sábado, 31 de outubro de 2015

Biografia de George Orwell

George Orwell (1933)
Eric Arthur Blair. Nasceu em Motihari, a 25 de Junho de 1903, e, faleceu em Londres, a 21 de Janeiro de 1950, mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell, foi um escritor e jornalista inglês. Sua obra é marcada por uma inteligência perspicaz e bem-humorada, uma consciência profunda das injustiças sociais, uma intensa oposição ao totalitarismo e uma paixão pela clareza da escrita. Apontado como simpatizante da proposta anarquista, o escritor faz uma defesa da autogestão ou autonomismo. A sua crença no socialismo democrático foi abalada pelo socialismo real que ele denunciou em Animal Farm. Considerado talvez o melhor cronista da cultura inglesa do século XX, Orwell se dedicou a escrever resenhas, ficção, artigos jornalísticos polêmicos, crítica literária e poesia. Ele é mais conhecido pelo romance distópico “Nineteen Eighty-Four” (1949) e pela novela satírica “Animal Farm” (1945). Juntas, estas obras venderam mais cópias do que os dois livros mais vendidos de qualquer outro escritor do século XX. Um outro livro de sua autoria, “Homage to Catalonia” (1938) - um relato de sua experiência como combatente voluntário no lado republicano da Guerra Civil Espanhola - também é altamente aclamado, assim como seus ensaios sobre política, literatura, linguagem e cultura. Em 2008, o The Times classificou-o em segundo lugar em uma lista de “Os 50 maiores escritores britânicos desde 1945”. A influência de Orwell na cultura contemporânea, tanto popular quanto política, perdura até os dias de hoje. Vários neologismos criados por ele, assim como o termo orwelliano - palavra usada para definir qualquer prática social autoritária ou totalitária - já fazem parte do vernáculo popular.

Biografia

Primeiros anos de vida e educação

Residência de Blair em Portobello
Road. (Pic: Alexrk2).
Eric Arthur Blair nasceu em 25 de Junho de 1903 em Motihari, Bihar, na Índia britânica. Seu bisavô, Charles Blair, tinha sido um rico homem do campo em Dorset, que havia se casado com Lady Mary Fane (filha de Thomas Fane, 8º Conde de Westmorland) e se sustentara como senhorio ausente de uma fazenda escravocrata na Jamaica. Seu avô, Thomas Richard Arthur Blair, havia sido um clérigo da Igreja Anglicana. Embora tenha herdado o título de nobreza, o mesmo não ocorreu com a fortuna da família; Eric Blair descrevia sua família como sendo de “classe média-alta inferior”. Seu pai, Richard Walmesley Blair, trabalhava no Departamento de Ópio do Serviço Civil Indiano, agência do governo britânico que regulava o serviço público na colônia. Sua mãe, Ida Mabel Blair (nome de solteira: Limouzin), cresceu na Birmânia, onde o pai dela, de origem francesa, estava envolvido em empreendimentos especulativos. Eric tinha duas irmãs: Marjorie, cinco anos mais velha, e Avril, cinco anos mais jovem. Quando Eric tinha um ano de idade, sua mãe o levou para morar na Inglaterra (veja notas). Em 1904, a mãe família se estabeleceu em Henley-on-Thames. Eric foi criado na companhia de sua mãe e das irmãs e, com exceção de uma breve visita, ele não veria o pai novamente até o ano de 1912. O diário de sua mãe, datado de 1905, indica que a família praticava uma animada rodada da atividades sociais e possuía vastos interesses artísticos. A família se mudou para o vilarejo de Shiplake antes da Primeira Guerra Mundial e Eric fez amizade com a família Buddicom, em especial com Jacintha Buddicom, que também se tornaria poeta. Quando se conheceram, ele estava se equilibrando de cabeça para baixo em um campo e, ao ser perguntado a razão pela qual o fazia, respondeu: “você é mais notado se você se equilibrar de cabeça para baixo do que se você ficar de cabeça para cima”. Jacintha e Eric liam e escreviam poemas e sonhava em se tornar escritores famosos. Ele havia lhe confessado que poderia vir a escrever um livro semelhante a “A Modern Utopia”, de H. G. Wells (Herbert George Wells). Durante este período, ele gostava de caçar, pescar e observar aves com o irmão e a irmã de Jacintha. Aos cinco anos de idade, Eric Blair começou a freqüentar o internato em Henley-on-Thames onde Marjorie havia sido matriculada. Tratava-se de um convento católico dirigido por irmãs Ursulinas francesas, exiladas de seu país de origem após o ensino religioso ter sido banido de lá em 1903. Sua mãe queria que ele fosse educado em uma escola privada, mas a família não era rica o suficiente para pagar as taxas, fazendo-se necessário que ele conseguisse uma bolsa de estudos. Ao irmão de Ida Blair, Charles Limouzin, que vivia na costa sul da Inglaterra, foi feito o pedido que encontrasse a melhor escola possível para preparar Eric para os mais altos desafios - a família acreditava que a formação dele era mais importante que a das irmãs - e, assim sendo, ele recomendou a Escola de São Cipriano, em Eastbourne, Sussex. Limouzin, que era um hábil jogador de golpe, entrou em contato com o diretor da escola através do Eastbourne Royal Golf Club, onde ganhou várias competições em 1903 e 1904. O diretor se comprometeu a ajudar Eric a ganhar a bolsa, e fez um acordo, que permitiu que os pais de Blair pagassem apenas metade das taxas normais. Blair odiou a escola, tendo o seu ensaio “Such, Such Were the Joys”, publicado postumamente, sido baseado nas suas experiências nela. Na escola São Cipriano, Blair conheceu Cyril Connolly, que também se tornaria um escritor notável e que, como editor da revista Horizon, publicou muitos dos ensaios de Orwell. Enquanto esteve na escola, Blair escreveu dois poemas que foram publicados no Henley and South Oxfordshire Standard, um jornal local, ficou em segundo lugar (atrás de Connolly) no Prêmio de História Harrow, onde teve o seu trabalho elogiado pelo examinador externo da escola, e ganhou bolsas de estudo para o Wellington College e o Eton College, dois dos mais distintos internatos inglesas. Depois de passar um período em Wellington, em 1917 Blair tornou-se um "bolsista do rei" em Eton, onde permaneceu até 1921. Seu tutor era A. S. F. Gow, um companheiro do Trinity College em Cambridge, que continuou sendo uma fonte de conselhos durante sua carreira. Blair teve Aldous Huxley como professor de francês quando este lecionou em Eton por um breve período de tempo. No entanto, não se tem evidências de contato entre os dois fora da sala de aula, com exceção de uma carta de Huxley para Blair datada de 21 de Outubro de 1949, após a publicação de “Nineteen Eighty-Four”, onde ele cumprimentou o ex-aluno pelo “excelente e profundamente importante livro”. Cyril Connolly também seguiu para Eton, mas não teve a oportunidade de conviver com Blair, visto que estavam em séries diferentes. Os boletins de Blair sugerem que ele negligenciou os estudos acadêmicos, mas durante aquele tempo ele trabalhou com Roger Mynors na produção de uma revista acadêmica e participou dos Jogos Eton Wall. Seus pais não possuíam dinheiro suficiente para matriculá-lo numa universidade sem a ajuda de uma bolsa de estudos, chegando a conclusão de que suas notas baixas tornariam-no incapaz de obter tal benesse. De acordo com Steven Runciman, um amigo de Blair, ele possuía uma ideia romântica sobre o Oriente e, por algum motivo, foi decidido que Blair deveria fazer parte da Polícia Imperial Indiana. Para tal, era necessário passar por um exame de admissão. Naquela época, o pai dele havia se aposentado em Southwold, Suffolk, e Blair foi matriculado em um "cursinho" lá chamado "Craighurst", onde estudou arte e cultura clássicas, Inglês e História. Blair passou no exame, ficando com a sétima colocação entre os 27 classificados.

