesma cidade a 12 de Maio de 1837. Evaristo da Veiga foi um poeta, jornalista, político e livreiro brasileiro. *Um dos mais combativos jornalistas do seu tempo, fundou em 1827 a “Aurora Fluminense”. Por este jornal atacou denodadamente o Imperador Dom Pedro I, que apesar dos seus desmandos dava inteira liberdade de crítica aos seus opositores. Esses ataques eram, contudo, de cunho estritamente político; tanto que a letra do conhecido Hino da Independência é de sua autoria e, a música, do próprio Imperador. Várias vezes deputado, destacou-se ainda por seu destemor durante o Período Regencial (sofreu inclusive um atentado, recebendo um tiro no rosto). É o patrono da cadeira fundada por Rui Barbosa na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Infância e adolescência

Filho de um português mestre-escola, Francisco Luís Saturnino Veiga, chegado ao Brasil aos 13 anos, soldado miliciano na paróquia de Santa Rita, no Rio de Janeiro, depois nomeado professor régio de primeiras letras na freguesia de São Francisco Xavier do Engenho Velho. Passou a professor na rua do Ouvidor, onde abriu uma loja. Andou por Vila Rica em 1788 e 1789, deve ter conhecido alguns dos inconfidentes, pois recopiou as “Cartas Chilenas” de Tomás Antônio Gonzaga, publicadas meio século mais tarde por seu neto Luís Francisco da Veiga. Casou com uma brasileira, D. Francisca Xavier de Barros, nascendo três filhos, dos quais Evaristo foi o segundo. Teve grande influência sobre seus filhos, sobretudo Evaristo, ótimo estudante que no Rio de Janeiro de D. João VI aprendeu francês, latim, inglês, cursou aulas de retórica e poética e estudou filosofia. Neste período adquiriu interesse por jornalismo ao visitar as oficinas da Impressão Régia, nos porões do palácio do conde da Barca. Quando concluiu os estudos, o pai já abrira uma livraria na rua da Alfândega e os livros que trazia da Europa tinham em Evaristo o primeiro leitor, o mais curioso. Seu projeto frustrado de partir para a Universidade de Coimbra encontrou compensação na livraria do pai.

