segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Biografia de Ésquilo

Busto de Ésquilo
Ésquilo. (em grego: Αἰσχύλος, transliteração: Aiskhýlos). Nasceu em Elêusis, c. 525/524 a.C., e, faleceu em Gela, 456/455 a.C.. Ésquilo foi um dramaturgo da Grécia Antiga. É reconhecido frequentemente como o pai da tragédia, e é o mais antigo dos três trágicos gregos cujas peças ainda existem (os outros são Sófocles e Eurípedes). De acordo com Aristóteles, Ésquilo aumentou o número de personagens usados nas peças para permitir conflitos entre eles; anteriormente, os personagens interagiam apenas com o coro. Apenas sete de um total estimado de setenta a noventa peças feitas pelo autor sobreviveram à modernidade; uma destas, Prometeu Acorrentado, é tida hoje em dia como sendo de autoria de um autor posterior. Pelo menos uma das obras de Ésquilo foi influenciada pela invasão persa da Grécia, ocorrida durante sua vida. Sua peça Os Persas continua sendo uma grande fonte de informação sobre este período da história grega. A guerra teve tamanha importância para os gregos e para o próprio Ésquilo que, na ocasião de sua morte, por volta de 456 a.C., seu epitáfio celebrava sua participação na vitória grega em Maratona, e não seu sucesso como dramaturgo. Sobre sua morte, reza a lenda que, ao visitar Gela, na ilha de Sicília, um abutre-barbudo, também conhecido por quebra-ossos, confundindo sua careca com um ovo, deixou cair um osso em sua cabeça matando-o (o abutre-barbudo é conhecido por jogar ossos em cima de ovos para quebrá-los).

Biografia

Não existem fontes confiáveis para a vida de Ésquilo. Diz-se que nasceu por volta de 525 a.C. em Elêusis, pequena cidade a cerca de 27 quilômetros a noroeste de Atenas, aninhada nos férteis vales da Ática ocidental, embora a data tenha sido obtida provavelmente com base na contagem de quarenta anos antes de sua primeira vitória da Grande Dionísia (um dos três grandes festivais em homenagem a Dioniso). Sua família era rica e tinha boa posição social; seu pai, Eufórion, era membro dos eupátridas, a antiga nobreza da Ática. Ainda jovem, Ésquilo trabalhou num vinhedo até que, de acordo com o geógrafo Pausânias, que escreveu no século II d.C., o deus Dioniso o teria visitado em seu sono e ordenado que voltasse sua atenção para a arte então nascente da tragédia. Assim que acordou do sonho, o jovem Ésquilo teria começado a escrever uma tragédia, cuja primeira performance deu-se em 499 a.C., quando tinha apenas 26 anos de idade. Eventualmente obteria sua primeira vitória na Dionísia da Cidade em 484 a.C. As Guerras Persas tiveram um papel fundamental na vida e na carreira do dramaturgo. Em 490 a.C. Ésquilo e seu irmão, Cinegiro, lutaram defendendo Atenas do exército persa de Dario I, na Batalha de Maratona. Os atenienses, embora em número inferior, conseguiram cercar e dizimar as forças persas; esta derrota crucial pôs um fim à primeira invasão persa da Grécia, e foi celebrada por todas as cidades-estado gregas. Embora Atenas tenha saído vitoriosa, Cinegiro morreu durante o combate. Em 480 a.C. Ésquilo foi convocado novamente para o serviço militar, desta vez para combater as forças de Xerxes I, na Batalha de Salamina e, possivelmente, na Batalha de Plateia, em 479. Salamina ocupa um lugar de destaque na peça Os Persas, obra mais antiga do autor a ter sobrevivido aos dias de hoje, executada pela primeira vez publicamente em 472 a.C., e que venceu o primeiro prêmio na Dionísia. Ésquilo foi um dos muitos gregos que haviam sido iniciados nos Mistérios de Elêusis, um culto devotado à deusa Deméter com sede em sua terra natal de Elêusis. Como indica o nome, os membros deste culto supostamente obtinham algum tipo de conhecimento místico secreto. Relatos consistentes dos ritos específicos praticados nos Mistérios são escassos, já que os membros juravam, sob pena de morte, não revelar nada sobre eles aos não-iniciados. Ainda assim, de acordo com Aristóteles, muitos achavam que Ésquilo teria revelado alguns dos segredos do culto no palco. De acordo com outras fontes, uma turba enfurecida teria tentado matá-lo por este motivo, porém ele teria logrado fugir. Ao ser julgado pelo fato, Ésquilo alegou ignorância, e só teve sua vida poupada por seu corajoso serviço nas Guerras Persas. Ésquilo viajou à Sicília uma ou duas vezes durante a década de 470 a.C., a convite de Hierão, tirano de Siracusa, uma das principais colônias gregas no lado oriental da ilha; durante uma destas viagens escreveu As Mulheres de Etna, em homenagem à cidade fundada pelo tirano, e reencenou Os Persas. Em 473 a.C., após a morte de Frínico, um de seus principais rivais, Ésquilo passou a ser o favorito anual na Dionísia, conquistando o primeiro lugar em quase todas as edições da competição. Em 458 a.C. retornou à Sicília pela última vez, visitando a cidade de Gela, onde veio a morrer em 456 ou 455. Alega-se que teria sido morto por uma tartaruga, derrubada das alturas sobre sua cabeça por uma águia, porém a história é provavelmente apócrifa. A obra de Ésquilo era tão respeitada pelos atenienses que, após sua morte, suas tragédias passaram a ser as únicas a poderem ser reencenadas nas edições seguintes das competições teatrais da cidade. Seus filhos, Eufórion e Evéon, e seu sobrinho, Filócles, seguiram seus passos e também se tornaram dramaturgos. A inscrição na lápide de Ésquilo não fazia qualquer menção à sua fama teatral, homenageando apenas suas glórias militares:

Grego
Português
Αἰσχύλον Εὐφορίωνος Ἀθηναῖον τόδε κεύθει
μνῆμα καταφθίμενον πυροφόροιο Γέλας·
ἀλκὴν δ’ εὐδόκιμον Μαραθώνιον ἄλσος ἂν εἴποι
καὶ βαθυχαιτήεις Μῆδος ἐπιστάμενος
Sob esta pedra jaz Ésquilo, filho de Eufórion, o Ateniense,
que pereceu nas terras ricas em trigo de Gela;
da sua nobre bravura o bosque de Maratona pode falar,
assim como o persa de longos cabelos, que a conhece bem.
 
 
Obra
Teatro de Dioniso

A arte grega do drama teve suas raízes nos festivais religiosos dedicados aos deuses da mitologia grega, especialmente Dioniso, deus do vinho. Durante a época em que Ésquilo viveu competições dramáticas passaram a ser uma parte integrante da Dionísia da Cidade, realizada durante a primavera. O festival se iniciava com uma procissão de abertura, à qual se seguia uma competição de rapazes cantando ditirambos, e culminava com duas competições dramáticas. A primeira competição da qual Ésquilo teria participado reuniu três autores que apresentaram três tragédias cada um, seguidas por uma pequena peça satírica. Seguia-se uma segunda competição de cinco dramaturgos cômicos, e os vencedores de ambas as competições eram escolhidos por um corpo de jurados. Ésquilo participou de muitas destas competições ao longo de sua vida, e diversas das fontes antigas atribuem entre setenta e noventa peças a ele. Apenas sete de suas tragédias sobreviveram intactas até os dias de hoje: Os Persas, Sete Contra Tebas, As Suplicantes, a trilogia conhecida como A Oresteia, que consiste das três tragédias Agamenon, As Coéforas e As Eumênides, além de Prometeu Acorrentado, cuja autoria é questionada. Com a exceção desta última, cujo sucesso é incerto, sabe-se com segurança que todas estas venceram a primeira colocação na Dionísia da Cidade. A Vida de Ésquilo alexandrina indica que o dramaturgo teria vencido por treze vezes o torneio. Uma característica marcante da dramaturgia esquiliana parece ter sido sua tendência de escrever trilogias interligadas, onde cada peça serve como um capítulo de uma narrativa dramática contínua. A Oresteia é o único exemplo ainda existente deste tipo de trilogia do autor, porém existem diversas evidências que eram frequentes no catálogo de Ésquilo. As peças cômicas satíricas que se seguiam às suas trilogias dramáticas frequentemente abordavam um tópico mítico relacionado. A peça satírica Proteu, por exemplo, encenada juntamente com a Oresteia, abordava a história do período em que Menelau esteve no Egito, durante sua viagem de volta para casa após a Guerra de Troia. Com base nas evidências fornecidas por um catálogo de títulos de peças de Ésquilo, scholia e fragmentos de peças citados por autores posteriores, acredita-se que três outras das peças existentes de Ésquilo tenham feito parte de trilogias: Sete Contra Tebas seria a peça final de uma trilogia sobre Édipo, e As Suplicantes e Prometeu Acorrentado seriam as primeiras partes de diferentes trios. Diversas destas trilogias abordaram mitos relacionados à Guerra de Troia; uma delas, conhecida coletivamente como a Aquileida, que reunia as obras Mirmidões, Nereidas e Frígios (ou O Resgate de Heitor), narrava a morte de Heitor nas mãos de Aquiles e a subsequente troca do cadáver do herói mediante pagamento de resgate; outra trilogia