Burma

A avó de Blair morava em Moulmein e, devido à família que possuía naquela área, decidiu trabalhar em Burma (atual Myanmar). Em Outubro de 1922, navegou a bordo do SS Herefordshire via Canal do Suez e Ceilão para assumir o seu posto na Polícia Imperial Indiana em Burma. Um mês depois, chegou a Rangum e partiu rumo a Mandalay, onde se localizava a escola de formação policial. Depois de uma curta passagem por Maymyo, principal posto policial das montanhas de Burma, foi enviado, no início de 1924, para o posto fronteiriço de Myaungmya no Delta do Irrawaddy. A vida enquanto policia imperial trouxe responsabilidades consideráveis para o jovem Blair, enquanto a maioria dos seus conhecidos estavam na universidade em Inglaterra. Quando ele foi enviado para Twante como oficial sub-divisional, era responsável pela segurança de cerca de 200.000 pessoas. No final de 1924, foi promovido a Assistente de Superintendente Distrital e enviado para Sirião, mais perto de Rangum. Em Setembro de 1925, foi para Insein, onde se localiza a segunda maior prisão de Burma. Em Insein mantinha "longas conversas sobre todos os assuntos possíveis" com uma amiga jornalista, Maria Elisa Langford-Rae (que mais tarde se tornaria esposa de Kazi Lhendup Dorjee), que observou o seu "senso de justiça absoluta nos mínimos detalhes". Em Abril de 1926, mudou-se para Moulmein, onde morava a sua avó. No final daquele ano, foi para Katha onde, em 1927, contraiu dengue. Ele tinha o direito de voltar para Inglaterra naquele ano e, devido à doença, foi autorizado a voltar para casa mais cedo, em Julho. Enquanto estava de licença em Inglaterra no ano de 1927 reavaliou a sua vida e demitiu-se da Polícia Imperial Indiana, com a intenção de se tornar escritor. A sua experiência como policia em Burma inspirou o romance “Burmese Days” (1934) e os ensaios “A Hanging” (1931) e “Shooting an Elephant” (1936).

Londres e Paris

De volta à Inglaterra, se acomodou na casa da família em Southwold, restabelecendo laços com amigos e participando de um jantar com ex-alunos do Eton College. Ele visitou seu antigo tutor Gow na Universidade de Cambridge com a finalidade de obter conselhos sobre se tornar um escritor e, como resultado, decidiu se mudar para Londres. Ruth Pitter, uma conhecida da família, o ajudou a encontrar um apartamento e, até o final de 1927, ele havia se mudado para um quarto em Portobello Road (uma placa azul em sua comemoração foi colocada em sua residência lá). Pitter se interessou em seus escritos, já que ele coletava material literário sobre uma classe social diferente da dele: os nativos em Burma. Seguindo o exemplo de Jack London, a quem admirava, Blair começou a fazer expedições exploratórias nas favelas de Londres. Em seu primeiro passeio, ele partiu para Limehouse Causeway com a finalidade de passar uma noite em uma casa de alojamento popular. Por algum tempo, Blair viveu como "um nativo" de seu próprio país, se vestindo como um vagabundo e não fazendo concessões aos costumes e às expectativas da classe média. Ele registraria suas experiências de vida na pobreza em “The Spike”, seu primeiro ensaio publicado, e na segunda metade de seu primeiro livro, “Down and Out in Paris and London” (1933). Na primavera de 1928, mudou-se para Paris, onde o custo relativamente baixo de vida e estilo de vida boêmio era um atrativo para muitos aspirantes a escritores. Morou na Rue du Pot-de-Fer. Sua tia Nellie Limouzin também morava em Paris e lhe fornecia ajuda social e, quando necessária, financeira. Ele também escreveu alguns romances, mas apenas “Burmese Days” sobreviveu a esse período. Mais bem sucedido como jornalista, ele publicou artigos no Monde (não confundir com o Le Monde), G. K.'s Weekly e Le Progres Civique (fundada pela coalizão de esquerda Le Cartel des Gauches). Ele adoeceu gravemente em Março de 1929 e, pouco depois, teve todo o seu dinheiro roubado da casa de hospedagem. Seja por necessidade ou simplesmente para coletar material literário, realizou trabalhos domésticos, como lavador de pratos num hotel de luxo na Rue de Rivoli, proporcionando experiências que seriam usadas em “Down and Out in Paris and London”. Em Agosto de 1929, enviou uma cópia de “The Spike” para a revista New Adelphi em Londres. Esta era de propriedade de John Middleton Murry, que havia deixado o controle editorial nas mãos de Max Plowman e Sir Richard Rees. Plowman aceitou publicar a obra.

Revolução Espanhola

Juntou-se à luta no POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), uma milícia de tendência trotskista contra Francisco Franco e seus aliados Benito Mussolini e Adolf Hitler, na Guerra Civil Espanhola. Foi ferido no pescoço. Uma bala danificou-lhe as cordas vocais, saindo pelas costas, e desde então sua voz ficou ligeiramente afeminada. Mais tarde escreveria o livro “Homenage to Catalonia”, em que relata sua experiência no conflito.

Morte

Túmulo de Orwell
Orwell morreu em Londres vítima de tuberculose, aos 46 anos de idade. Tendo solicitado um funeral de acordo com os ritos anglicanos, foi enterrado na All Saints' Churchyard, Sutton Courtenay, Oxfordshire, com o simples epitáfio: “Here lies Eric Arthur Blair, born June 25, 1903, died January 21, 1950” (“Aqui jaz Eric Arthur Blair, nascido em 25 de Junho de 1903, falecido em 21 de Janeiro de 1950”); nenhuma menção é feita a seu célebre pseudônimo.

Down and Out in Paris and London (obra)

Down and Out in Paris and London (Na Pior em Paris e Londres), é um livro de George Orwell, publicado em1933. Foi marcado por ser um período de penúria e total dificuldade para Orwell, e durante este tempo, constrói muitas de suas crenças. No final da década de 1920, quando já estava decidido a tornar-se escritor, Eric Arthur Blair viveu uma experiência bastante radical: submeteu-se à extrema pobreza. Mesmo sem o intuito de narrá-la depois. Teve empregos de baixo nível, passou fome e chegou a conviver com mendigos, morar na rua e, por fim, foi embora de Londres. Desprezado por muitas editoras, o livro só foi lançado em 1933. Foi nesse livro que ele usou pela primeira vez o pseudônimo de George Orwell, que o consagrou um dos maiores escritores do século XX.

Nineteen Eighy-Four (obra)

Nineteen Eighty-Four (em português: Mil Novecentos e Oitenta e Quatro ou 1984) é um romance distópico clássico de George Orwell. Terminado de escrever no ano de 1948 e publicado em 8 de Junho de 1949, retrata o cotidiano de um regime político-totalitário e repressivo no ano homônimo. No livro, Orwell mostra como uma sociedade oligárquica coletivista é capaz de reprimir qualquer um que se opuser a ela. O romance tornou-se famoso por seu retrato da difusa fiscalização e controle de um determinado governo na vida dos cidadãos, além da crescente invasão sobre os direitos do indivíduo. Desde sua publicação, muitos de seus termos e conceitos, como "Big Brother", "duplipensar" e "Novilíngua" entraram no vernáculo popular. O termo "Orwelliano" surgiu para se referir a qualquer reminiscência do regime ficcional do livro. O romance é geralmente considerado como a magnum opus de Orwell.

História

Orwell, que tinha "a tese de seu romance encapsulada no coração" desde 1944, escreveu grande parte de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro na ilha de Jura, na Escócia, entre 1947 e 1948, enquanto sofria de um quadro crítico de tuberculose. Ele enviou o texto final do livro para os editores Secker e Warburg em 4 de Dezembro de 1948, e o livro foi publicado em 8 de Junho de 1949. Em 1989, Mil Novecentos e Oitenta Quatro já havia sido traduzido para mais de 65 idiomas, mais do que qualquer outro romance de um único autor. O título, os termos, o idioma (Novilíngua) presentes no romance, assim como o sobrenome do autor viraram sinônimo para a perda de privacidade pessoal para a política de segurança nacional de um determinado Estado. O adjetivo "Orwelliano" tem muitas conotações. Pode se referir à ação totalitária, assim como às tentativas de um governo em controlar ou manipular a informação com o propósito de controlar, apaziguar ou até subjugar a população. "Orwelliano" também pode se referir à fala retorcida que diz o oposto do que realmente significa ou, mais especificamente, à propaganda governamental que dá nomes errados às coisas; no romance, o "Ministério da Paz" lida com a guerra e o "Ministério do Amor" tortura as pessoas. Desde a publicação do romance, o termo "orwelliano" tem, de fato, tornado-se uma espécie de bordão para qualquer tipo de excesso ou desonestidade governamental e, portanto, tem múltiplos significados e aplicações. A frase Big Brother is Watching You ("O Grande Irmão está te observando") conota especificamente a vigilância invasiva frequente. Apesar de ter sido banido e questionado em alguns países, o romance é, ao lado de “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley e “Nós” de Yevgeny Zamyatin, uma das mais famosas representações literárias de uma sociedade distópica. Em 2005, a revista Time listou o romance como uma das cem melhores obras de língua inglesa publicadas desde 1923.