Poeta

Evaristo da Veiga
Autor da letra do “Hino à Independência”, cuja música se deve a D. Pedro I. Conta entre os precursores do Romantismo no Brasil. Em suas poesias mais antigas se sente a influência da escola arcádica e sobretudo de Bocage. Datam de 1811, tinha 12 anos. Um ano depois, em 1812, celebra os desastres militares dos franceses em Portugal. Aos 14 anos era um poeta português que refletia no Brasil com atraso de 20 anos o movimento da Nova Arcádia em que haviam excedido Bocage, José Agostinho de Macedo, Curvo Semedo. Em 1817 era súdito fiel de D. João VI, um luso no Rio de Janeiro: o malogro da revolução de Pernambuco o encheu de alegria. Seus versos cantaram o casamento de D. Pedro com D. Leopoldina, os anos de S. Majestade em 13 de Maio de 1819, o aniversário da aclamação do rei. Diversas poesias são dedicadas a amigos, uma característica que se manterá: primou sempre nele o sentimento da amizade. Aos vinte anos começaram a aparecer Marílias, Nises, Lílias, Isabelas mas seus sonetos, cantigas e madrigais continuam arcádicos - com ligeira influência dos mineiros. Em 1821, porém, vivia-se no Rio de Janeiro “o ano do constitucionalismo português”, como afirma Oliveira Lima em “O Movimento da Independência”. Ninguém podia ficar indiferente. O elemento conservador, receoso de desordens, alimentava esperança de que a chegada das novas instituições não importaria em ruptura com Portugal, pois haveria uma monarquia dual, servindo a coroa como união. Era o pensamento de Evaristo da Veiga, ilusão de que participaram muitos brasileiros. Não tardaram os constitucionalistas de Portugal a demonstrar sua incompreensão das coisas do Brasil e foram aparecendo as resoluções das Cortes que tinham como propósito estabelecer a antiga submissão colonial, embora de outra forma. Foi nesse instante que nele despertou o patriota: um soneto em 17 de Outubro de 1821 é intitulado “O Brasil”. Outro, de Fevereiro de 1822, já estigmatizava “a perfídia de Portugal”. Daí em diante vibrou com o movimento que se espalhava pelo país. Em 16 de Agosto de 1822, sem ser figura saliente em nenhum acontecimento, escreveu o “Hino Constitucional Brasiliense”, o célebre “Brava Gente Brasileira / longe vá temor servil”, etc. Compôs sete hinos, no total, entoados por milhares de bocas. O “Brava Gente” recebeu duas músicas, uma do maestro Marcos Portugal, outra do próprio Príncipe Regente D. Pedro. E como Evaristo era tímido e o príncipe notoriamente melômano, logo se lhe atribuiu a letra... Só mais tarde, em 1833, Evaristo reivindicaria a letra (os originais estão na Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional). O ato da aclamação do Imperador lhe inspirou três sonetos - e outros dedicou à Liberdade, à instalação da Assembléia Constituinte, a lorde Cochrane (Thomas Alexander Cochrane), à fuga do general Madeira. Mas teria papel obscuro e modesto nos sucessos da Independência. Seu nacionalismo era novo, faltava-lhe paixão, e ademais não tinha posição social, era um rapaz modesto e avesso a turbulências que trabalhava no balcão da livraria do pai. Em 1821, porém, assina com pseudônimo “O Estudante Constitucional” uma réplica a panfleto anônimo contra o Brasil, intitulado “Carta do Compadre de Belém”, impresso em Portugal. Cedo deixou de ser um espectador desenganado da ação do Imperador. 1823 era o ano da instalação da Constituinte e o de sua dissolução por um golpe de força. Em 30 de Maio ele já fala no “despotismo mascarado”... Deixou de fazer sonetos, fez hinos. Ainda publicaria em 1823 “Despedida de Alcino a sua Amada”, pois Alcino foi seu nome poético. Mas era poeta bastante medíocre e disso teve convicção antes de que outros lhe dissessem. Sua atividade poética foi esmorecendo, subindo apenas em 1827, ano em que se casou. Sua vocação, logo descobriria estar na política, no serviço público, na imprensa, no parlamento.

Livreiro

Morreu sua mãe em 1823 e o pai, que desejava casar-se de novo, escrupuloso e exato como era, entregou aos filhos a parte que lhes tocava na herança materna. Evaristo e João Pedro, seu irmão, abriram então uma livraria. Era empreendimento lucrativo. O país se europeizava e os livros e jornais eram os agentes dessa europeização. Em 1821 no Diário do Rio de Janeiro havia anúncios de oito lojas de livros. Datam de Outubro de 1823 os primeiros anúncios da loja de Evaristo (João Pedro da Veiga & Comp), 14 dias antes de D. Pedro I dissolver a Assembleia. Leu tudo que vendia, formou seu pensamento, fixou-se na posição da monarquia constitucional, pois a república lhe parecia um exagero e era moderado por temperamento. Vendendo livros e fazendo cada vez menos versos passou os anos até 1827, quando, economicamente independente, se separou do irmão e estabeleceu livraria própria ao comprar a livraria e tipografia de João Batista Bompard na rua dos Pescadores nº 49. Em 1827 casou-se com D. Ideltrudes Maria d'Ascensão, começando nova vida.