aparentemente narrava a entrada do aliado troiano Mêmnon na guerra, e de sua morte por obra de Aquiles (Mêmnon e A Pesagem das Almas seriam dois componentes da trilogia); A Premiação das Armas, As Frígias e As Salaminas sugerem uma trilogia sobre a loucura e o subsequente suicídio do herói Ájax. Ésquilo também parece ter abordado o retorno de Odisseu a Ítaca depois da guerra (incluindo o assassinato dos pretendentes de sua esposa, Penélope, e as consequências do ato) com uma trilogia, composta por Os Evocadores de Almas, Penélope e Os Coletores de Ossos. Outras trilogias sugeridas pelos estudiosos teriam abordado o mito de Jasão e os Argonautas (Argos, Lêmnias, Hipsípile), a vida de Perseu (Os Pescadores, Polidetes, Fórcides), o nascimento e os feitos de Dioniso (Sêmele, Bacantes, Penteu) e o cenário posterior à guerra mostrada em Sete Contra Tebas (Eleusinas, Argivas, Filhos dos Sete).

Os Persas

A peça mais antiga do autor a ter sobrevivido até os dias de hoje é Os Persas (Persai), encenada pela primeira vez em 472 a.C., e baseada nas experiências do próprio Ésquilo no exército, mais especificamente na Batalha de Salamina. É única entre as tragédias gregas por tratar de um evento histórico recente, no lugar de um mito heróico ou divino. Os Persas aborda o tema, popular entre os gregos, da húbris, ao colocar a culpa da derrota persa no orgulho sobrepujante de seu rei. A obra se inicia com a chegada de um mensageiro em Susa, capital do Império Aquemênida, trazendo a Atossa, mãe do rei persa Xerxes I, notícias da derrota catastrófica dos persas em Salamina. Atossa visita então a sepultura do antigo imperador Dario I, seu marido, cujo fantasma lhe aparece, explicando os motivos da derrota — resultado, segundo ele, da húbris de Xerxes ao construir uma ponte sobre o Helesponto, atitude que enfureceu os deuses. Xerxes aparece apenas no fim da peça, sem perceber as causas de sua derrota, e a peça se encerra em meio aos lamentos do rei e do coro.

Sete Contra Tebas

Sete Contra Tebas (Hepta epi Thebas), encenada em 467 a.C., aborda um tema contrastante, o do destino e a interferência dos deuses nos assuntos humanos. Também marca a primeira aparição numa obra de Ésquilo de um tema que seria constante em suas peças, o da pólis como desenvolvimento vital da civilização humana. A obra conta a história de Etéocles e Polinices, filhos do desgraçado rei de Tebas, Édipo. Ambos os filhos concordam em se alternar no trono da cidade, porém depois do primeiro ano Etéocles se recusa a ceder o lugar para o irmão, que declara guerra para conquistar a coroa. Os irmãos acabam por se matar durante um combate, e o fim original da peça consistia de lamentos pelos dois mortos; um novo final foi acrescentado à peça cinquenta anos depois, no qual Antígona e Ismena, ainda em luto pela morte dos irmãos, recebem um mensageiro que anuncia um edito proibindo o enterro de Polinices; Antígona declara então sua intenção de desafiar este edito. A peça era a terceira de uma trilogia relacionada a Édipo; as duas primeiras eram Laio e Édipo, e provavelmente abordavam aqueles elementos do mito edípico notórios pela maneira com que foram descritos na obra Édipo Rei, de Sófocles. A peça satírica que concluía a trilogia era A Esfinge.