Título

Um dos títulos originais do romance era O Último Homem da Europa (The Last Man in Europe), mas em uma carta ao editor Frederic Warburg datada de 22 de Outubro de 1948 (oito meses antes do livro ser publicado), Orwell declarou que estava "hesitando" entre este título e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, apesar de que Bernard Crick, biógrafo de Orwell, afirma que foi Warburg quem sugeriu que o título fosse mudado para algo mais vendável. As razões de Orwell para o título são desconhecidas; ele podia estar fazendo uma alusão ao centenário da socialista Sociedade Fabiana, fundada em 1884, ou ao romance distópico “The Iron Heel” de Jack London (onde um movimento político chega ao poder em 1984) ou a “O Napoleão de Notting Hill” de G. K. Chesterton, que se passa em 1984, ou ao poema “End of the Century, 1984” ("Fim do Século, 1984") de sua primeira esposa, Eileen O'Shaughnessy. Anthony Burgess afirma, em seu romance “1985”, que Orwell, estando decepcionado com o começo da Guerra Fria, tinha a intenção de nomear o livro de “1948”. De acordo com a introdução da edição da Penguin Modern Classics edition, Orwell originalmente quis intitular o livro de “1980”, mas com a demora na finalização do romance, ele o nomeou de “1982” e depois de “1984”, coincidentemente o reverso do ano em que foi finalizado, 1948. Mesmo assim, outros acreditam que Orwell intencionalmente escolheu o título do livro como o reverso do ano em que foi escrito, para aludir à possibilidade de que os eventos do romance não estão tão distantes o quanto podem parecer; eles acontecem numa época que se assemelha muito à Grã-Bretanha do final da década de 1940.

Equívocos populares

Um dos maiores equívocos em relação à obra de Orwell é de que se trata de uma desilusão com as ideias socialistas. Em uma carta a Francis A. Henson, membro do sindicato estadunidense United Auto Workers, datada de 16 de Junho de 1949 (sete meses antes de sua morte), que foi reproduzida na revista Life (edição de 25 de Julho de 1949) e no The New York Times Book Review (31 de Julho de 1949), Orwell declarou o seguinte: “Meu romance recente [Nineteen Eighty-Four] não foi concebido como um ataque ao socialismo ou ao Partido Trabalhista Britânico (do qual sou um entusiasta), mas como uma mostra das perversões… que já foram parcialmente realizadas pelo comunismo e fascismo. O cenário do livro é definido na Grã-Bretanha a fim de enfatizar que as raças que falam inglês não são intrinsecamente melhor do que nenhuma outra e que o totalitarismo, se não for combatido, pode triunfar em qualquer lugar”. — Collected Essays.
Num ensaio de 1946 intitulado "Por que Escrevo" ("Why I Write"), Orwell descreve a si mesmo como um socialista democrático, embora afirme que a agenda política trouxe consigo implicações muito diferentes do que seria esperado.

Obras

Romances

- Burmese Days (1934) — (Dias na Birmânia (título no Brasil) ou Dias da Birmânia (título em Portugal))
- A Clergyman's Daughter (1935) — (A Filha do Reverendo (título no Brasil) ou A Filha do Pároco/A Filha de um Reitor (título em Portugal))
- Keep the Aspidistra Flying (1936) — (Mantenha o Sistema/Moinhos de Vento/A Flor da Inglaterra (título no Brasil) ou O Vil Metal (título em Portugal))
- Coming Up for Air (1939) — (Um Pouco de Ar, Por Favor!)
- Animal Farm (1945) — (A Revolução dos Bichos (título no Brasil) ou O Porco Triunfante/O Triunfo dos Porcos/A Quinta dos Animais (título em Portugal))
- Nineteen Eighty-Four (1949) — (1984)

Baseadas em experiências pessoais

Enquanto a substância de muitos dos romances de Orwell, particularmente “Burmese Days”, é tirado de suas experiências pessoais, as obras a seguir são apresentadas como documentários narrativos, ao invés de fictícios.

- Down and Out in Paris and London (1933) - (Na Pior em Paris e Londres (título no Brasil) ou Na Penúria em Londres e em Paris (título em Portugal))
- The Road to Wigan Pier (1937) — (A Caminho de Wigan (título no Brasil) ou O Caminho para Wigan Pier (título em Portugal))
- Homage to Catalonia (1938) — (Lutando na Espanha (título no Brasil) ou Homenagem à Catalunha (título em Portugal))

Ensaios, artigos e outros escritos

"The Spike" (1931)
"A Hanging" (1931)
"Shooting an Elephant" (1936)
"Bookshop Memories" (1936)
"Charles Dickens" (1939)
"Boys' Weeklies" (1940)
"Inside the Whale" (1940)
"The Lion and The Unicorn: Socialism and the English Genius" (1941)
"Wells, Hitler and the World State" (1941)
"The Art of Donald McGill" (1941)
"Rudyard Kipling" (1942)
"Looking Back on the Spanish War" (1943)
"W. B. Yeats" (1943)
"Benefit of Clergy: Some notes on Salvador Dali" (1944)
"Arthur Koestler" (1944)
"Raffles and Miss Blandish" (1944)
"Notes on Nationalism" (1945)
"How the Poor Die" (1946)
"A Nice Cup of Tea" (1946)
"The Moon Under Water" (1946)
"Politics vs. Literature: An Examination of Gulliver's Travels" (1946)
"Politics and the English Language" (1946)
"Second Thoughts on James Burnham" (1946)
"Decline of the English Murder" (1946)
"Some Thoughts on the Common Toad" (1946)
"A Good Word for the Vicar of Bray" (1946)
"In Defence of P. G. Wodehouse" (1946)
"Why I Write" (1946)
"The Prevention of Literature" (1946)
"Such, Such Were the Joys" (1946)
"Lear, Tolstoy and the Fool" (1947)
"Reflections on Gandhi" (1949)

Poemas

"Romance"
"A Little Poem"
"Awake! Young Men of England"
"Kitchener"
"Our Minds are Married, But we are Too Young"
"The Pagan"
"The Lesser Evil"
"Poem from Burma"

Notas

[a] ^ Para Stansky e Abrahams, Ida Blair mudou-se para a Inglaterra em 1907, com base em informações fornecidas por Avril Blair sobre uma época antes do seu nascimento. As provas em contrário seriam um diário de Ida Blair datado de 1905 e uma fotografia de Eric aos 3 anos de idade num típico jardim de uma casa suburbana inglesa. A data anterior também coincide com o ano em que Marjorie, então com seis anos de idade, precisaria entrar numa escola inglesa para efetuar a primária.

Referências


terça-feira, 27 de outubro de 2015

Biografia de Hesíodo

Hesíodo
Hesíodo. (em grego: Ἡσίοδος, transl. Hēsíodos). Hesíodo foi um poeta oral grego da Antiguidade, geralmente tido como tendo estado em atividade entre 750 e 650 a.C., por volta do mesmo período que Homero. Sua poesia é a primeira feita na Europa na qual o poeta vê a si mesmo como um tópico, um indivíduo com um papel distinto a desempenhar. Autores antigos creditavam a ele e a Homero a instituição dos costumes religiosos gregos, e os acadêmicos modernos referem-se a ele como uma das principais fontes para a religião grega, as técnicas agriculturais, o pensamento econômico (chegou a ser referido, por vezes, como o primeiro economista), a astronomia grega arcaica e o estudo do tempo. Hesíodo utilizou diversos estilos do verso tradicional, incluindo a poesia gnômica, hínica, genealógica e narrativa, porém não foi capaz de dominar todas com a mesma fluência; as comparações com Homero costumam lhe ser desfavoráveis. Nas palavra de um estudioso moderno de sua obra, "é como se um artesão, com seus dedos grandes e desajeitados, estivesse imitando, paciente e fascinadamente, a costura delicada de um alfaiate profissional".