Jornalista

Em 21 de Dezembro de 1827 surgiu o primeiro número de seu próprio jornal, logo famoso, o “A Aurora Fluminense”, que exerceu importante papel na política do Primeiro Reinado por suas tendências anti-lusófilas. Os fundadores foram um jovem brasileiro cedo falecido, José Apolinário de Morais, o médico francês José Francisco Sigaud e Francisco Crispiano Valdetaro. Evaristo resolveu associar-se e passou em pouco tempo de colaborador a redator principal e finalmente único. Assinava seus artigos apenas como Evaristo da Veiga. A imprensa do Rio de Janeiro era então detestável, pasquineira. A Gazeta do Brasil era favorável ao governo, órgão ministerial, defendendo o Gabinete de 15 de Janeiro de 1827, e quem enviava seus artigos, como depois se descobriria, era Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, oficial do Gabinete Imperial, íntimo e detestável amigo de D. Pedro I. A Gazeta chamava A Aurora Fluminense de “fedorenta sentina da demagogia e do jacobinismo”, a “Astréa” de João Clemente Vieira Souto de “insolente e demagógica”, O Universal de Ouro Preto, de inspiração de Bernardo Pereira de Vasconcelos, de “jacobino e anárquico”. Os fundadores de A Aurora Fluminense queriam “linguagem imparcial”, guiada pela razão e virtude, e havia para “servir à liberdade constitucional” um Evaristo da Veiga, imbuído de leituras francesas e inglesas, com o sonho de ver adotadas as instituições que seus autores prediletos preconizavam como indispensáveis à grandeza das nações. Uma quadrinha de versos pífios, composta por D. Pedro I, foi seu lema: Pelo Brasil dar a vida / Manter a Constituição / Sustentar a Independência / É a nossa obrigação. E foi seu programa o devotamento ao país, o respeito pela sua liberdade, a manutenção de sua Constituição. Os seus temas, no jornal, foram a liberdade constitucional, o sistema representativo, a liberdade de imprensa. Por isso deu apoio ao Gabinete de 20 de Novembro de 1827. Mas havia assuntos de momento em que tocou, como o descalabro da instrução, a questão do crédito público. Combatia a indiferença em matéria política, sobretudo, a mais funesta de todas as enfermidades morais. Havia a mesma pregação em outros jornais liberais (o Farol, O Astro, de Minas, a Astréa), combatidos pelos jornais corcundas. Batia-se pela abolição dos morgados, extinção da Intendência de Polícia, da Fisicatura, do Desembargo, da Mesa da Consciência e da Ordem, instituições obsoletas. A oposição dos ministérios excluía escrupulosamente a pessoa do monarca, a quem tratava com deferência e até louvava. Ainda não desesperançados do Imperador, os liberais queriam estimulá-lo. O Imperador, porém, é que parecia ir-se distanciando do herói brasileiro que fora em 1822 e voltar-se mais para Portugal do que para o Brasil, comenta Octavio Tarquinio de Sousa. A separação entre a corrente nativista liberal e o imperador aumentou sempre, a sessão parlamentar de 1829 seria da maior agitação, o governo sempre acusado. A Aurora era o mais autorizado reduto da oposição governamental, e sua popularidade - e a de Evaristo - crescia sempre. Quando do atentado ao jornalista Luís Augusto May, redator da “A Malagueta”, órgão liberal, repetição do que fora vítima em 1823, sem temor a que lhe sucedesse o mesmo, Evaristo condenou-o energicamente e continuou impassível em suas campanhas. Estavam do seu lado a Astréa, a Luz Brasileira - e do lado ministerial, o Diário Fluminense, O Analista, o Courrier du Brésil, o Jornal do Commercio. A federação era moda, havia gente que queria ir até a República. De seu lado não viriam provocações, pois em artigo de 9 de Dezembro de 1829 escreveu: Nada de jacobinismos de qualquer cor que ele seja. Nada de excessos. A linha está traçada - é a da Constituição. Tornar prática a Constituição que existe sobre o papel deve ser o esforço dos liberais.