As Suplicantes

Ésquilo continuou com a mesma ênfase na pólis em As Suplicantes (Hiketides), de 463 a.C., que presta uma homenagem às correntes democráticas que se afiguravam em Atenas antes da fundação do governo democrático, em 461. Na peça as danaides, cinquenta filhas de Dânao, fundador de Argos, fogem de casamentos forçados com seus primos no Egito; apelam ao rei Pelasgo, de Argos, por proteção, porém Pelasgo se recusa até que o povo de Argos se pronuncie sobre a decisão - uma atitude distintamente democrática do monarca. O povo decide que as danaides merecem a proteção, e recebem a permissão de se refugiar dentro das muralhas de Argos, apesar dos protestos egípcios. A publicação em 1952 do Papiro 2256 fr. 3, encontrado nos Papiros de Oxirrinco, confirmou a existência da trilogia danaide, cuja existência já era há muito tida como certa devido ao final em suspense das Suplicantes; as outras duas peças que formam esta trilogia seriam Os Egítiadas e As Danaides. De acordo com uma reconstrução plausível dos últimos dois terços da trilogia, em Egítiadas a guerra entre Argos e o Egito, antecipada na primeira peça, já teve seu fim; o rei Pelasgo foi morto, e Dânao, novo governante de Argos, negocia um acordo de paz com Egito, com a condição de que suas cinquenta filhas casem-se com os cinquenta filhos do rei. Dânao, secretamente, informa a suas filhas sobre a previsão de um oráculo de que ele seria morto por um de seus genros, e ordena às danaides que assassinem os egitíadas durante a noite de núpcias, ao que as filhas concordam. As Danaides se inicia no dia após o casamento, quando se revela que quarenta e nove das filhas mataram seus maridos, como haviam combinado com o pai; Hipermnestra, no entanto, amava seu esposo, Linceu, e poupou sua vida, ajudando-o na sua fuga. Furioso pela desobediência da filha, Dânao ordena que seja presa e executada. No clímax e desenlace da trilogia, Linceu aborda Dânao e o mata, cumprindo assim a profecia do oráculo, e funda uma dinastia em Argos ao lado de Hipermnestra; as outras irmãs são absolvidas de seu hediondo crime, e casam-se com argivos. A peça satírica que se seguiu à trilogia chamava-se Amimone, nome de uma das danaides.

A Oresteia

A mais completa tetralogia de autoria de Ésquilo a ainda existir é A Oresteia, de 458 a.C., da qual apenas a peça satírica está faltando. A Oresteia é também a única trilogia completa de algum dramaturgo grego descoberta pelos estudiosos modernos. Consiste das peças Agamenon, As Coéforas (Choephoroi) e As Eumênides; Juntas, estas obras narram a sangrenta história da família de Agamenon, rei de Argos.

Agamêmnon

Agamêmnon descreve a morte do rei nas mãos de sua esposa, Clitenestra, furiosa e desejosa de vingança - tanto pelo sacrifício de sua filha, Ifigênia, cometido por Agamenon antes da Guerra de Troia, quanto pela sua manutenção da profetisa troiana Cassandra como concubina. Cassandra adentra o palácio, a despeito de seu conhecimento do fato de que também será assassinada por Clitenestra, pois sabe que não pode escapar de seu hediondo destino. O fim da peça inclui uma previsão do retorno de Orestes, filho de Agamenon, que vingará seu pai.