Biografia

As datas precisas de sua vida são uma questão contestada nos círculos acadêmicos, e foram abordadas na seção Datas. A narrativa épica não permitia a poetas como Homero qualquer oportunidade para revelações pessoais, porém a obra existente de Hesíodo abrange também poemas didáticos, e nestes o autor desviou-se de sua trajetória para compartilhar com o público alguns detalhes de sua vida, incluindo três referências explícitas, no Trabalhos e Dias, além de algumas passagens da Teogonia, que permitem que algumas inferências sejam feitas. No primeiro, o leitor fica sabendo que o pai de Hesíodo era originário de Cime, na Eólia, litoral da Ásia Menor, ao sul da ilha de Lesbos, e atravessou o mar para fixar-se num vilarejo, nas proximidades de Téspias, na Beócia, chamada Ascra, "uma aldeia amaldiçoada, cruel no inverno, penosa no verão, jamais agradável" (Trabalhos, l. 640). O patrimônio de Hesíodo no local, um pequeno pedaço de terra no sopé do Monte Hélicon, foi responsável por processos judiciais com seu irmão, Perses, que parece ter inicialmente se apossado indevidamente da parte devida a Hesíodo graças a autoridades (ou "reis") corruptos, porém mais tarde acabou ficando pobre e sobrevivendo às custas do poeta, mais precavido (Trabalhos l. 35, 396). Ao contrário de seu pai, Hesíodo evitava viagens marítimas, embora tenha cruzado certa vez o estreito que separa a Grécia continental da ilha de Eubeia para participar nos ritos fúnebres de um certo Átamas de Cálcis, onde conquistou um tripé após participar de uma competição de canto. Também descreveu um encontro entre ele próprio e as Musas, no Monte Hélicon, onde ele havia levado suas ovelhas para pastar, quando as deusas lhe presentearam com um ramo de louros, símbolo de autoridade poética (Teogonia, ll. 22–35). Por mais fantasioso que isto pareça, o relato levou estudiosos antigos e modernos a deduzir a partir dele que Hesíodo não era capaz de tocar a lira, ou não havia sido treinado profissionalmente para tocá-la, do contrário ele teria recebido um instrumento de presente no lugar do cajado. Alguns estudiosos enxergaram em Perses uma criação literária, um recurso utilizado para a moralização desenvolvida por Hesíodo nos Trabalhos e Dias, porém também existem argumentos contrários a esta teoria. Era muito comum, por exemplo, em obras voltadas à instrução moral, utilizar-se de uma ambientação imaginária, como forma de conquistar a atenção do público, porém é difícil imaginar como Hesíodo poderia ter viajado por toda a região rural entretendo as pessoas com uma narrativa sobre si próprio se ela fosse notoriamente fictícia. O professor americano de Estudos Clássicos Gregory Nagy, por outro lado, vê tanto no nome Persēs ("destruidor": πέρθω, perthō) quanto em Hēsiodos ("aquele que emite a voz": ἵημι, hiēmi + αὐδή, audē) como nomes fictícios de personas poéticas. Parece pouco comum que o pai de Hesíodo tenha migrado da Ásia Menor para a Grécia continental, percorrendo o caminho oposto ao da maior parte dos deslocamentos coloniais ocorridos no período; o próprio Hesíodo não apresenta qualquer explicação para o fato. Por volta de 750 a.C., no entanto, ou pouco mais tarde, ocorreu uma migração de mercadores marítimos de sua pátria, Cime, na Ásia Menor, para Cumas, na Campânia (uma colônia que Cime partilhava com os eubeus), e talvez sua mudança para o oeste tenha tido a ver com isto, já que Eubeia não fica longe da Beócia, onde ele acabou por se fixar com sua família. A associação com Cime pela família poderia explicar sua familiaridade com mitos orientais, evidente em seus poemas, embora o mundo grego já pudesse àquela altura ter desenvolvido suas próprias versões daqueles mitos. Apesar das reclamações de Hesíodo a respeito de sua pobreza, a vida na fazenda de seu pai não pode ter sido excessivamente desconfortável a se julgar pela sua obra, especialmente Trabalhos e Dias, já que ele descreve as rotinas de proprietários de terra prósperos, e não de camponeses. Seu fazendeiro emprega um amigo (l. 370) bem como servos (ll. 502, 573, 597, 608, 766), um arador enérgico e responsável já de idade avançada (ll. 469–71), um escravo jovem para cobrir as sementes (ll. 441–6), uma criada para cuidar da casa (ll. 405, 602) e grupos de bois e mulas (ll. 405, 607f.). Um acadêmico moderno sugeriu que Hesíodo teria aprendido sobre geografia geral, especialmente o catálogo de rios citado na Teogonia (ll. 337–45), ao ouvir os relatos de seu pai sobre suas próprias viagens como comerciante. O pai provavelmente falava no dialeto eólio de Cime, porém Hesíodo provavelmente cresceu falando o dialeto beócio local. Sua poesia, no entanto, apresenta alguns eolismos, enquanto não tem quaisquer palavras de origem beócia, já que ele compunha suas obras utilizando o principal dialeto literário da época, o dialeto jônio. É provável que Hesíodo tenha escrito seus poemas, ou os ditado, e não apresentado-os oralmente, como faziam os rapsodos - do contrário o estilo acentuadamente pessoal que emerge de seus poemas teria seguramente sido diluído através da transmissão oral de um rapsodo a outro. Se ele de fato escreveu ou ditou suas obras, provavelmente o fez para ajudar a memorizá-los, ou porque ele não tinha confiança na sua capacidade de produzir poemas de improviso, como costumavam fazer os rapsodos com mais treinamento. Certamente não foi visando qualquer tipo de fama ou posteridade, já que os poetas de seu tempo não conheciam esta noção. Alguns estudiosos suspeitam, no entanto, a presença de alterações em grande escala no texto, e a atribuem a transmissão oral. Hesíodo pode ter escrito seus versos durante períodos de ócio na sua fazenda, na primavera, antes da colheita de maio, ou no meio do inverno. A característica pessoal por trás dos poemas é pouco apropriada ao tipo de "afastamento aristocrático" que um rapsodo deveria ter; seu estilo foi descrito como "argumentativo, desconfiado, ironicamente bem-humorado, frugal, apreciador de provérbios, temeroso quanto às mulheres". Era, de fato, um misógino do mesmo quilate de outro poeta que viveu posteriormente, Semônides. Assemelha-se a Sólon em sua preocupação com a questão do bem contra o mal, e "como um deus justo e onipotente pode permitir que o injusto floresça nesta vida." Lembra Aristófanes em sua rejeição do herói idealizado da literatura épica, preferindo em seu lugar uma visão idealizada do fazendeiro. No entanto, o fato de que ele podia fazer elogios a reis na Teogonia (ll. 80ff, 430, 434) e ao mesmo tempo denunciá-los como corruptos nos Trabalhos e Dias sugere que ele tinha a capacidade de escrever de acordo com o público que ele visava atingir. As diversas lendas que se acumularam ao longo do tempo a respeito de Hesíodo foram registradas em diferentes fontes:

- a história "A Competição de Poesia (Ἀγών, Agōn) de Homero e Hesíodo;
- uma vita de Hesíodo de autoria do gramático bizantino João Tzetzes;
- o verbete sobre Hesíodo na Suda;
- duas passagens e alguns comentários na obra de Pausânias (IX, 31.3–6 e 38.3–4);
- uma passagem na Moralia, de Plutarco (162b).

Duas tradições diferentes, porém arcaicas, registram o local da sepultura de Hesíodo. Uma, do tempo de Tucídides e registrada por Plutarco, pela Suda e por João Tzetzes, afirma que o oráculo de Delfos teria avisado Hesíodo que ele morreria em Nemeia, e por isso ele fugiu para a Lócrida, onde foi morto no templo local dedicado a Zeus Nemeu, e enterrado ali. Esta tradição segue uma convenção irônica familiar: o oráculo acaba prevendo corretamente a despeito da tentativa da vítima de escapar de seu destino. A outra tradição, mencionada pela primeira vez num epigrama de Quérsias de Orcômeno, e escrita no século VII a.C. (pouco mais de um século depois da morte de Hesíodo) afirma que ele estaria sepultado em Orcômeno, uma cidade da Beócia. De acordo com a Constituição de Orcômeno, de Aristóteles, quando os téspios atacaram Ascra, seus habitantes procuraram refúgio em Orcômeno onde, seguindo o conselho de um oráculo, eles juntaram as cinzas de Hesíodo e colocaram-nas num local de honra dentro de sua ágora, próximo ao túmulo de Mínias, seu fundador epônimo. Posteriormente passaram a considerar Hesíodo também como o "fundador de seu lar" (οἰκιστής, oikistēs). Escritores posteriores tentaram harmonizar os dois relatos.