Político

Em 1830 foi eleito deputado por Minas Gerais, tendo sido reeleito até morrer. Era nome conhecido no Brasil inteiro. Deputado, continuou jornalista e foi sempre livreiro. Aproximava-se de Bernardo Pereira de Vasconcelos, pela coincidência da posição ideológica. Na nova Câmara abundavam adeptos do liberalismo e para formar a opinião liberal do Brasil ninguém concorrera mais que Evaristo, que jamais assinara um artigo sequer, e a Aurora Fluminense, que em 1830 fora aumentada para seis páginas. Sem nunca ter saído do Rio de Janeiro, recebeu seu mandato de deputado por Minas Gerais, substituindo Raimundo José da Cunha Matos, que optara pela cadeira de Goiás. Em seu mandato tentou pôr as instituições monárquicas a serviço do grande problema brasileiro - a unidade do vasto país. Cumpria cuidar dos interesses mais vitais do povo, fomentar a indústria, sanear zonas quase inabitáveis, difundir a instrução. Batia-se pelo estreitamento das relações com as demais nações americanas, desconfiando das da Europa. Sempre assíduo, queria que os assuntos fossem discutidos com calma, nas Comissões, longe do tumulto do plenário. Opunha-se às liberalidades à custa do Tesouro: “Devemos desgostar antes aos afilhados do que à nação”, dizia. Falava pouco, sem retórica, indo direto ao assunto sem divagações. Tinha qualidades raras como deputado: senso de proporções, espírito objetivo, modéstia patriótica. Quando, trabalhado por intrigantes, D. Pedro I demitiu inopinadamente Barbacena da Fazenda, com os desenvolvimentos que se conhecem, os mais otimistas se foram convencendo de que o Brasil nunca seria um país livre com semelhante imperador. Precisamente nesse clima caiu como um raio a notícia da revolução de Julho de 1830 na França, derrubando Carlos X, e recrudesceu a campanha na imprensa em favor das idéias liberais. Surgiu no Rio o jornal “O Repúblico”, e nenhum teria papel mais ativo para desencadear a crise. Pregava-se abertamente a federação, querendo mesmo a Nova Luz uma “federação democrática”. Evaristo combatia-os e ao mesmo tempo os órgãos absolutistas: o Imparcial, o Diário Fluminense, o Moderador, em posição difícil de equidistância. Mas a agitação popular se alastrava. D. Pedro, mal aconselhado, resolveu ir a Minas Gerais, onde foi friamente recebido. Diz Octávio Tarquínio de Sousa que “já se apagara da imaginação popular a figura romântica do príncipe que fora o melhor instrumento da Independência”. Evaristo enfrentou com destemor os dias de atentados que precederam o Sete de Abril. Foi ele o autor da representação enérgica de 17 de Março de 1831 na chácara da Flora, propriedade do padre José Custódio Dias, um verdadeiro ultimato ao imperador. P. Pedro I, que chefiava em Portugal a campanha constitucionalista, se foi no Brasil distanciando de suas atitudes liberais de 1822 e a ele se foram chegando cada vez mais os portugueses aqui residentes, sendo então abandonado pelos próprios elementos moderados da política brasileira. Já estavam conspirando Evaristo, Odorico Mendes, Nicolau de Campos Vergueiro e esforçando-se por conseguir a adesão da tropa. “O dia 6 de Abril seria de fato a verdadeira data revolucionária em que se verificaria a insurreição da tropa e do povo no Campo de Santana; a 7 de Abril apenas se completaria a vitória liberal com a abdicação do monarca”. Evaristo anuiu ao golpe quando se esgotaram as possibilidades de uma solução menos violenta, como ele próprio declarou num discurso em 12 de Maio de 1832 na Câmara. Aderiu para evitar a anarquia, o desmembramento, a desunião das províncias. Evaristo correu ao Senado para dar forma legal à nova situação por meio da reunião extraordinária que elegeu a Regência provisória (o Marquês de Caravelas, Nicolau de Campos Vergueiro, o brigadeiro Francisco de Lima e Silva). Coube-lhe redigir a proclamação, e o documento, nobre, nacionalizava a independência e pedia não macular a vitória com excessos. Terminava: “Do dia 7 de Abril de 1831 começou a nossa existência nacional; o Brasil será dos brasileiros, e livre!”. Aberta a Câmara a 3 de Maio, Evaristo foi escolhido para a Comissão de criação da Guarda Nacional, a “força cidadã”, como ele chamava, que teria o importante papel de manter a ordem em todo o período regencial. Elegeu-se a 17 de Junho de 1831 a primeira Regência permanente, sendo escolhidos Francisco de Lima e Silva, Costa Carvalho e João Bráulio Muniz, este representando o Norte. Evaristo teve imenso papel na elaboração da lei que a regulou.

A Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional
Ao mesmo tempo, empenhou-se pela criação de um outro instrumento de ordem, de disciplina social, de orientação política, que foi a Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional, instalada no Rio de Janeiro a 19 de Maio de 1831. Inspirava-se em sua congênere paulista e teve por iniciador Antônio Borges da Fonseca, o redator de O Repúblico. Evaristo se tornou seu adepto mais fervoroso e de 1831 a 1835 a Aurora Fluminense, a tribuna da Câmara e a Sociedade se tornaram seu centro de ação diária. Foi instrumento de ação dos moderados, e se disse, com algum exagero, que “governou o Brasil pelo espaço de quatro anos”. Abreu Lima em “História do Brasil” acha que “foi em realidade outro Estado no Estado, porque sua influência era a que predominava no gabinete e nas Câmaras; e sua ação, mais poderosa que a do governo, se estendia por todos os ângulos do Império”. O grande elemento de ação da “Defensora” foram as representações à Câmara, ao governo, publicadas nos jornais do partido moderado desde 1 de Junho de 1831. Evaristo vinculou-se também a diversas outras sociedades e agremiações, animando-as, procurando colocá-las sob sua orientação política. Foi um dos fundadores da Sociedade de Instrução Elementar, da Sociedade Amante da Instrução, da Sociedade Filomática do Rio de Janeiro. Sua luta foi incansável, em época propícia aos excessos, pois não era o simplista que acredita no milagre das leis. Joaquim Nabuco dele dirá, em “Um Estadista do Império”, que quis exercer no Brasil a ditadura de sua opinião - uma opinião lúcida, desinteressada, de bom senso, serenidade e medida de proporções. Os Andradas haviam-se logo alistado entre os descontentes, Evaristo se tornou alvo de ataques e calúnias. Em Julho de 1831 era profunda a divisão dos liberais. Nomeado Feijó para a Justiça, recebeu todo o apoio de Evaristo, na Câmara e pela Aurora Fluminense mas havia grandes embaraços ao governo com a indisciplina militar, a separação entre exaltados e moderados. Evaristo era já, por consenso, o chefe do partido moderado. Formigavam apodos: “Farroupilhas” e “Jurujubas” seriam os exaltados, “Chimangos” ou “Chapéus Redondos” os moderados, “Caramurus” os restauradores. Era moço, tinha 32 anos. A Malagueta o achava feio e menoscabava sua profissão de livreiro. A partir de 1832 os restauradores pareciam mais perigosos do que os exaltados, o Carijó e o Caramuru iniciaram ofensiva contra o governo. Uma grave crise foi a campanha de Feijó para destituir José Bonifácio da tutoria dos filhos do Imperador, cujo desfecho se daria com o malogrado golpe de 30 de Julho de 1832. Membro da comissão de resposta à Fala do Trono, Evaristo fez um de seus mais longos discursos, quase de improviso, eloquente. Serviu-se também da Aurora Fluminense, enquanto o Carijó obediente a Antônio Carlos Ribeiro de Andrada o chamava de “sanefa da Pátria, sabugo versicolor da Aurora”. Em Julho, a Câmara aprovou a destituição de José Bonifácio de seu posto como tutor, muito comprometido com o facciosismo dos irmãos, mas o Senado não, e Feijó pediu demissão. Os moderados já viam D. Pedro I de novo sentado no trono... Ficou decidido o Golpe de Estado tramado na chácara do Padre José Custódio Dias, mas Evaristo não teve nenhuma iniciativa, nenhum entusiasmo, não deu seu assentimento nem adesão formal - instava, entretanto, por uma “medida salvadora” e demonstrou sua solidariedade completa, irrestrita a Feijó. Malogrado o golpe, Feijó e outros ministros saíram do governo e a Regência continuou - o bastão de líder escapou de suas mãos. No novo ministério organizado a 3 de Agosto de 1832 não havia amigos seus. O Carijó chegou a escrever: “Evaristo está morto”.