As Coéforas

As Coéforas continua com a história, abrindo com o relato de Clitenestra de um pesadelo no qual ela dava luz a uma serpente. A rainha ordena então a Electra, sua filha, que faça libações no túmulo de Agamenon (com o auxílio das coéforas do título), na esperança de expiar sua culpa. Diante da sepultura, Electra se encontra com Orestes, que acabou de retornar do seu exilo preventivo na Fócida, e juntos planejam vingar-se de Clitenestra e seu amante, Egisto. Ao retornar para o palácio, Electra alega trazer notícias da morte de Orestes; quando Clitenestra chama Egisto para ouvir a notícia, Orestes mata os dois e imediatamente é atacado pelas Eumênides (as Fúrias da mitologia latina), responsáveis por vingar atos de parricídio e matricídio na mitologia grega.

As Eumênides

A peça final da Oresteia aborda a questão do sentimento de culpa de Orestes. As Fúrias perseguem Orestes, expulsando-o de Argos e obrigando-o a se refugiar no campo. Visita então um templo do deus Apolo, a quem roga por ajuda para espantar as Eumênides; Apolo havia encorajado Orestes a matar Clitenestra, e portanto partilhava um pouco da culpa deste ato. As Fúrias, no entanto, pertencem a uma raça mais antiga de deuses, os Titãs, e Apolo não pode exercer qualquer efeito sobre elas; envia então Orestes ao templo de Atena, com Hermes como guia. As Fúrias, no entanto, o encontram, e estão prestes a matá-lo quando Atena, padroeira da cidade de Atenas, surge e declara que um julgamento será necessário para determinar a culpa de Orestes. Apolo apresenta o seu caso e, quando o júri atinge um impasse, Atena toma uma decisão contrária às Fúrias, passando a denominá-las Eumênides ("Bondosas"), e declarando que no futuro todos os julgamentos em situação semelhante deveriam terminar com a absolvição do réu, já que a misericórdia deve sempre preceder a dureza. As Eumênides exalta especificamente a importância da razão no desenvolvimento das leis e, como As Coéforas, louva os ideais de uma Atenas democrática.

Referências

Biografia de Selma Lagerlöf

Selma Lagerlöf
Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf. Nasceu em Mårbacka, Östra Ämtervik, a 20 de Novembro de 1858, e faleceu, também em Mårbacka, a 16 de Março de 1940. Selma Lagerlöf foi uma escritora sueca, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 1909. Selma foi a primeira mulher a ser membro da Academia Sueca, em 1914.

Biografia

Selma Lagerlöf nasceu na paróquia de Östra Ämtervik, província de Värmland, oeste da Suécia, numa propriedade chamada Mårbacka, que seus pais administravam. A região em que estava situada a fazenda era repleta de mitos, lendas e histórias de fantasmas. Seu pai, o tenente Erik Gustaf Lagerlöf, era um homem alegre, original e divertido, e sua mãe, Luísa Wallroth, filha de um rico industrial da região. Selma nasceu com um defeito articular na perna esquerda e, aos três anos de idade, viu-se subitamente impedida de andar, com as pernas inertes, passando a infância sem brincar muito, a ouvir as histórias e lendas contadas por sua babá, Kaysa. Em determinado verão, viajou com a família para uma estação de águas, em Strömstad, onde conheceu a esposa do capitão do navio Jacob. Ao ser convidada a conhecer o navio, Selma viu uma ave-do-paraíso e, sendo uma criança com imaginação, achou-a capaz de fazer milagres, fato que a fez, repentinamente, voltar a andar, apesar de continuar claudicando, por causa das dores que sentia na perna esquerda. Aos 15 anos, depois de ter dedicado toda a infância à leitura, Selma decidiu que seria escritora e passou a escrever milhares de versos. Por volta de 1880, a situação financeira da família entrou em declínio, e começou a fazer pequenos trabalhos para se manter. Em 1882, com a ajuda financeira de um empréstimo feito por seu irmão Johan, Selma entrou para a Kungliga höga lärarinneseminariet, escola que formava professoras e que se preocupava com a causa feminista, incentivando a independência e o progresso social da mulher. Aos 27 anos, concluídos os estudos, foi nomeada professora de História em Landskrona, cidade à margem do Öresund. Em certa ocasião cortou os cabelos que sempre usara em tranças, num gesto que na época era escandaloso e visto como sinal de emancipação feminina.