Datas

Os gregos do fim do século V e início do século IV a.C. consideravam como seus poetas mais antigos Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero - nesta ordem. Posteriormente, os autores gregos passaram a considerar Homero mais antigo que Hesíodo. Admiradores de Orfeu e Museu provavelmente eram responsáveis pela precedência dada a estes dois heróis cultuados, e talvez os Homéridas tenham sido responsáveis, posteriormente, por 'promover' Homero às custas de Hesíodo. Os primeiros autores conhecidos a situar Homero antes, cronologicamente, que Hesíodo foram Xenófanes e Heráclide Pôntico, embora Aristarco da Samotrácia tenha sido o primeiro a argumentar a favor da teoria. Éforo descreveu Homero como um primo mais novo de Hesíodo; Heródoto (Histórias, 2.53) evidentemente considerava-os como quase contemporâneos, e o sofista Alcídamas, do século IV a.C., em sua obra Mouseion, representou-os atuando junto numa competição poética (agon) fictícia, que sobrevive atualmente como Competição entre Homero e Hesíodo. A maior parte dos estudiosos de hoje em dia concordam com a antecedência de Homero, porém existem bons argumentos de ambos os lados. Hesíodo certamente antecedeu os poetas líricos e elegíacos cujas obras foram conservadas até os dias de hoje. Imitações de sua obra foram identificadas nos trabalhos de Alceu, Epimênides, Mimnermo, Semônides, Tirteu e Arquíloco, de onde se deduziu que a data mais tardia possível para Hesíodo só poderia ser 650 a.C. Um limite máximo de 750 a.C. como data de sua morte foi indicado por muitas considerações, como a probabilidade de que sua obra tenha sido escrita, o fato de que ele menciona um santuário em Delfos que tinha pouco significado nacional antes de meados de 750 a.C. (Teogonia l. 499), e o fato dele listar rios que deságuam no Euxino, uma região explorada e desenvolvida por colonos gregos apenas no início do século VIII a.C. (Teogonia, 337–45). Hesíodo menciona um concurso de poesia em Cálcis, na ilha de Eubeia, onde os filhos de um certo Anfídamas lhe presentearam com um tripé (Trabalhos e Dias ll.654–662). Plutarco identificou este Amnfídamas com o herói da Guerra Lelantina, travada entre Cálcis e Erétria, e concluiu que este trecho devia ser uma interpolação na obra original de Hesíodo, assumindo que a Guerra Lelantina teria ocorrido numa data tarde demais para coincidir com a vida de Hesíodo. Estudiosos modernos aceitaram esta identificação de Anfídamas, porém discordam de sua conclusão. A data da guerra não é conhecida com precisão, porém é estimada por volta de 730-705 a.C., coincidindo com a cronologia estimada para Hesíodo. Se este for o caso, o tripé concedido a Hesíodo poderia ser conquistado por sua interpretação da Teogonia, um poema que parece destinar-se ao tipo de público aristocrático que estaria presente em Cálcis. Segundo o historiador romano Marco Veleio Patérculo, Hesíodo floresceu cento e vinte anos após Homero, que floresceu novecentos e cinquenta anos antes da composição do Compêndio da História romana.

Obra

Três obras atribuídas a Hesíodo por comentaristas antigos sobreviveram: Os Trabalhos e os Dias (ou As Obras e os Dias), a Teogonia, e O Escudo de Héracles (embora exista alguma dúvida a respeito da autoria deste último, tido por alguns estudiosos como sendo do século VI a.C.). Outras obras atribuídas a ele existem apenas na forma de fragmentos. As obras e fragmentos existentes foram todos escritos na língua e na métrica convencional da poesia épica. Alguns autores antigos chegaram a questionar a autenticadade da Teogonia (Pausânias, 9.31.3), embora o autor cite a si mesmo pelo nome no poema (verso 22). Embora sejam diferentes em diversos aspectos, a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias partilham uma prosódia, uma métrica e uma linguagem característica, que o distinguem sutilmente da obra de Homero e do Escudo de Héracles. (ver O grego de Hesíodo). Além disso, ambos se referem à mesma versão do mito de Prometeu. Ambos os poemas, no entanto, podem conter interpolações; os primeiros dez versos do Trabalhos e Dias, por exemplo, podem ter sido apropriados de um hino órfico a Zeus. Alguns estudiosos detectaram uma perspectiva proto-histórica em Hesíodo, um ponto de vista rejeitado pelo professor de história grega da Universidade de Cambridge, Paul Cartledge, por exemplo, que alega que Hesíodo advogaria uma visão centrada nas recordações, sem qualquer ênfase na verificação dos fatos. Hesíodo também foi considerado o pai do verso gnômico. Tinha "uma paixão por sistematizar e explicar as coisas". A poesia grega antiga em geral tinha fortes tendências filosóficas, e Hesíodo, como Homero, demonstra grande interesse numa ampla gama de questões 'filosóficas', que vão da natureza da justiça divina aos inícios da sociedade humana. Aristóteles (Metafísica, 983b-987a) acredita que a questão das primeiras causas pode até mesmo ter começado com Hesíodo (Teogonia, 116-53) e Homero (Ilíada, 14.201, 246). Hesíodo via o mundo de fora do círculo encantado dos governantes aristocráticos, protestando contra suas injustiças num tom de voz que foi descrito como tendo uma "qualidade ranzinza redimida por uma dignidade lúgubre", porém ele também se mostrava capaz de alterar esse tom para se adequar ao público. Esta ambivalência parece permear sua apresentação da história humana nos Trabalhos e Dias, onde ele descreve um período de ouro no qual a vida era fácil e boa, seguida por um declínio constante no comportamento e felicidade do homem ao longo das idades de Prata, Bronze e Ferro - porém ele insere entre estes dois últimos períodos uma era histórica, representando assim estes homens belicosos sob uma luz mais favorável que seus antecessores, da Idade do Bronze. Ele parece estar, neste caso, querendo satisfazer duas visões de mundo distintas, a épica e a aristocrática, com aquela apresentando pouca simpatia pelas tradições heróicas da aristocracia. Para Werner Jaeger, famoso helenista alemão, com Hesíodo surge o subjetivo na literatura. Na época antiga, o poeta era um simples veículo comandado pelas Musas; já Hesíodo assina sua obra para fazer uma história pessoal. Após exaltar as Musas que o inspiram, diz ele no começo da Teogonia: "Foram elas que, certo dia, ensinaram a Hesíodo um belo canto, quando ele apascentava suas ovelhas ao pé do Hélicon divino".

Teogonia

Teogonia (em grego, Θεογονία [theos, deus + gonia, nascimento] - THEOGONIA, na transliteração), também conhecida por Genealogia dos Deuses, é um poema mitológico em 1022 versos hexâmetros escrito por Hesíodo no séc. VIII a.C., no qual o narrador é o próprio poeta. O poema se constitui no mito cosmogônico (descrição da origem do mundo) dos gregos, que se desenvolve com geração sucessiva dos deuses, e na parte final, com o envolvimento destes com os homens originando assim os heróis. Nesse mito, as deidades representam fenômenos ou aspectos básicos da natureza humana, expressando assim as idéias dos primeiros gregos sobre a constituição do universo.

Resumo do mito

A progressiva gênese do universo da desordem para a ordem presidida por Zeus começa com os elementos fundamentais e se desenvolve por seis gerações sucessivas de deuses: No início Caos, (ou vazio primitivo) e Gaia (a terra) conviviam com Tártaro (a escuridão primeva) e Eros (a atração amorosa) daí sendo gerados (assexuadamente) Hemera (o dia), Nix (a noite), Urano (o céu) e Ponto (a água primordial). Na segunda geração, Urano e Gaia geraram os Titãs, gigantes dos quais destacam-se Cronos (o tempo), Oceano (a água doce), Temis (a Lei), Mnemósine (a memória) e vários monstros míticos. Na terceira geração, Cronos assume o poder e inadvertidamente dá origem a Afrodite (amor sensual) relacionando a noite (Nix) com Tânato (a morte) Hipno (o sono) e Oniro (os sonhos). Ponto origina Fórcis pai de monstros como Górgona, Equidna e Esfinge e Nereu (o mais antigo deus do mar), pai das Nereidas. Oceano dá vida às Ninfas dos ventos Métis (sabedoria) e Hélio (o sol) e Céos gera entre outros Hécate (a dádiva/magia). Numa última etapa, Zeus destrona Cronos seu pai, altura em que é inserida a lenda de Prometeu, dito filho de Jápeto. Mas para consolidar seu poder Zeus teria ainda que lutar e derrotar Tifão filho de Gaia e Tártaro. Daí até o seu final, o poema trata do relacionamento dos deuses com os homens.