A reforma constitucional e a eleição de Feijó
A 30 de Julho de 1832 a Aurora Fluminense publicou: “Evaristo é o mesmo homem, deputado livre, jornalista defensor da ordem púbica e homem da classe industriosa, vivendo do seu trabalho. Nunca aspirou nem procurou o poder”. A 13 de Setembro, Evaristo exultava com o novo ministério com Nicolau de Campos Vergueiro e Honório Hermeto Carneiro Leão, e neste tinha Feijó um substituto... Voltavam ao poder os moderados e do malogro do golpe de 30 de Julho resultaria a vitória do ideal que o alimentara: houve acordo para reforma constitucional que foi consubstanciada na lei de 12 de Outubro de 1832. A Câmara cedeu, cedeu o Senado, o Poder Moderador foi mantido, a vitaliciedade do Senado, não prevaleceu o cunho federalista que a Câmara desejava mas o Conselho de Estado foi abolido. Sofreu um atentado em sua própria livraria, a 8 de Novembro de 1832. Recebeu mais de mil visitantes, desde os regentes, ministros de Estado, senadores, ao povo miúdo. Atentado de um pobre sapateiro a mando de um certo coronel Ornelas, amigo de José Bonifácio. Evaristo confessou suspeitar mais do Sr. Martim Francisco, “cuja alma rancorosa todos conhecem”. O certo é que os jornais restauradores, particularmente o Caramuru, tinham seu quinhão de culpa na formação do ambiente de ódios. Em 1833 recrudesceu a campanha da imprensa, empenhada nas eleições para a legislatura 1834-1837 pois a Câmara tinha poderes para realizar a reforma constitucional. Reapareceram jornais antigos como o Brasileiro, e o Nacional, surgiram novos como o Independente, o Sete de Abril, das simpatias de Bernardo Pereira de Vasconcelos. Mas os moderados já não tinham o prestígio anterior, a campanha Caramuru causara impressão - exceto na zona rural. Eram os chamados “eleitores do campo”. Todo o ano 1833 se consumiu na expectativa do retorno do duque de Bragança... Evaristo, convencido de que a trama restauradora era sério perigo, combateu-a, usando a Defensora, e chefiou mesmo a campanha que impediu a volta de D. Pedro, sob qualquer título, e clamava pela suspensão de José Bonifácio do lugar de tutor como “centro e instrumento dos facciosos”. Com sua queda, passou o momento de maior tensão, tudo prometia melhorar. A 14 de Junho de 1833 entrou em discussão o projeto de reforma da Constituição. Discutiu-se inicialmente a quem competia, e a opinião de Evaristo - a competência era da Câmara - foi aprovada por enorme maioria. Depois de Bernardo Pereira de Vasconcelos, seu autor, ninguém mais do que Evaristo estudou o projeto. Declarou inicialmente que, por seu voto, não se tocaria na Constituição - mas cedia à opinião geral, às aspirações autonomistas das províncias, sem esquecer os interesses superiores da unidade nacional. Foi voto vencido na questão da temporariedade da função de Regente pois a Câmara mostrou-se mais liberal que ele, Limpo de Abreu, Paula Araújo e Vasconcelos e quase estabeleceu no Brasil uma verdadeira república provisória. A facilidade com que se votou a reforma tinha explicação no temor à volta de D. Pedro I. Quando o ex-imperador morreu em 24 de Setembro (a notícia chegou ao Rio em Dezembro de 1834), a desagregação dos moderados se processou com rapidez pois nunca houve coesão partidária. Evaristo o julgou com serenidade: “não foi um príncipe de ordinária medida, existia nele o germe de grandes qualidades, que defeitos lamentáveis e uma viciosa educação sufocaram em parte. (...) Se existimos como corpo de nação livre, se a nossa terra não foi retalhada em pequenas repúblicas inimigas, onde só dominasse a anarquia e o espírito militar, devemo-lo muito à resolução que tomou de ficar entre nós, de soltar o primeiro grito de nossa Independência”. A situação política do Brasil dava sinais de persistência de divisão e indisciplina. No Rio Grande do Sul começara a guerra que ia durar dez anos, havia redução no Pará. A grande questão era a escolha do Regente único, de acordo com o Ato Adicional. O candidato de Evaristo foi Feijó, pois dele não via os defeitos e o que temia era a desordem, a anarquia, que prometia a candidatura Holanda Cavalcanti, tido como arrebatado e frenético. Fez a campanha com as mesmas agruras anteriores, destemido, sereno, até que a 7 de Abril de 1835 votaram em todo o Brasil os eleitores, que eram seis mil, cada um com direito a sufragar dois nomes. Com as dificuldades de comunicação, os resultados chegaram morosamente - feita a apuração final a 9 de Outubro, Feijó ficou em primeiro lugar (2.826 votos), Holanda Cavalcanti em segundo (2.251). Com maioria na Câmara, o “partido holandês” tentaria ainda fazer de D. Januária Maria de Bragança regente, mas nada conseguiu.