Academia Sueca

Selma Lagerlöf ocupou a cadeira 7 da Academia Sueca, para a qual foi eleita em 1914.

Carreira Literária

Selma Lagerlöf por Carl Larsson
Em 1885, a família de Selma, mediante a doença do pai e as dívidas do irmão Johan, perdeu Mårbacka. Secretamente, Selma desejava trabalhar o suficiente para recuperar a propriedade da família. Foi auxiliada pela baronesa Sophie Lejonhufvud Adlersparre (Esselde), que a incentivou a publicar seus versos em Dagny, a revista literária feminista fundada por ela. Em 1890, participou de um concurso de contos com alguns capítulos de um romance que estava escrevendo, e ganhou seu primeiro prêmio em dinheiro. Em 1891, publicava o romance completo, A Saga de Gösta Berling. Após o sucesso, vieram Os Laços Invisíveis, em 1894, uma coleção de contos. Desses, o mais popular foi A Penugem. Nessa ocasião, em Estocolmo, Selma conhece Sofia Elkan, escritora de romances históricos, com a qual manterá correspondência e amizade pelo resto da vida. A partir dessa época escreveu Os Milagres do Anticristo, em 1897, na Itália, considerado uma crítica ao socialismo siciliano, e Lenda de uma Quinta Senhorial, em 1898, concebido sobre o tema de A Bela e a Fera. Entre 1900 e 1902, publicou os dois volumes de Jerusalém, após uma viagem ao Egito e à Palestina, e posteriormente Escudos do Senhor Arne, As Lendas de Jesus Cristo e O Livro das Lendas. Já então era considerada uma das maiores escritoras suecas. Alfred Dalin, diretor da escola de Husqvarna, fez-lhe a proposta de um livro para crianças das escolas primárias, que ensinasse a história e a geografia de seu país. Selma aceitou, elaborando extensa pesquisa e viagens de estudo, concluindo entre 1906 e 1907 a obra A maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia, alcançando tamanho sucesso que pôde realizar seu sonho: comprar novamente Mårbacka, em 1910. Em 1904, recebera a medalha de ouro da Academia Sueca; em 1907, fora nomeada doutora honoris causa da Universidade de Uppsala; em 1909, recebera o Nobel de Literatura. Em 1914, entrou para a Academia Sueca, mas conservou sua vida de fazendeira, criando gado e beneficiando farinha de aveia, e continuou escrevendo: A Casa de Liljekrona, em 1911, O Carroceiro da Morte, em 1912, e um compêndio de lendas escritas de 1915 a 1921, reunidas em Gnomos e Homens. Depois publicou O Imperador de Portugal, em 1914, O Exilado, em 1918, a trilogia dos Löwensköld, de 1925 a 1928, entre eles seu último romance, Anna Svärd. Na velhice, publicou apenas volumes de lembranças, e morreu na Mårbacka que tanto amava, sendo enterrada no cemitério de Östra Ämtervik. Desde 1992, seu retrato tem sido destaque na nota de 20 coroas suecas.

Características Literárias

No fim do século XIX, a literatura sueca era dominada pelo realismo naturalista. Selma Lagerlöf, com sua obra mesclada de gnomos, duendes e fantasmas, ao recriar a atmosfera ficcional das lendas e relatos populares, significou uma volta ao romantismo. Era vista, popularmente, como uma narradora que encarnava a arte dos contos populares. Claes Annerstedt, que fez o discurso de recepção para Selma por ocasião da entrega do Nobel de Literatura, em Dezembro de 1909, diria: “Para ela a natureza, mesmo inanimada, possui vida própria, invisível e contudo real”.

A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia (obra)

A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia - em sueco Nils Holgerssons underbara resa genom Sverige - é um romance de Selma Lagerlöf, publicado em dois volumes, entre os anos de 1906 e 1907.

Histórico

Alfred Dalin, diretor de uma escola de Husqvarna, fez à Selma Lagerlöf a proposta de um livro para crianças das escolas primárias, que ensinasse a história e a geografia de seu país. Selma aceitou, elaborando extensa pesquisa e viagens de estudo, concluindo entre 1906 e 1907 essa obra, alcançando tamanho sucesso que pôde realizar seu sonho: comprar novamente sua casa, Mårbacka, em 1910. Sobre tal obra diria, ironicamente, Oscar Wilde: “Não, uma mulher não é capaz de escrever assim. O livro escreveu-se nela”.