Os Trabalhos e os Dias

Os Trabalhos e os Dias (em grego: Ἔργα καὶ Ἡμέραι, transl. Erga kaí Hemérai) também conhecido como As Obras e os Dias, é um poema épico de Hesíodo, um dos primeiros autores conhecidos da Grécia Antiga. Nela o autor, de forma didatica, trata do mundo dos mortais e de sua organização, centrado no temas do trabalho e da justiça, com algum enfoque na história da civilização durante o periodo Clássico da grécia antiga. Nestas se incluem a célebre história de Prometeu, que tirou o fogo do concílio dos deuses e o mito de Pandora. O poema conta com 828 versos e é dirigido ao irmão de Hesíodo, Perses, devido a uma querela relativa à repartição desigual da herança paterna, na qual este levara vantagem indevidamente. Na primeira parte (versos 1-382), após a invocação às Musas, o poeta desenvolve narrativas míticas ("As duas lutas", "Prometeu & Pandora", "Eras do homem" e a fábula o "Gavião e o Rouxinol") como apoio tanto de seus preceitos como da segunda parte do poema, na qual há conselhos práticos e calendários sobre a agricultura (v. 383-627), navegação (v. 628-691), além de conselhos morais (v. 695-828).

Traduções

O poema possui traduções do grego em língua portuguesa, dentre as quais destacam-se a brasileira, de Mary de Camargo Neves Lafer (primeira parte apenas), em edição bilíngüe com introdução e comentários; e a portuguesa, integral, feita por José Ribeiro Ferreira.

História da Astronomia

O trabalhos e dias contém, para além do seu fim pedagógico algumas alusões, ao irmão de Sirius, a estrela mais brilhante do céu vista desde a terra, cuja etimologia se traça a partir de sireus que quer dizer "brilhante".

Outras obras

Além da Teogonia e dos Trabalhos e Dias, diversos outros poemas foram atribuídos a Hesíodo durante a Antiguidade. Acadêmicos modernos têm duvidado, no entanto, de sua autenticidade, e estas obras normalmente são referidas como parte do "Corpus Hesiódico", independentemente de sua verdadeira autoria. A situação foi resumida pelo classicista Glenn Most: "'Hesíodo' é o nome de uma pessoa; 'Hesiódico' é uma designação para um tipo de poesia, que inclui mas não se limita aos poemas cuja autoria pode ser creditada com segurança ao próprio Hesíodo". Destas obras que compõe o corpus hesiódico estendido, apenas o Escudo de Héracles (em grego: Ἀσπὶς Ἡρακλέους, Aspis Hērakleous) foi transmitido de maneira intacta através dos tempos, por intermédio de uma transcrição manuscrita medieval. Os autores clássicos também atribuíam a Hesíodo um longo poema genealógico, conhecido como Catálogo de Mulheres, ou Ehoiai (porque suas seções se iniciam com as palavras gregas ē hoiē, "Ou como as ..."). Era um catálogo mitológico das mulheres mortais que haviam mantido relações sexuais com os deuses, e dos descendentes destas relações.

Diversos poemas hexâmetros foram atribuídos a Hesíodo:

- Megalai Ehoiai, um poema semelhante ao Catálogo das Mulheres, porém supostamente mais longo.
- O Casamento de Céix, um poema sobre o comparecimento de Héracles ao casamento de um certo Céix, conhecido por seus enigmas.
- Melampodia, um poema genealógico que fala sobre as famílias e os mitos associados com os grandes profetas da mitologia.
- Dáctilos Ideus, obra que fala sobre fundidores lendários da mitologia, os Dáctilos Ideus.
- A Descida de Perito, sobre a viagem de Teseu e Perito (ou Pirítoo) ao Hades.
- Preceitos de Quíron, obra didática que apresenta os ensinamentos de Quíron, tal como transmitidos ao jovem Aquiles.
- Megala Erga ("Grandes Trabalhos" ou "Grandes Obras"), um poema semelhante aos Trabalhos e Dias, porém supostamente mais longo.
- Astronomia, um poema atronômico ao qual Calímaco (ep. 27) teria aparentemente comparado o Phaenomena, de Arato.
- Egímio, um poema épico que fala sobre o dório Egímio (e atribuído tanto a Hesíodo quanto a Cércops de Mileto).
- Forno de olaria ou Oleiros, um poema curto pedindo à deusa Atena o auxílio aos oleiros caso eles paguem o poema. Também atribuído a Homero.
- Ornitomancia (Ornithomantia), obra sobre presságios obtidos através de pássaros, que teria se seguido aos Trabalhos e Dias.

Além destas obras, a Suda lista ainda um "canto fúnebre para Bátraco, amado [de Hesíodo]", anteriormente desconhecido.

Recepção e influência

O poeta lírico Alceu, compatriota e contemporâneo de Safo, parafraseou uma seção dos Trabalhos e Dias (582-88), reformatando-o na métrica lírica e passando para o dialeto lésbio. Resta apenas um fragmento da paráfrase. O poeta lírico Baquílides citou ou parafraseou Hesíodo numa ode de vitória endereçada a Hierão de Siracusa, comemorando a vitória do tirano na corrida de carruagens dos Jogos Píticos de 470 a.C.; a dedicatória dizia: "Um homem da Beócia, Hesíodo, ministro das [doces] Musas, falou assim: 'Aquele que os imortais homenageiam também conta com boa reputação entre os homens.'" Estas palavras, no entanto, não foram encontradas nas obras existentes de Hesíodo. O Catálogo de Mulheres de Hesíodo criou uma moeda para catálogos em forma de poemas durante o período helenístico. Teócrito, por exemplo, apresenta catálogos de heroínas em dois de seus poemas bucólicos (3.40–51 e 20.34–41), no qual ambas as passagens são recitadas por personagens de rústicos apaixonados.

Busto

O busto romano de bronze conhecido como Pseudo-Sêneca, datado do final do primeiro século a.C. e encontrado em Herculano, já não é mais considerado como retratando Sêneca, o Velho; a arqueóloga e historiadora da arte britânica Gisela Richter identificou-o como sendo um retrato imaginativo de Hesíodo. Já existiam, no entanto, suspeitas desde pelo menos 1813, quando uma herma com um retrato de Sêneca e feições muito diferentes foi encontrada. A maior parte dos estudiosos atualmente adota a identificação de Richter.

O grego de Hesíodo

Hesíodo utilizou o dialeto convencional da poesia épica, que era o jônio. As comparações com Homero, ele próprio um jônio de nascimento, costumavam ser pouco lisonjeiras. O manuseio do hexâmetro dactílico da parte de Hesíodo não era tão magistral ou fluente quando o de Homero, e um estudioso moderno menciona seus "hexâmetros caipiras". Seu uso da língua e da métrica em Os Trabalhos e Dias e Teogonia o distingue do autor do Escudo de Héracles. Os três poetas, por exemplo, utilizaram de maneira inconsistente o digama, por vezes deixando que ele afetasse a métrica e a duração da sílaba, e por outras vezes não. A frequência da observância ou esquecimento do uso da letra varia entre eles. A extensão destas variações depende de como a evidência foi coletada e interpretada, porém existe uma tendência clara, revelada, por exemplo, no seguinte conjunto de estatísticas.