O fim da Aurora Fluminense
A eleição de Feijó foi a última demonstração do prestígio de Evaristo da Veiga. Estava afastado de Bernardo Pereira de Vasconcelos, de Honório Hermeto, de Rodrigues Torres, era combatido pelos caramurus e ainda teve a amargura de desavir-se com Feijó, regente único - por culpa sua, pensavam todos. Em 30 de Dezembro de 1835 saiu o último número de seu jornal, com oito anos de existência. Recolhia-se a uma vida que desejava tranquila, com as três filhas e a mulher. Mas não se retirou da vida pública, pois em 1836 compareceu normalmente à Câmara. Depois decidiu fechar por uns tempos sua casa na rua dos Barbonos, hoje rua Evaristo da Veiga, e em Novembro partiu para Campanha, onde vivia um irmão. Voltou ao Rio em 2 de Maio de 1837. Visitou Feijó, foi para cama preso à violenta “febre perniciosa”, como diagnosticaram os médicos. Morreu a 12 de Maio, repentinamente, aos 37 anos.

Apreciação
Contribuiu decisivamente para a defesa das instituições públicas, além de trabalhar para o desenvolvimento intelectual e artístico, estimulando jovens escritores. Segundo Octávio Tarquínio de Sousa: “Sua influência nos acontecimentos políticos se fez sentir desde o aparecimento da Aurora Fluminense e ninguém mais do que ele concorreu para criar o ambiente liberal que caracterizaria os primeiros anos da Regência. (...) Evaristo não fez mais do que conformar-se com a revolução, aceitá-la como uma fatalidade”. Caixeiro sem ancestrais ilustres, gordo e deselegante, sem a ajuda de poderosos, sem dons de sedução, que nunca esteve em qualquer universidade, sem deixar o Rio, sem mencionar seu nome do jornal que escrevia, foi eleito e reeleito deputado, assumindo papel de guia e conselheiro- sem improvisação, sem imposturas. Foi jornalista, deputado, político, orientando a opinião do país porque tinha um espírito sério, probidade moral, sinceridade e, sobretudo, uma inteligência lúcida, desapego aos altos cargos, um grande desejo de servir e de ser útil.

Acadêmico
Membro do Instituto Histórico de França e da Arcádia de Roma. Patrono da cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras, por escolha de seu fundador, Rui Barbosa.

Maçom
Iniciado na Maçonaria em 1 de Junho de 1832 na Loja Esperança de Nictheroy n° 0003 no Rio de Janeiro.

Hino da Independência do Brasil

(Imagem 1)
O Hino da Independência foi composto por Evaristo da Veiga e a sua música é de Dom Pedro I. Segundo diz a tradição, a música foi composta pelo Imperador às quatro horas da tarde do mesmo dia do Grito do Ipiranga, 7 de Setembro de 1822, quando já estava de volta a São Paulo vindo de Santos. Este hino de início foi adotado como Hino Nacional, mas quando D. Pedro começou a perder popularidade, processo que culminou em sua abdicação, o hino, fortemente associado à sua figura, igualmente passou a ser também desprestigiado, sendo substituído em 1831 pela melodia do atual Hino Nacional, que já existia desde o mesmo ano de 1822.
(Imagem 1): Dom Pedro I compondo o Hino Nacional brasileiro (hoje Hino da Independência), em 1822. Por Augusto Bracet.
 

Letra

Normalmente, os versos 3, 4, 5, 6, 8 e 10 são hoje omitidos quando o Hino da Independência é cantado.
hino da Independência é cantado.
Hino da Independência
1
Já podeis da Pátria filhos
Ver contente a Mãe gentil;
Já raiou a Liberdade
No Horizonte do Brasil
Já raiou a Liberdade
Já raiou a Liberdade
No Horizonte do Brasil
Refrão
Brava Gente Brasileira
Longe vá, temor servil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.
2
Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil,
Houve Mão mais poderosa,
Zombou deles o Brasil.
Houve Mão mais poderosa
Houve Mão mais poderosa
Zombou deles o Brasil.
(Refrão)
3
O Real Herdeiro Augusto
Conhecendo o engano vil,
Em despeito dos Tiranos
Quis ficar no seu Brasil.
Em despeito dos Tiranos
Em despeito dos Tiranos
Quis ficar no seu Brasil.
(Refrão)
4
Ressoavam sombras tristes
Da cruel Guerra Civil,
Mas fugiram apressadas
Vendo o Anjo do Brasil.
Mas fugiram apressadas
Mas fugiram apressadas
Vendo o Anjo do Brasil.
(Refrão)
5
Mal soou na serra ao longe
Nosso grito varonil;
Nos imensos ombros logo
A cabeça ergue o Brasil.
Nos imensos ombros logo
Nos imensos ombros logo
A cabeça ergue o Brasil.
(Refrão)
6
Filhos clama, caros filhos,
E depois de afrontas mil,
Que a vingar a negra injúria
Vem chamar-vos o Brasil.
Que a vingar a negra injúria
Que a vingar a negra injúria
Vem chamar-vos o Brasil.
(Refrão)
7
Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil:
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.
Vossos peitos, vossos braços
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.
(Refrão)
8
Mostra Pedro a vossa fronte
Alma intrépida e viril:
Tende nele o Digno Chefe
Deste Império do Brasil.
Tende nele o Digno Chefe
Tende nele o Digno Chefe
Deste Império do Brasil.
(Refrão)
9
Parabéns, oh Brasileiros,
Já com garbo varonil
Do Universo entre as Nações
Resplandece a do Brasil.
Do Universo entre as Nações
Do Universo entre as Nações
Resplandece a do Brasil.
(Refrão)
10
Parabéns; já somos livres;
Já brilhante, e senhoril
Vai juntar-se em nossos lares
A Assembleia do Brasil.
Vai juntar-se em nossos lares
Vai juntar-se em nossos lares
A Assembleia do Brasil.
(Refrão)

Referências