Características

A autora soube combinar sua experiência pedagógica com seu talento de narradora. Utiliza fantasias sobre o tema do "Mapa da Suécia", de Snoilsky: Öland é uma borboleta petrificada de asas arrancadas, Blekinge uma escada de três degraus, Hälsingland uma folha com nervuras, Estocolmo a cidade que flutua sobre as águas. O livro propõe uma lição de moral: a exaltação do trabalho, da boa vontade e da caridade, e passa valores tais como o respeito à natureza, a importância do trabalho em grupo e a integridade.

Sumário

Nils, um menino preguiçoso e desobediente que se diverte em maltratar os animais, num domingo em que os pais haviam ido à igreja, aprisiona um duende e, como castigo, é transformado também em duende. Ao subir nas costas de Mårten, um dos gansos de sua propriedade, a ave resolve, num impulso, seguir os gansos selvagens na primavera, e Nils segue viagem com eles. Inicialmente assustado, depois mais confiante, atravessa a Suécia nas costas do ganso, participando de várias aventuras no mundo dos animais. Entre essas aventuras conhece os lapões, quase salva uma cidade que só aparece a cada cem anos, e se torna amigo de vários animais. Sete meses depois, tendo aprendido muito e se tornado uma pessoa melhor, volta à casa de seus pais e à forma humana novamente, mostrando aos poucos que é capaz de sacrificar a própria felicidade à dos outros.

Melhores livros

Em 1999, a empresa francesa de distribuição de bens culturais Fnac e o jornal parisiense Le Monde fizeram uma sondagem para descobrir os 100 melhores livros do século XX, quando 17 000 franceses responderam à pergunta “Quais livros ficaram na sua memória?” (Quels livres sont restés dans votre mémoire?). “A maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia” ficou entre esses 100 melhores livros.

Obras principais

  • Gösta Berlings saga (1891) (trad. A saga de Gösta Berlings - 2007)
  • Osynliga länkar (1894) (trad. Os Laços Invisíveis)
  • Antikrists mirakler (1897) (trad. Os Milagres do Anticristo)
  • Drottningar i Kungahälla (1899) (trad. As Rainhas de Kungahälla)
  • En herrgårdssägen (1899) (trad. A Lenda da Quinta Senhorial)
  • Jerusalém (del 1-2, 1901-02)
  • Bok av Legender (1902) (trad. O Livro das Lendas, por Pepíta de Leão)
  • Herr Arnes penningar (1904) (trad. O Tesouro (2007), Os Escudos do Sr. Arne)
  • Kristuslegender (1904) (trad. Lendas de Jesus Cristo)
  • Nils Holgerssons underbara resa genom Sverige (trad. portuguesa: A Viagem Maravilhosa de Nils Holgersson através da Suécia) (del 1-2, 1906-07)
  • En saga om en saga och andra sagor (1908) (trad. De Saga em Saga)
  • Liljecronas hem (1911) (trad. A Casa de Liljecrona)
  • Körkarlen (1912) (trad. O Carroceiro da Morte)
  • Tösen fran Stormyrtorpet (1913) (trad. A Rapariga do Brejo Grande)
  • Kejsarn av Portugallien (1914) (trad. O Imperador de Portugal)
  • Troll och människor (del 1-2, 1915-21) (trad. Gnomos e Homens)
  • Bannlyst (1918) (trad. O Exilado)
  • Zachris Topelius (1920)
  • Mårbacka (1922)
  • Löwensköldska ringen (1925) (trad. O Anel dos Löwensköld)
  • Charlotte Löwensköld (1925)
  • Anna Svärd (1928)
  • Ett barns memoarer (1930) (trad. Memórias de uma Criança)
  • Dagbok för Selma Ottilia Lovisa Lagerlöf (1932)
  • Höst (1933) (trad. Outono)
  • Meli (1934)
  • Från skilda tider (del 1-2, 1943-45, obra póstuma)

Referências