- Teogonia 2.5/1
- Os Trabalhos e os Dias 1.5/1
- O Escudo de Héracles 5.9/1
- Homero 5.4/1

Hesíodo não utiliza o digama com tanta frequência quanto os outros. O resultado é um pouco contra-intuitivo, já que o digama ainda era uma característica do dialeto beócio que Hesíodo provavelmente falava, e já havia desaparecido do vernáculo jônio de Homero. Esta anomalia pode ser explicada pelo fato de que Hesíodo fez um esforço consciente para compor como um poeta épico jônio, num período em que o digama não costumava mais ser ouvido na fala jônia, enquanto Homero tentava escrever como a geração antiga de bardos jônios, quando ele ainda podia ser ouvido na fala jônia. Também há uma diferença significativa entre os resultados obtidos na Teogonia e nos Trabalhos e Dias, porém isto se deve apenas ao fato de que a primeira obra apresenta um catálogo de divindades, e faz assim uso do artigo definido geralmente associado com o digama, oἱ ("os"). Embora seja típico do dialeto épico do grego, o vocabulário de Hesíodo difere de maneira significativa do de Homero. Um acadêmico contou 278 palavras que não foram usadas por Homero no Trabalhos e Dias, 151 na Teogonia, e 95 no Escudo de Héracles. O número excessivo de palavras 'não-homéricas' na primeira deve-se ao seu tema, considerado igualmente 'não-homérico'. O vocabulário de Hesíodo também apresenta diversas frases formulaicas, que não podem ser encontradas no Homero, o que indica que ele estaria escrevendo a partir de uma tradição distinta.

Referências:

Biografia de Heródoto

Heródoto
Heródoto. (em grego, Ἡρόδοτος - Hēródotos, na transliteração). Heródoto foi um geógrafo e historiador grego, continuador de Hecateu de Mileto, nascido no século V a.C. (485?–420 a.C.) em Halicarnasso (hoje Bodrum, na Turquia). Foi o autor da história da invasão persa da Grécia nos princípios do século V a.C., conhecida simplesmente como As histórias de Heródoto. Esta obra foi reconhecida como uma nova forma de literatura pouco depois de ser publicada. Antes de Heródoto, tinham existido crônicas e épicos, e também estes haviam preservado o conhecimento do passado. Mas Heródoto foi o primeiro não só a gravar o passado mas também a considerá-lo um problema filosófico ou um projeto de pesquisa que podia revelar conhecimento do comportamento humano. A sua criação deu-lhe o título de "pai da história" e a palavra que utilizou para o conseguir, historie, que previamente tinha significado simplesmente "pesquisa", tomou a conotação atual de "história". A obra Histórias foi frequentemente acusada no velho mundo de influenciável, imprecisa e plagiária. Ataques semelhantes foram preconizados por alguns pensadores modernos, que defendem que Heródoto exagerou na extensão das suas viagens e nas fontes criadas. Contudo, o respeito pelo seu rigor tem aumentado na última metade do século, sendo actualmente reconhecido não apenas como pioneiro na história, mas também na etnografia e antropologia. Vale ressaltar sua contribuição aos estudos geográficos, por esse feito a revista de geografia geopolítica, de maior tiragem na França, fundada pelo famoso geógrafo Yves Lacoste leva seu nome. Provavelmente escritas entre 450 e 430 a.C., as Histórias foram posteriormente divididas em 9 livros, intituladas segundo os nomes das musas, pelos eruditos alexandrinos. Por volta de 445 a.C., segundo consta, Heródoto fez leituras públicas de sua obra em Atenas. Quanto ao conteúdo, os primeiros seis livros relatam o crescimento do Império Aquemênida. Começam com uma introdução do primeiro monarca asiático a conquistar as cidades-estado gregas e o verdadeiro tributo, Creso da Lídia. Creso perdeu o reinado para Ciro, o Grande, o fundador do Império Aquemênida. As primeiras seis obras acabam com a derrota dos persas em 490 a.C., na batalha de Maratona, que constituiu o primeiro retrocesso no progresso imperial. Os últimos três livros descrevem a tentativa do rei persa Xerxes I de vingar dez anos mais tarde a derrota persa em Maratona e absorver a Grécia no Império Aquemênida. Histórias acaba em 479 a.C. com a expulsão na batalha de Plateias e o recuo da fronteira do Império Aquemênida para a linha costeira da Anatólia. No que diz respeito à vida de Heródoto, sabe-se que foi exilado de Halicarnasso após um golpe de estado frustrado contra a dinastia no poder em que estava envolvido, retirando-se para a ilha de Samos. Parece nunca ter regressado a Halicarnasso, embora em Histórias pareça sentir orgulho de sua cidade natal e da respectiva sátrapa, Artemísia I de Cária. Deve ter sido durante o exílio que empreendeu as viagens que descreve em Histórias. Estas viagens conduziram-no ao Egipto, Primeira Catarata, Babilónia, Ucrânia, Itália e Sicília. Heródoto refere uma conversa com um informador em Esparta, e muito certamente terá vivido durante um determinado período em Atenas. Nesta, registou as tradições orais das famílias proeminentes, em especial, a Alcmeônidas, à qual Péricles pertencia do lado materno. Mas os Atenienses não aceitavam os estrangeiros como cidadãos, e quando Atenas apoiou a colónia de Túrio na aniquilação de Itália em 444 a.C., Heródoto tornou-se colono. Desconhece-se se lá morreu ou não. Numa determinada altura tornou-se um logios – isto é, um recitador de prosa logai ou histórias – cujos temas baseavam-se em contos de batalhas, maravilhas de países distantes e outros acontecimentos históricos. Fez roteiros das cidades gregas e dos maiores festivais atléticos e religiosos, onde dava espectáculos pelos quais esperava pagamento. Em 431 a.C., a guerra do Peloponeso rebentou entre Atenas e Esparta. Poderá ter sido esse conflito, que dividiu o mundo grego, que o inspirou a reunir logoi numa narrativa contínua – Histórias – centrada no progresso imperial da Pérsia interrompido pela aliança entre Atenas e Esparta.

Histórias (Heródoto)

Historiae
As Histórias (em grego antigo: Ἰστορἴαι, transl. Historiai), divididas em nove livros e escrita por Heródoto de Halicarnasso, é a obra básica da História, a primeira a ter este título - e constitui-se na primeira tentativa do homem em sistematizar o conhecimento de suas ações ao longo do tempo. Data de cerca de 440 a.C..

Contexto

Escrita em dialeto jônico - uma vez que Halicarnasso era uma das cidades gregas situadas na Dória (hoje pertencente à Turquia), bastante próximo daquela outra região (a Jônia). Heródoto viveu entre 485 a.C. e 430 a.C. e, até aquele momento, nenhuma obra procurara reunir os registros historiográficos da Grécia, quer interna, quer em seu relacionamento, muitas vezes belicoso, com países próximos - chamados de bárbaros, dentre os quais a Pérsia (e particularmente as Guerras Médicas). O título por ele escolhido, "Histórias", tinha o significado de pesquisas - mas ganhou em seguida a conotação de registro que até hoje conserva. Não se pode com certeza afirmar se nada similar foi escrito antes ou ao tempo de Heródoto: o fato é que esta obra é a mais antiga sobre a História grega a sobreviver até a atualidade.

Os nove livros das Histórias

Cada um dos livros é dedicado a uma das Musas, que eram em número de nove e, segundo a Mitologia, eram as responsáveis pelas artes. As Histórias constituem um perfeito exemplo de composição literária livre, dentro da prosa grega antiga. Não descreve os fatos de modo linear, a todo tempo a narrativa é interrompida por digressões e comentários sobre o argumento central. Neste particular, assemelha-se à Ilíada, de Homero. A obra tem início no Proêmio, que é onde o autor expõe sua intenção: evitar que os feitos das gerações que o precederam sejam relegados ao esquecimento, explicando-os.

Livro I (Clio)

Ao expor as causas do conflito conhecido por Guerras Médicas, Heródoto aborda as primeiras dissenções e enfrentamentos que se produziram entre gregos e bárbaros, na época mítica (os raptos de Europa, Medeia e Helena de Troia). Entretanto, mantém certa distância em relação a estas tradições e, em seguida, segundo o que ele sabe, indica quem cometeu os primeiros atos de provocação (Creso, rei da Lídia). Expõe, assim, claramente, que a agressão é proporcional à responsabilidade, moral e jurídica. Sua atenção passa, então, para a figura de Creso, o primeiro agressor. A história da Lídia permite que se conheça o grande eixo de sua história, a Pérsia (Império Aquemênida); ao mesmo tempo, firma as bases de sua concepção teleológica dos acontecimentos humanos (relato da entrevista entre Sólon e Creso; I 28-33). O restante do Livro I desvia sua atenção para a Pérsia, com a subida ao trono por Ciro II e as diversas campanhas deste rei (conquista da Jônia, Cária e Lícia).

Livro II (Euterpe)

É em sua totalidade dedicado ao Egito: antigüidade dos frígios; geografia egípcia, história do país, estudos sobre a geografia e o rio Nilo; faz um estudo comparado da religião egípcia, em relação à grega; animais sagrados (gatos, serpentes), sucessão de reis.

Livro III (Tália)

Trata das causas que levaram Cambises II a atacar o Egito. A campanha militar. Detalhes sobre o caráter soberbo e ímpio de Cambises. Sua morte e entronização de Dario I. Cambises, segundo Heródoto é etnocêntrico, quando ridiculariza as práticas religiosas egípcias.

Livro IV (Melpômene)

Segue a expansão persa: Cítia. Digressões acerca dos citas. Campanha contra os citas. Campanha contra a Líbia. É dedicado a uma musa . ɶleni).

Livro V (Terpsícore)

O avanço persa contra a Grécia. Operações contra a Macedônia e Trácia. Sublevação jônica. Aristágoras de Mileto pede ajuda a Esparta e Atenas, o que serve de mote para que o autor desenvolva a História das duas cidades.

Livro VI (Erato)

A Guerra Médica. Incursão persa na Macedônia. História contemporânea de Esparta e Atenas. Desembarque persa na Ática. Batalha de Maratona. Assuntos da política interna em Atenas. Alcmeônidas e Milcíades.Saga de Címon na maratona .

Livro VII (Polímnia)

Precipitação dos acontecimentos. As digressões possuem uma estreita relação estrutural com o núcleo do relato. Traz a morte de Dario, Xerxes I ocupa o controle do império persa e decide invadir a Grécia. Descrição da gigantesca expedição, a passagem do Helesponto e o desenrolar das operações bélicas. Preparativos para a resistência grega. Batalha das Termópilas.

Livro VIII (Urânia)

Batalha do cabo Artemísio. Ocupação e destruição de Atenas. A população e a frota atenienses se refugiam na ilha de Salamina. Batalha de Salamina. Retirada de Xerxes.

Livro IX (Calíope)

Batalhas de Plátea e Micala. Trágicos amores de Xerxes. Tomada de Sesto pelos atenienses. Opinião de Ciro sobre os riscos do expansionismo.

Encerramento

O final das Histórias é problemático. A questão fundamental é se a obra está inacabada ou se Heródoto chegou até o final cronológico que, em sua opinião, poria fim à guerra. Na obra, além disso, há promessas inconclusas (como onde diz que falará dos assírios), que se podem debitar à falta de uma última revisão. É provável que o autor tivesse trabalhado durante muito tempo na obra, com vários planos (umas línguas dispersas, uma História da Pérsia, as Guerras Médicas) e em várias etapas compositivas.

Metodologia

Um aspecto fundamental na hora de se estudar a metodologia em Heródoto é o tratamento das fontes:

1. Como elemento primário para a obtenção de dados, costuma basear-se em suas observações pessoais (ὄψις) articuladas de acordo com o procedimento dos logógrafos (os primeiros escritores gregos), com introdução de um elemento ternário: a descrição geográfica de um país, descrição dos costumes dos moradores e atenção aos aspectos mais surpreendentes (τὰ θωμάσια). Bom exemplo destas passagens que compõem a ὄψις (aspecto), são os λόγοι ("relatos"), que facilitam as informações que, em geral, a crítica moderna tende em comprovar. Em qualquer caso, deve destacar-se sua sinceridade, pois nunca pretende ter visto além do que realmente viu.

2. Um segundo meio, conhecido com o nome de ἱστορίη (investigação), se baseia na obtenção de dados a partir de fontes escritas, de importância capital na composição da obra. Podem destacar-se três grandes grupos: os Poetas (Homero, Hesíodo, Arquíloco, Esopo, Sólon, Safo, Simónides, Alceu, Píndaro, Esquilo, Anacreonte...), as fontes epigráficas (escritos em pedra, argila, etc. – e em certas ocasiões seu desconhecimento sobre as línguas não-gregas levam-no a interpretações singelas), os logógrafos (Hecateu de Mileto, principalmente).

3. A terceira fonte é a ἀκοή, os testemunhos orais. As Histórias de Heródoto são fundamentalmente baseadas na tradição oral (como ao falar de Tucídides, por exemplo). O comum é que faça alusão a estes testemunhos de modo indeterminado, usando expressões do tipo “segundo os persas...”, “uns dizem que...”, “outros sustentam...”, etc.

4. Finalmente, Heródoto completa sua metodologia com uma série de considerações que se agrupam sob o nome genérico de γνῶναι. São argumentações que servem para estabelecer relações de afinidade ou para aprofundar o exame crítico daquilo que está expondo.

É indubitável que se está nos começos do gênero histórico, o que explica o excesso de pontos pouco detalhados, argumentações inconsistentes e falha no rigor analítico. Por outra parte, o desconhecimento da estratégia e tática militares é evidente.

O pensamento de Heródoto

Heródoto representa sem dúvida o espírito antigo. Muito se tem insistido sobre seu paralelo (e amizade) com Sófocles, mas a dualidade teológica e humana que se encontra em sua obra possui maior semelhança com o trabalho de Ésquilo. A dupla motivação factual da tragédia neste autor (responsabilidade humana e causalidade divina), não é diferente da posição de Heródoto, para quem (I 32, 1) “a divindade é, em todos as ordens, invejosa e causa de perturbação”. Mas, ao mesmo tempo, aparece uma tendência que busca no homem mesmo a causa do seu destino. Tem-se um plano sobrenatural que põe em relevo a fragilidade do ser humano, que é “todo incerteza”. O destino, portanto, se converte numa força pré-moral que se impõe de maneira inexorável. Isto implica num pessimismo que é consubstanciado no pensamento grego. O ser humano se sente sujeito às instabilidades e é impotente (ἀμήχανος) ante os desígnios divinos. Sem dúvida, o aparente dogmatismo da φθόνος θεῶν (inveja dos deuses) não diminui a responsabilidade dos homens. Os castigos que este sofre são provocados diretamente na proporção da soberbia (ὕβρις) humana. Quando um homem se encontra numa posição de relevo que excede às suas possibilidades naturais, tente a incorrer em soberbia, e é culpado de crimes e sortilégios, que atentam contra a estabilidade ético-social. Para se precaver das hostilidades divinas o homem deve praticar a justiça, a piedade e a modéstia sem que, como ocorre em Sófocles, seja absolutamente seguro que isto baste para ter sucesso. É um posicionamento similar ao da tragédia, da lírica e da épica. Esta atitude de Heródoto, dirigida pela moderação, determina seu pensamento político: obrigado a exilar-se de sua pátria por um regime tirânico, abomina a tirania, cuja essência é a irresponsabilidade ante a lei e aos demais membros da comunidade; se mostra convencido dos benefícios que representa a liberdade, daí sua admiração por Atenas e justificação de seu apogeu. Liberdade face à subordinação – este é o diferencial entre gregos e bárbaros.

Citações

-"Esta é a mais dolorosa de todas as doenças humanas: dispor de todo o conhecimento e ainda não ter nenhum poder de ação."
-"Se um homem sempre insistisse em ser uma pessoa séria e nunca se permitisse um pouco de alegria e relaxamento, ele enlouqueceria ou se tornaria instável sem saber."
-"De todos os infortúnios que afligem a humanidade, o mais amargo é que temos de ter consciência de muito e controle de nada."
-"Onde é necessária a astúcia não há lugar para a força."
-"É sem dúvida mais fácil enganar uma multidão do que um só homem."
-"Os arqueiros curvam seus arcos quando querem atirar e os afrouxam quando o alvo é atingido. Se os arcos fossem mantidos sempre retesados, quebrariam e falhariam quando o arqueiro precisasse dele. Assim é com os homens. Se constantemente se dedicarem a um trabalho sério e jamais relaxarem um pouco com um passatempo ou uum esporte, perdem o bom senso e enlouquecem."
-"Na paz, os filhos enterram os pais; na guerra, os pais enterram os filhos."
-"É melhor ser invejado do que lastimado."
-"Ficou evidente para todos,e não menos para o próprio Xerxes, que havia muita gente com ele, mas poucos homens de verdade." [Sobre a batalha de Termópilas - Revista Superinteressante nº 238].

Traduções das Histórias

Há em português uma tradução brasileira feita por Mário da Gama Kury, pela Editora da UnB. Também há tradução portuguesa de alguns livros das Histórias pela editora Edições 70. Ambas são feitas a partir do original grego.

Referências: